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Medicar-se com responsabilidade: uma questão de compromisso

Regina Wielenska 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Há quem tema [...] os fármacos de tarja vermelha ou preta

por Regina Wielenska

Vira e mexe ouço alguém dizer: "Minha pressão está ótima, então vou parar de tomar o remédio". A mesma ladainha se aplica ao modo como alguns lidam com o tratamento de condições como esquizofrenia, transtorno bipolar do humor, alterações da tireoide, entre outros quadros clínicos, igualmente importantes.

Não raro alguém se medica por conta própria ao sentir algum sintoma chato, seja por que o vizinho comentou que tal remédio funcionou quando foi acometido por sintomas similares ou por que o balconista da farmácia indevidamente afirmou que o remédio x era tiro e queda para dor ou febre. O problema é que conglomerados de sintomas similares podem representar doenças muito distintas, cada uma com tratamento específico e remédios diferenciados.

Abençoadas as medicações, fontes de cura e bem-estar. Disso não duvido. Mas doses em excesso ou a menos não vão ajudar ninguém. Muita gente interrompe um tratamento com antibiótico precocemente, tão logo se sente melhor, e com isso não aniquila devidamente todas as bactérias, e favorece que algumas delas se tornem resistentes aos fármacos. Ou seja, chega a hora em que certas infecções não mais serão curadas com aquele remédio. Conheci quem se tornou abusador de analgésico, começou com doses precisas, recomendadas pelo médico, e depois nunca mais voltou para se consultar. Apenas passou a fazer uso de doses enormes por conta própria e comprando o que desejava tomar por meios ilícitos, no mercado negro das substâncias de uso controlado.

Quem sofre de hipertensão e recebeu do médico uma receita para tomar regularmente um tal remédio precisa entender que esse remédio é de uso contínuo. Não se interrompe o tratamento, exceto sob ordens e supervisão médica.

Há alguns anos contaram-me a história de uma mãe que interrompeu bruscamente o tratamento da asma do filho, tratado com corticoides, sob a justificativa de que havia alguns efeitos colaterais ruins. O resultado foi desastroso, porque essa classe de medicamentos só pode ser retirada lentamente, seguindo-se um protocolo orientado pelo médico. Ao agir por conta própria, supostamente em benefício do filho, a mãe quase matou a criança, ao assumir uma decisão inadequada.

Já testemunhei portadores de esquizofrenia ou seus familiares fazerem forte oposição ao tratamento contínuo, tão necessário nesses casos. O resultado é o aumento de recaídas, ocorrem novos surtos psicóticos, e cada um deles pode prejudicar a capacidade cognitiva e afetiva da pessoa. Prevenir os surtos e conter os sintomas, que são fonte de intenso sofrimento, é uma tarefa fundamental a ser desempenhada pela medicação regular, que será complementada por terapia e outras modalidades complementares de tratamento.

Há quem tema, por mero preconceito e desinformação, os fármacos de tarja vermelha ou preta. Por vezes, essas mesmas pessoas não se opõem aos abusos etílicos ao volante, e nem valorizam práticas sexuais seguras, capazes de evitar doenças sexualmente transmissíveis e a gravidez indesejada. Não é uma total incongruência atacar os fármacos prescritos pelo especialista por se temer as tarjas (com seus obscuros significados) e assumir impensadamente os riscos daqueles comportamentos imprudentes sem a menor reflexão a respeito?

Estas reflexões tangenciam um problema frequente, cujas raízes estruturam a relação médico e paciente. Provavelmente, a falha está no preparo de ambos; o médico nem sempre é treinado o suficiente para aprender a se comunicar de forma a ser realmente entendido pelo paciente. Há diferenças culturais, dificuldades intelectuais, vergonha, inassertividade e outros fatores que atrapalham o paciente, que sai confuso e cheio de dúvidas do consultório. Em alguns casos a "ficha cai" horas ou dias depois da consulta e o problema continua. Da parte do profissional, a questão se refere ao treino de comunicação inadequado, jornadas exaustivas, pouco tempo para dialogar com o paciente e construir com ele um vínculo de qualidade do qual a comunicação aberta faça realmente parte.

Médicos são seres capazes de falhar, como todos nós, mas certamente foram treinados bem mais do que cada um nós na complexa ciência e arte de prescrever tratamentos. Vamos então cultivar a comunicação franca e o respeito recíproco na relação médico-paciente e aderir com disciplina aos tratamentos propostos?




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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