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Personal trainer dá dicas para você adqurir qualidade de vida

Redação Vya Estelar 01/01/2016 ENTREVISTAS
Evite os excessos e cultive o caminho do meio

por Ângelo Medina

Qualidade de vida é um conceito abrangente, não-utópico e prático. É na simplicidade do cotidiano é que se encontra as maneiras mais eficazes para adquirir qualidade de vida. A base de tudo é ser feliz e gostar de você.

Nesta entrevista ao Vya Estelar, o corredor de trilhas Carlos Sposito dá o caminho das pedras. Para ele qualidade de vida é procurar ao máximo fazer o que gosta, buscar o caminho do meio, ser feliz no ambiente de trabalho, aprender a trabalhar em equipe, não ser totalmente refém do dinheiro. Ele diz que amar é fundamental para o equilíbrio físico e psicológico. Além de cuidar do corpo e da mente, é claro!

Vya Estelar - Qual é o seu conceito sobre qualidade de vida e como adquiri-la?

C. Sposito - Durante alguns anos eu considerei qualidade de vida, de uma maneira bastante simplista, como um estado de bem-estar físico conseguido através de condicionamento físico e boa alimentação. Atualmente, considero o componente psicológico com um peso igual, se não maior, a este lado físico.

Uma pessoa que faz verdadeiramente o que gosta, seja trabalhando ou em seus momentos de lazer, terá condições de olhar o mundo com outros olhos, diferente de alguém que empurra suas horas e seus dias, tentando achar pequenos momentos ilusórios de prazer, enganando-se a cada dia.

Vya Estelar - Para quem quer iniciar atividades físicas quais as noções básicas para uma iniciação segura?

C. Sposito - Em primeiro lugar, se você tem menos de 40 anos deve ter feito pelo menos um check-up físico completo. A partir dos 40 anos é bastante interessante uma avaliação médica antes do início do treinamento.

Um ponto bastante esquecido é o calçado usado nas caminhadas e corridas. Em geral, o brasileiro compra tênis usando um desses três parâmetros: beleza do modelo, preço do modelo ou indicação de um amigo ou anúncio. Se considerarmos sete pisadas básicas (pronação leve, média e severa, neutra, supinação leve, média e severa), é fácil concluir que existem mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa vã escolha de tênis. Um especialista é o melhor caminho para uma iniciação às corridas sem contusões periódicas.

Na musculação

Outro fator importante a ser considerado é o crescimento paulatino de volume e intensidade nas cargas de esforço. Em geral, o leigo limita seus treinos à sensação de cansaço e dores musculares. Porém, os ligamentos demoram muito mais a se condicionarem e são eles que darão problemas algum tempo depois de iniciado o treinamento leigo. Deve-se iniciar a temporada com uma atenção especial no volume (distância, repetições) e limitar bastante a intensidade (velocidade, carga). Depois de algum tempo de condicionamento será possível treinar intensidades mais altas.

Vya Estelar - Quais atividades físicas você recomenda, teria uma principal?

C. Sposito - Apesar de ser um corredor de trilhas, amante das montanhas e desertos, tendo como lema:"onde andam, eu corro", não recomendo caminhadas e corridas para todos. Na verdade, a atividade física perfeita para alguém é a que ele realmente deseja fazer e o faz com prazer. Afinal, este é o conceito de qualidade de vida.

Vya Estelar - O sono, alimentação, a meditação... esses elementos entram no seu método?

C. Sposito - A visão de qualidade de vida que atualmente comungo inclui todas as facetas que completam o ser humano. O sono, por exemplo, é o verdadeiro momento em que o organismo faz as adaptações fisiológicas necessárias para manter o equilíbrio do metabolismo (homeostase). Portanto, é fundamental para qualidade de vida o sono de qualidade.

"Somos o que ingerimos"

Quanto à alimentação, nós somos o que ingerimos. Não é possível imaginar colocar gasolina "batizada" em uma Ferrari e querer que ela se mantenha com a mesma performance original.

A meditação é provadamente importante para o equilíbrio psicológico, e até mesmo físico, retirando o estresse que leva às doenças físicas e mentais. E evitar todos estes problemas é qualidade de vida.

Vya Estelar - Você enxerga o ser humano de uma forma holística?

C. Sposito - Com certeza! Assim como na meteorologia, na qual uma dia de vento em Nova Deli é considerado nos cálculos da chuva que cairão no Rio de Janeiro, o ser humano deve ser sempre olhado em sua totalidade, não setorialmente como ainda teima alguns setores da medicina ocidental.

Uma briga no trabalho, por exemplo, destrói a possibilidade do treino seguinte ser bem- feito devido ao estresse. Uma meditação pode melhorar o nível de estresse e, conseqüentemente, fortalecer o sistema imunológico evitando uma gripe.

Vya Estelar - Como ter garra e determinação frente a um objetivo?

C. Sposito - Simplesmente fazendo-se o que se gosta!

Vya Estelar - Como se adaptar rapidamente às mudanças de rumo?

C. Sposito - Não sendo cristalizado, conservador. Uma mente aberta, sem preconceitos, está sempre pronta a receber críticas e perceber a necessidade de mudanças.

"Fazer o que gosta ajuda a combater o estresse"

Vya Estelar
- Como combater o estresse?

