DESTAQUES

50 anos: momento em que as ilusões morrem

Patricia Gebrim 01/01/2016 PSICOLOGIA
Bençãos que chegam após os cinquenta só se apresentam após a morte das ilusões

por Patricia Gebrim

Enquanto o País se preocupa em nomear os 50 políticos mais corruptos, enquanto a bilheteria dos cinemas enche os cofres com os 50 Tons de Cinza, faço uma reflexão sobre o significado de atingirmos os 50 anos. Meio século... Não é pouca coisa.

Cada idade traz seus presentes e seus desafios, mas creio que esse momento na vida de uma pessoa seja mais do que especial.

Há que se ter sabedoria para lidar com o fato de que neste planeta nada dura para sempre. Se eu fosse escolher uma frase para ilustrar essa passagem para a segunda metade da vida, diria que esse é "o momento em que as ilusões morrem", e como sempre acontece quando algo morre, não se passa por isso sem certa dor.

Não que seja ruim uma ilusão morrer. Ora, se era uma ilusão, não era real, e sua morte é o que de melhor poderia acontecer. A morte de uma ilusão implica no nascimento de uma vida mais baseada na realidade. Mas dói. Disso não se pode fugir. Não há como se chegar aos 50 anos sem se ter passado por um bom tanto de decepções, sem ter sido ferido por alguém, sem ter ferido alguém, sem ter se decepcionado com a vida, com os outros, consigo mesmo, sem ter se frustrado, sem ter perdido coisas importantes, pessoas... Sem ter chorado, sem ter errado o caminho, tentado de novo, errado outra vez. Sem ter sido enganado, sem ter perdido um amigo, sem ter tido que renegociar os próprios sonhos, sem descobrir que não conseguimos tudo o que queremos, por mais esforço que façamos na vida. E se nada disso tiver acontecido, ainda assim não se chega aos 50 anos sem ter que lidar com as rugas, com os cabelos que insistem em ficarem brancos, com a dificuldade de enxergar de perto, com os joelhos que começam a fazer estranhos barulhos crocantes.

Uma intensa quebra acontece nessa idade. Somos quebrados de tantas formas que não nos resta mais nada a fazer do que deixar morrer. Essa é a sabedoria da meia-idade. Deixar morrer. É triste quando isso não acontece e as pessoas seguem tentando se agarrar ao que já não pode ser. Repito: não há como impedir que a vida flua, e a grande sabedoria está em fluir com ela, deitar-se no colo da vida e desfrutá-la a cada curva do rio da vida.

Vantagens

É preciso compreender que se as ilusões morrem, abre-se um novo e maravilhoso espaço para o que é verdadeiro. Finalmente! Algo pode nascer. Nossa liberdade de ser. Finalmente não precisamos mais amassar nossos pés em saltos altos só para agradar outro alguém. Não precisamos estar presentes em eventos sociais repletos de pessoas desinteressantes. Não precisamos fingir que gostamos de alguém só para conseguir a aprovação de outro alguém. Não precisamos estar em um relacionamento destrutivo só para evitar estar sozinhos. Não precisamos mais gastar essa enorme quantidade de energia apenas para manter as ilusões.

A sabedoria, quando presente, nos ajuda a parar de tentar controlar aquilo sobre o que não temos controle algum, e é dessa forma que começa a sobrar energia para investirmos no que de verdade nos importa, seja lá o que for. Encontrar paz nos pequenos flashes de luz de nosso cotidiano, na brincadeira com uma criança, ou um animalzinho, na plantinha que brota da terra, na conversa com uma amiga querida, no toque macio dos lençóis que nos abraçam antes de dormir.

Mas eu lhes digo, é preciso um pouco de paciência. As bençãos que chegam após os cinquenta só se apresentam após a morte das ilusões. Como em qualquer nascimento, é preciso passar pela escuridão do túnel antes de chegarmos a uma nova paisagem, mas eu lhes garanto... Uma nova vida os aguarda do lado de lá, mais leve, mais livre, esperando por vocês.

Quando morrem as ilusões da juventude, finalmente ganhamos as asas de nosso verdadeiro ser.




Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento



ENQUETE

Você se sente seguro (a) andando pelas ruas do Brasil?





VOTAR!
Vya Estelar - Qualidade de vida na web - Todos os direitos reservados ®1999 - 2018
O portal Vya Estelar não se responsabiliza pelas informações e opinião de seus colunistas emitidas em artigos assinados.
É proibida a reprodução do conteúdo desta página em qualquer meio de comunicação.