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Felicidade: não existe receita pronta, mas sim um caminho

Luiz Alberto Py 02/08/2016 PSICOLOGIA
Felicidade: não existe receita pronta, mas sim um caminho
Fonte: Imagem Pixabay
Precisamos ser capazes de conviver com o sofrimento

por Luiz Alberto Py

A maior parte dos problemas emocionais que embaraçam a vida das pessoas se origina de princípios e conceitos mal compreendidos ou mal ensinados. Por exemplo, quantas vezes as pessoas brigam umas com as outras por se sentirem ofendidas por gestos ou palavras.

Provavelmente a idéia sobre o que seja ofensivo está mal aplicada, na maioria dos casos.

Presenciei, certa vez, um motorista de táxi, em Portugal, ficar transtornado de raiva por ter sido chamado de "urso" por um colega. Como eu não sabia qual era o significado que eles davam à palavra urso, pude me dar conta de como era ridículo alguém se ofender por tão pouco. Na verdade ser insultado é apenas uma convenção. Quando eu era criança, o desafio para uma briga vinha através de pisar no chão cuspido pelo adversário.

Isso nos leva a pensar sobre o que vem de fato a ser a honra e a dignidade pelas quais muitos estão dispostos a matar e a morrer. Nossos valores estão baseados em crenças que desenvolvemos desde a infância. E não são somente crenças religiosas, mas culturais. Somos ensinados a acreditar que determinadas coisas são certas e belas e outras erradas e feias. Ao nos tornarmos adultos devemos revisar nossas crenças éticas, morais e estéticas e determinar, pelo raciocínio, quais os valores que nos são realmente importantes.

Certezas absolutas e verdades inabaláveis fazem parte do repertório das mentes infantis e juvenis. As lições de vida costumam ser oferecidas às crianças de uma forma muito autoritária e radical. Pais e educadores formulam conceitos prontos, idéias preconcebidas e os apresentam aos jovens como sendo verdades absolutas e inquestionáveis. Na puberdade, em um movimento natural e espontâneo, os adolescentes começam a desenvolver uma saudável desconfiança sobre o que lhes foi dito e o que aprenderam ao longo dos primeiros anos de vida. Questionam e tentam refutar os conceitos que lhes são apresentados e iniciam um processo de revisão de conhecimentos e de códigos, éticos e estéticos.

É lamentável que na maioria das pessoas este processo de questionamento e revisão perca o fôlego na medida em que os jovens vão se tornando adultos e novas preocupações invadem suas vidas. No começo da idade adulta vai ocorrendo um processo de cristalização de conhecimentos e conceitos. Tal processo ajuda as pessoas a solidificarem seus pensamentos o que nessa fase da vida contribui para um melhor posicionamento frente às novas dificuldades existenciais que se apresentam. É desejável que, indo em direção à maturidade e à sabedoria, cada um de nós recupere a capacidade de mudar de opinião e aprender com as novas experiências.

Ofereço a seguir algumas idéias sobre o questionamento de valores. Esta primeira diz respeito à seguinte fábula recebida através da Internet

Fábula

Um cientista colocou quatro macacos numa jaula onde havia uma escada com um cacho de bananas no topo. Quando um macaco subia a escada para apanhar as bananas, um mecanismo dava choques elétricos nos que estavam no chão. Depois de certo tempo, quando um macaco ia subir a escada os outros o impediam com pancadas. Passado algum tempo, nenhum macaco subia mais a escada, apesar da tentação das bananas. Então, o cientista substituiu um dos macacos. A primeira coisa que ele fez foi subir a escada, dela sendo rapidamente retirado pelos outros, que o surraram. Depois de apanhar, o novo integrante do grupo desistiu de pegar as bananas. Um segundo foi substituído, e o mesmo ocorreu, tendo o primeiro substituto participado, com entusiasmo, da surra ao novato. Finalmente, um terceiro e o último foram trocados, repetindo-se os fatos. Sobrou, então, um grupo de macacos que, embora nunca tivesse tomado choque elétrico, continuava batendo em quem tentasse pegar as bananas. Se fosse possível perguntar a eles porque espancavam quem subia a escada, a resposta seria: "Não sei, foi assim que eu aprendi que devia se fazer". Vale a pena refletir sobre quantas vezes na vida nos comportamos como os macacos desta fábula, repetindo comportamentos ensinados sem saber a razão deles.

Meu filho de quatro anos recebeu a visita de um amiguinho, acompanhado da mãe. Enquanto eles brincavam, a mãe do amiguinho tentava tomar conta dos dois e se afligia com as travessuras dos meninos. Num determinado momento eles começaram a experimentar subir dois degraus de uma escada e pular. Depois de eles terem repetido várias vezes a proeza, ela não se agüentou e reclamou: "Vocês vão acabar se machucando!". Meu filho olhou-a espantado e comentou com o colega: "Como é que ela quer que a gente não se machuque?" Acho que essa realista observação de uma criança, na ingenuidade de seus quatro anos, situa com aguda precisão o problema de como se vive a vida.

