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A perspectiva do outro: a raiz da empatia e da compaixão

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA
Educar uma criança envolve lhe ensinar a lidar com a frustração

por Regina Wielenska

Para uma criança bem pequena, é impossível deixar de chorar se a cólica lhe acomete às três da manhã.

O choro é seu único mecanismo de sobrevivência, assim é que ela comunica seu sofrimento e tem chances de ser adequadamente cuidada. E se a casa inteira acordar por conta do seu choro? E se o choro afetar os vizinhos? O bebê não tem condição neuropsicológica de se preocupar com essas questões. O que vale é o sofrimento cessar.

À medida que cresce, a situação da criança se modifica: quando ela puxa com força o cabelo da mãe, essa expressa dor, remove a mão da criança e lhe diz que “não pode puxar o cabelo da mamãe”. Isto vale para situações similares, seja quando tenta arrancar um brinquedo da mão do colega de creche ou cutuca o cachorro. Vai levar um tempo, mas, ainda que em passos de formiga, essa criança vai acabar por aprender que ela é capaz de agir de forma favorável ou prejudicial, a si mesma ou a terceiros.

Para isso acontecer, duas coisas são essenciais: ela terá que ter uma visão de si como alguém distinto, único, separado, mas interligado ao resto do mundo (visto que seus comportamentos produzem efeitos sobre o mundo) e se dar conta de que o outro é capaz de sentir, pensar, querer, coisas absolutamente diferentes daquelas que ela pensa, sente ou deseja. Essa é a base da aprendizagem da arte de conviver em sociedade: como negociar o que eu desejo quando isso entra em rota de colisão com as necessidades ou ponto de vista do outro?

A criança quer colo bem na hora que a mãe precisa sair em disparada ao trabalho. Ou deseja ver mais TV, bem quando o jantar será servido. A lista de situações desse tipo que fazem parte da vida de uma criança parece não ter fim.

Educar uma criança é, em parte, lhe ensinar a tolerar algum grau de frustração. E também significa ensiná-la a se colocar na perspectiva do interlocutor, entender o ponto de vista da outra pessoa:

“Se você estragar o brinquedo do amigo, ele vai ficar triste e não mais vai te emprestar as coisas dele”

“Agora o papai está no carro, vindo aqui prá casa, ele não tem como atender o celular”

“Olhe, o nenê está chorando, o que será que ele precisa?”

Dama e xadrez são jogos de tabuleiro que, para vencer a partida, dependem principalmente de capacidade de prever o ponto de vista do adversário, suas prováveis jogadas, de maneira a ter como bloqueá-las. Esconde-esconde é outra brincadeira que também ajuda nesse processo, a criança precisa se colocar num esconderijo que seja efetivamente inacessível aos olhos e perspicácia dos “inimigos”.

Quando uma criança, ao ver desenhos animados, se emociona com a situação de orfandade do jovem Rei Leão ou do Bambi, ela parece estar a caminho de adquirir a capacidade de se por na posição de outra pessoa e de sentir emoções parecidas. Trata-se da aquisição da capacidade de empatizar com a alegria ou sofrimento do outro, uma habilidade muito importante na vida em sociedade. Quem é capaz de sentir empatia terá menos chance de lesar o outro, de se aproveitar de alguma fraqueza de alguém para obter um benefício da situação. O ditado popular “Não faça ao outro o que não você não quer que façam a você” traduz bem essa questão.

A compaixão é irmã da empatia, trata-se de uma forma de ação orientada para o bem-comum, dirigida por valores de amor ao próximo. A criança que é ensinada a cuidar de seus brinquedos, curti-los à vontade (até enjoar deles ou ficar grande demais para aquela atividade) pode ser também estimulada a doar esse brinquedo a quem não tem recursos.

Parece bobagem, mas uma criança também se beneficia quando aprende a respeitar o difícil trabalho dos catadores de lixo, que empurram carroças pesadas nos grandes centros urbanos em busca de metal e papel. Descobrir que ainda há pessoas que precisam catar frutas e legumes semiamassados na hora da xepa em feiras para ter o que comer é uma necessária e dolorosa lição para um guri nesse mundo de desigualdades. Há muito que se aprender sobre a dor de quem nos é próximo ou distante. Ser capaz de agir compassivamente, verbal ou fisicamente, em prol de alguém é uma habilidade que podemos ensinar às crianças, e exemplos são uma das melhores formas de fazer isso. Vamos por a mão na massa?




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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