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Pai separado pode dar aos filhos modelo de quem busca a felicidade

Patricia Gebrim 01/01/2016 PSICOLOGIA
Separar não significa abandonar os filhos

por Patricia Gebrim

Trabalhar diretamente e tão de perto com as pessoas faz com que às vezes eu as enxergue como se tivesse uma lente de aumento. Recentemente, um grupo específico tem chamado muito a minha atenção. São homens, que após vários anos de casamento, um ou mais filhos, acabam por se separar e entram em um pesado círculo de culpa - autopunição.

Talvez pela mudança pela qual não só as mulheres, mas também os homens, vêm passando, hoje em dia mais do que antigamente, os homens vêm descobrindo a importância e a beleza de seu papel como pais. Muito mais afetivos e vinculados aos seus filhos, os homens sofrem, e muito, quando se veem obrigados a se afastar dos pequenos. Embora muitas mudanças estejam acontecendo até mesmo na legislação, hoje ainda é mais comum que os filhos fiquem com a mãe.

Como se já não bastasse a dor de perder a convivência diária com os filhos, os homens ainda sofrem, infelizmente, a dor de ver seus filhos serem envolvidos em questões que não lhes dizem respeito. Não acontece sempre, mas muitas vezes as mulheres, sem conseguir elaborar os sentimentos de mágoa, raiva e frustração que ocorrem em decorrência da separação, acabam por usar os filhos como uma forma de atingir o ex-marido. Fazem isso interferindo nas visitas, denegrindo a imagem do pai perante os filhos, tentando separar os filhos dos pais, e por aí vai. A mágoa acaba falando mais alto do que o amor pelos filhos, uma vez que sabem que isso irá prejudicar não apenas o pai, mas também, e principalmente, os filhos.

Separação: dor masculina pode passar despercebida

Antes que as mulheres se sintam injustiçadas... eu sei que nem todas se portam assim, sei também que muitas vezes a situação acontece na forma inversa, e que são as mulheres que são terrivelmente injustiçadas. Apenas me foquei, neste artigo, na questão específica dos homens, pois muitas vezes a dor masculina acaba passando despercebida, muito mais do que a dor das mulheres. As mulheres possuem, ainda hoje, muito mais permissão para expressar os sentimentos do que os homens. Aos homens resta sofrer em silêncio, longe da compreensão e do entendimento de muitos.

O resultado disso tudo, olhando mais cuidadosamente para os homens, é uma enorme culpa. Eles se sentem culpados pelo término da relação, pelo suposto fracasso do projeto familiar, pela impossibilidade de ficarem mais próximos de seus filhos.

Pensem... se alguém se sente culpado, acaba achando que merece ser punido. Assim, vejo esses homens inconscientemente punindo a si mesmos, mergulhando loucamente no trabalho, boicotando a possibilidade de uma vida mais leve e prazerosa, destruindo chances de construir outros relacionamentos afetivos. Como se agora precisassem pagar com o próprio sangue e muitas vezes com uma boa quantidade de dinheiro. Numa espécie de autossacrifício, é muito comum ver os homens que têm filhos, ferindo a si mesmos após uma separação. Como se sua própria vida deixasse de ter importância.

Entendam, homens, vocês que são pais e amam seus filhos. Vocês têm o direito de terem optado pela separação! Se foi a sua esposa que tomou a iniciativa, ela tinha esse mesmo direito. Uma separação nunca é culpa de um único cônjuge, ambos têm sua parcela de responsabilidade. Não importa o que tenha acontecido, não existem vítimas, não existem carrascos. O que existe é um relacionamento que se esgotou e um momento no qual cada cônjuge terá que refazer suas escolhas de vida. Esse é um momento dolorido, mas é também um momento mágico de profunda transformação. Novas portas esperam por você, acredite. O que está acontecendo não é uma destruição, e sim uma transformação, um nascimento para uma vida melhor, por mais dolorido que esteja sendo.

O fato de você ter se separado não significa que você tenha abandonado seus filhos. Pelo contrário, você estará dando a seus filhos um modelo de alguém que luta pela própria felicidade, de alguém que se recusa a adormecer em meio a uma mentira por covardia, de alguém que busca a verdade, a integridade nos relacionamentos. Isso é muito mais saudável do que permanecer em um casamento sem amor, sem entendimento, apenas para manter a família unida.

Entenda, você se separou de uma mulher, mas continuará sendo o pais de seus filhos. Mesmo se outra pessoa entrar na vida deles, mesmo se sua ex-mulher se casar novamente, você é e sempre será o pai de seus filhos. Sempre!

Tenha calma para lidar com esse momento caótico que muitas vezes ocorre logo após uma separação. Aos poucos as emoções irão abrandar, as mágoas irão se curar, um entendimento maior poderá ser construído com sua ex-mulher e isso será muito benéfico para seus filhos. Nem sempre isso é possível num primeiro momento, mas o tempo, como dizem, tem sua sabedoria.

Você se separou. Isso já traz dor suficiente. Faça o seu melhor para agir com ética e justiça. Feito isso, siga em frente. Não aumente a sua dor. Não puna a si mesmo, não exija demais de você. Você também vai precisar de um tempo. Dê a si mesmo tempo para reorganizar sua vida, suas emoções, para assimilar o que aconteceu. Respeite seus limites e seja carinhoso consigo próprio, pois só assim, preservando o bem que existe em si, poderá compartilhar o seu melhor com seus filhos: o seu amor, a sua atenção, a sua alegria.

Acredite, crianças são sedentas por amor. Apenas continue lá, como uma presença tranquilizadora em meio ao caos e persista, dando, a cada dia, o seu melhor.

Seus filhos saberão reconhecer esse sentimento em você e, em seu tempo, se abrirão para lhe receber.

 




Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento



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