Como viver sem se machucar? Para evitar dores e ferimentos somente renunciando à emocionante aventura da vida. Quantas e quantas vezes vemos pessoas se acovardando e fugindo de enfrentar seus desafios pelo medo do sofrimento? Quantas vezes cada um de nós se esquivou de correr um risco em busca de algo mais para ser feliz simplesmente por estar assustado com a possibilidade de fracassar e por não se sentir capaz de suportar a agonia do insucesso? Fico contente ao ver que meu filho compreende que em todos os momentos da vida, nas brincadeiras e travessuras também, existe a probabilidade de um acidente e que isto nos ensina a ter cuidado, mas não deve nos paralisar.

Sentimento de culpa X condição de culpado

Quero assinalar a diferença existente entre o sentimento de culpa e a condição de ser culpado. Sentir-se culpado é um fenômeno freqüente, comum em nossa cultura. Qualquer pessoa pode ter sentimentos de culpa por tudo o que faz e pelo que deixa de fazer também. Esses sentimentos se originam de um elemento cultural que cresceu em nossa Civilização através do Cristianismo, a partir do Judaísmo. Costumamos chamar nossa Civilização de Judaico-Cristã Ocidental porque o elemento religioso é uma de suas determinantes fundamentais. Herdamos uma religião que supervaloriza o pecado e acredita em sua implacável punição vinda do julgamento de um Deus severo. O conceito de pecado, na maioria das outras religiões, é vago e encarado de forma leve.

Nossa Civilização está imersa em um sentimento de culpabilidade relacionado com a crença de que somos responsáveis por nós mesmos como se fôssemos autores de nós e não meras criaturas. Tal sentimento é estimulado pela influência da religião e também por uma idéia arrogante a respeito do nosso poder sobre quem somos e como nos formamos. Na verdade nós não nos escolhemos, apenas existimos e devemos tentar ser o melhor que pudermos. Por outro lado, culpa é um conceito bem mais definido, relacionado com nossa responsabilidade social e legal sobre quem somos e o que fazemos.

Muitas pessoas gostam de nos dar palpites a respeito de nós, de nosso comportamento. Existem duas formas radicais de nos posicionarmos em relação às opiniões alheias sobre nós. Uma é descartá-las como pouco importantes; outra é se deixar oprimir por elas, segui-las e obedecer ao que os outros acham sobre o que somos ou sobre o que fazemos. Ambas alternativas pecam pelo extremismo. Podemos encontrar uma forma de nos relacionar com a visão que os outros têm de nós sem nos deixarmos reprimir e tampouco sem desprezarmos a contribuição que nos esteja sendo oferecida.

A opinião alheia serve como uma referência que nos permite saber como estamos sendo percebidos, da mesma forma que um espelho nos ensina como é a imagem que as pessoas têm de nós. Quando ouvimos com atenção, com isenção e sem preconceitos o que as pessoas têm a dizer sobre nós, aprendemos coisas que ainda não sabemos e recebemos preciosas informações sobre como nos mostramos para o mundo. Comparar diversas opiniões nos ajuda a não ficarmos presos apenas a uma visão particular que pode estar destorcida, e nos permite chegar a ter um conjunto de observações que podem nos guiar em um processo de auto-aprimoramento. Outro elemento fundamental para o bom uso das observações alheias consiste em avaliar cuidadosamente a qualidade das opiniões e a confiabilidade de quem as formula.

Precisamos ser capazes de conviver com o sofrimento e com todas as dificuldades de nossa vida sem perder o rumo da felicidade. Ser feliz é conseqüência da possibilidade de se superar os padecimentos e os fracassos e manter o coração intacto. A felicidade depende de nossa capacidade de suportar o infortúnio e manter a fé na vida e na natureza, sem nos deixarmos abalar por dificuldades pessoais.

Aqui vai uma reflexão e uma receita para nos ajudar a melhor viver. Conseguimos o máximo de relaxamento para nossos olhos quando os focalizamos em paisagens distantes, principalmente as mais ligadas à natureza. Quando os olhos estão relaxados, a gente começa também a se relaxar. Este fato pode nos estimular a aprender a olhar para nossos problemas como se eles estivessem distantes. Assim, podemos apreciá-los em sua totalidade, ver a relação que têm com outros aspectos da vida e, ficando com uma perspectiva suficientemente afastada, eles nos afetarão com menor intensidade.

Para sermos felizes convém nos despreocuparmos com a própria felicidade, amar os outros e nos dedicarmos a ajudá-los a serem felizes. Ser feliz com a felicidade dos outros é mais fácil - as pequenas coisas que os incomodam são vistas por nós dentro de uma perspectiva mais realista e adequada.




Luiz Alberto Py

É médico psiquiatra e psicanalista. Clinica no Rio de Janeiro e faz palestras por todo o Brasil. Publicou em 2002 o best-seller "Olhar acima do horizonte", em 2004: "A felicidade é aqui" e "Saber amar" todos pela editora Rocco. Mais informações: http://doutorpy.blogspot.com



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