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Autocontrole, como funciona isso?

Regina Wielenska 20/12/2017 PSICOLOGIA
Autocontrole, como funciona isso?
Fonte: imagem Pixabay
É possível controlar os desejos que surgem, de repente, por impulso; saiba como

por Regina Wielenska

Alguém que estava em dieta entrou na confeitaria, a caminho do banco, para tomar um café. Minutos depois saiu de lá depois de ingerir uma empada (melhor que seja algo assado, ecoa na consciência o autoengano), uma lata de refrigerante, uma torta de morango (ao menos tem fruta) e o tal cafezinho.

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De quebra, fica com culpa e reencontra facilmente o quilo perdido na semana anterior. O que se passa com a pessoa? Alguém diz ao glutão que lhe falta controle dos próprios impulsos, e nossa cultura, ao afirmar isso, parece se referir à falta de algo concreto, pontual, no cérebro ou sei lá onde.

Algo não muito diferente será dito ao sujeito que se endividou além dos limites por conta das promoções irresistíveis na Black Friday: não tem autocontrole! Uma das compras foi uma TV de 50 polegadas. O comprador, desavisado de tudo, estava em casa, viu no noticiário matutino a fila de consumidores desde as seis da manhã numa loja de departamentos. Enlouquecidos, carregavam suas compras rumo aos caixas, sequer sem certeza do preço. Curioso, sentindo estar perdendo algo de muito bom, resolve apenas dar uma olhadinha no site da tal loja, navegar um pouco nas ofertas. Um preço conveniente, nunca visto antes, pagamento supostamente sem juros, facilitado em seis vezes... pronto, caiu na armadilha e comprou algo que absolutamente não era essencial nem compatível com seu momento financeiro presente. Ah! Havia isenção de frete se ele retirasse na loja a TV. Podia ser naquele dia. Lá foi nosso incauto indivíduo resgatar seu sonho de consumo, e de quebra, levou o home theater, mais do que perfeito para fazer par com aquela telona.  Apenas adicionou 60 reais em cada prestação...

Na história evolucionária humana, aprendemos a responder com maior sensibilidade a fenômenos ligados ao aqui e agora, que assegurem nossa sobrevivência ou prazer imediato. Para responder com efetividade a consequências remotas precisamos de experiências de aprendizagem, geralmente propiciadas no seio da família, que nos ensinem coisas do tipo “o apressado come cru”, “quem espera sempre alcança”, “mais vale um pássaro na mão do que dois voando” etc.

Estratégias menos imediatistas

Esses ditados populares, entre tantos outros, estão ligados ao fato de que precisamos usar de estratégias menos imediatistas e mais racionais para darmos conta de conter os impulsos, de forma a evitarmos problemas e maximizarmos benefícios em longo prazo.

Baseada numa área do conhecimento chamada Análise do Comportamento, posso dizer que aprender a agir sob influência de condições remotas, de longo prazo, mais benéficas para o indivíduo, é algo que pode ser facilitado por meio de estratégias. Isso requer pratica, disposição de experimentar o novo e observar os frutos colhidos.

Primeiro, examine seu conflito: o que você quer no momento?

Por quanto tempo e em que intensidade de prazer terá valido ceder aos impulsos?

Observando a sua história e a de outras pessoas que você conhece, quais as chances de você vir a se arrepender subsequentemente?

Que problemas você enfrentaria por ter cedido aos prazeres imediatos? Seja franco, chega de se iludir.

Segundo, quais as armadilhas?

Estar na frente da confeitaria e justificar sua entrada sob pretexto de um café não lhe um contexto torturante, no qual se supõe que seria preciso ser capaz de dizer não às delícias expostas na vitrine?

Passar na frente para ir ao banco já me parece temerário, e o que dizer de adentrar ao recinto e ter que dar conta de desejos fortes? Muita tentação, não?

Outra análise, se eu me reconheço como compulsivo, de que me ajuda navegar “só para dar uma olhadinha nas ofertas”?

Será que meu cartão de crédito não deveria, de comum acordo, ficar sob a guarda da minha esposa, e juntos poderíamos avaliar se cada compra faz ou não sentido, face o poder aquisitivo presente ou os planos do casal para o futuro?

Este passo requer uma análise das pequenas influências que acabam fazendo toda a diferença para se produzir, ou não, um comportamento que denominamos de autocontrole.

Fuja das tentações

Precisa descobrir como se pode fugir ativamente das tentações, exemplos cabem aqui: mudar de calçada pra ir ao banco, não tomar café em locais cheios de gostosuras, combinar que o cartão de crédito fica com a esposa, nem entrar em lojas físicas ou virtuais.

Faça algo que possa concorrer com cair nas tentações, deixe para tomar o café no escritório, mantenha em local visível um planejamento das despesas domésticas, esses são meros exemplos de comportamentos que podemos ter e que se tornam precursores do comportamento mais controlado.

Mude seu ambiente a seu favor, assuma as rédeas da vida identificando pensamentos e ações que te conduzem sutilmente ao fracasso.

Autocontrole não é não sentir desejos e impulsos, mas sim constitui-se em emitir comportamentos que mudam seu ambiente favoravelmente aos teus sonhos mais caros.




TAGS :

    como, controlar, seus, desejos, vícios, impulso

Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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