DESTAQUES

É sempre tempo de retomar algum ponto perdido na estrada

Redação Vya Estelar 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Não se lamente pelo passado: o que foi, foi

por Angelina Garcia

Talvez fosse apenas em ambiente fechado a sensação que lhe faltava o ar. Experimentou abrir as janelas. Nada. Saiu para um passeio por entre as alamedas, mas o desconforto continuava. O que, então, apertava-lhe o peito? Assim, de imediato, não lhe ocorreu qualquer motivo; a família e o trabalho, suas prioridades, não reclamavam cuidados.

Resgatar e colocar em prática aquele antigo desejo que ficou esquecido e escondido pelo passado é um alimento para a alma Adélia encaminhara sua vida sem questionar muito a sua condição de mulher. Aceitara o que lhe fora ensinado direta, ou indiretamente pelos mais próximos e, à sua maneira, dava continuidade aos valores culturais em que estava imersa: um pouco de estudo, um casamento razoável, um trabalho para engrossar o orçamento e garantir a estabilidade financeira, a casa própria, a educação dos filhos Dentro do possível, vinha garantindo tudo isso. Mas lá no fundo, lá no fundo, crescia uma comichão.

Seria coisa da idade? Afinal passava bem dos quarenta. De qualquer forma não deixaria o incômodo se acentuar, cortaria o mal pela raiz. Um afazer doméstico viria a calhar, especialmente aquela limpeza nos armários do seu quarto, esperando já há algum tempo. Nada melhor para um fim de semana prolongado.

E lá foi Adélia descer coisas. Começou pelas roupas das quais nem se lembrava e que já poderiam ter sido doadas; depois os sapatos, acessórios, bugigangas e mais bugigangas, que costumava guardar para jogar fora qualquer hora dessas, mas ali ficavam. Parou na caixa de fotografias. Anos e anos pensando em organizá-las em um álbum. Foi tirando uma a uma e permitindo que lhe dissessem o que tinham a dizer. Saudades. Do amigo querido que partira tão jovem; da primeira vizinha, assim que se casou; do tempo em que os seus ainda brincavam com os filhos da melhor amiga; até do dia da sua primeira comunhão, em branco e preto, papel duro, meio amarelado. Saudades disso, saudades daquilo.

Assim sensibilizada, nem deu por fé que abria a última caixa, bem escondida em um canto da gaveta. Desenhos e mais desenhos. Foi esse o jeito que descobriu, assim que aprendeu a manejar o lápis, para segurar com mais força suas experiências, embelezá-las, enriquecê-las, transformá-las. Mais que saudades, sentiu mesmo foi uma vontade danada de papel em branco e sua coleção de lápis de cor. Queria de volta o prazer imenso que isso lhe dava, perdido no tempo, quase esquecido.

Embora todos, inclusive sua família, admirassem sua arte espontânea, ninguém foi capaz de estimulá-la para valer. É compreensível que os pais temam ver seus filhos se enveredarem pelo teatro, pela dança, pela pintura, pela música, pela literatura, porque são escolhas que exigem muito esforço e nenhuma certeza de retorno financeiro, que a maioria dos mortais necessita para a sobrevivência. Os pais estão perdoados, mas não aqueles que insistem em continuar abafando essas necessidades da alma.

Nada de lamentos, ou de “tomei o caminho errado”. O que foi, foi, do jeito que foi. E seja quando for, custe o que custar, é preciso encontrar o fio do desejo. Para onde ele nos levará, não se sabe. Mas é certo que Adélia sentiu sua respiração voltando ao lugar, logo nos primeiros traços. Agora estava em casa.
 




Redação Vya Estelar



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