C. Sposito - Mais uma vez eu volto ao conceito de que fazendo-se o que gosta, dificilmente haverá estresse. Alguém disse uma vez: "Trabalhe no que você gosta e nunca mais na vida você trabalhará", e eu incluiria "e nunca mais terá estresse".

Vya Estelar - Por que você defende o trabalho em equipe?

C. Sposito - A interação sinergética que uma verdadeira equipe integrada gera é muito maior do que a soma das partes de cada integrante. As experiências que vivi sempre me provaram esta afirmativa. Além disto, o nível altíssimo de conhecimento e informação atuais exige a compartimentalização, já que é humanamente impossível alguém ser especialista em tudo.

"Existe um limite prático para o sacrifício pelo dinheiro"

Vya Estelar
- Como ter qualidade de vida no trabalho?

C. Sposito - O primeiro e mais importante ponto a se levar em consideração, e o mais complicado em muitos casos, é a busca da felicidade no ambiente de trabalho. Se, apesar de todos os esforços, isto continua impossível, a melhor saída para manter-se numa alta qualidade de vida é a porta da rua. Existe um limite prático em que devemos nos sacrificar em função do dinheiro. Quando passamos deste limite colocamos em risco nossa saúde física e mental.

Estando em um ambiente de trabalho agradável e feliz as preocupações com a qualidade de vida são outras: alimentar-se nas horas corretas, sem correria; não se exceder no número de horas trabalhadas, em detrimento do convívio com a família, os amigos e a prática de atividades de lazer; fazer alongamentos periodicamente, principalmente aqueles que ficam sentados durante todo o expediente.

O caminho do meio 

Vya Estelar
- O que você sugere para combater o estresse?

C. Sposito - Aristóteles, há 2.500 anos, escreveu que "a virtude está no meio". Tudo que é feito em excesso não é bom. Trabalhar demais, preocupar-se demais, comer demais etc leva-nos a estresse em vários níveis.

A atividade física sem exagero ajuda a descarregar tensões e estimula a vontade de manter um equilíbrio nas atitudes, como não dormir muito tarde, alimentar-se saudavelmente, beber moderadamente, não fumar. E, claro, não devemos nunca esquecer que amar é fundamental para o equilíbrio físico e psicológico.

Vya Estelar - Qual é o maior inimigo da qualidade de vida?

C. Sposito - Com certeza é a correria diária pela sobrevivência nas grandes cidades. Passamos grande parte do dia presos no trânsito, indo de um lado para outro. Pela distância enorme entre a casa e o trabalho a maioria da população se alimenta fora de casa onde, convenhamos, normalmente os alimentos são feitos da maneira mais lucrativa para o restaurante, não para a saúde do consumidor. E, o mais sério de tudo isto, é o convívio com a poluição atmosférica, típica das grandes e médias cidades.

Vya Estelar - É possível ter qualidade de vida vivendo num grande centro urbano? De que forma?

C. Sposito - Como eu disse em outra resposta acima, as variáveis são muitas para exercermos controle em uma cidade grande. Contra a poluição, pouca coisa pode ser feita, a não ser evitar a ida a áreas críticas nos horários de maior intensidade. Outra atitude é tentar morar e trabalhar em áreas de ar mais limpo. O que nem sempre é possível.

O excesso de tempo desperdiçado em longos engarrafamentos diários, além do excesso de horas trabalhadas, fato comum na vida laboral das grandes cidades, diminui as chances de dedicação a atividades físicas, Yoga, meditação. Uma saída é encaixar atividades no horário de almoço ou nos horários de saída do trabalho, quando os engarrafamentos são maiores. Quanto à alimentação no trabalho, uma saída é a velha "marmita", levando comida caseira.

Vya Estelar - É realmente verdade que as pessoas que vivem no interior possuem uma melhor qualidade de vida?

C. Sposito - Como eu disse, as pequenas cidades possuem características que ajudam fisicamente a melhoria da qualidade de vida, como a falta de poluição, a falta de engarrafamentos, a possibilidade de almoçar em casa e voltar para o trabalho. Mas, com certeza, a criatividade de cada um dá condições de tentar superar estes inconvenientes.

Vya Estelar - Como controlar as emoções frente ao perigo?

C. Sposito - O principal para isto é o treinamento. A repetição de situações de risco, calculados ou não, coloca-o em um patamar de tranquilidade e frieza perante acontecimentos que exigem raciocínio e sangue-frio.

Não quero dizer com isto que não devemos ter medo. A natureza desenvolveu este mecanismo por pura necessidade de sobrevivência. Uma criança é capaz de engatinhar na praia e ir em direção a altas ondas sem um pingo de medo. Já uma criança que anda, com poucos anos de idade, pensará duas vezes para fazer a mesma loucura.
Eu já fiz caminhadas, solitário, em Mato Grosso e estive perdido durante horas. Ninguém sabia que eu estava lá e eu sabia disto. Se eu não mantivesse a tranqüilidade naquele momento, com certeza não teria tido as idéias que me tiraram de lá.

Em outra situação, escalando uma montanha em uma via bastante difícil, subi errado e me vi, em um dado momento, na mesma altura que o grampo que eu procurava, porém a mais de quatro metros distante dele. Entre nós não havia possibilidade de escalar horizontalmente. As duas opções que eu tinha não me agradavam: pular para baixo e "voar" cerca de dez metros até a costura que estava abaixo de mim ou continuar escalando diagonalmente até o próximo grampo através de uma parede que não era via oficial, ou seja, não havia garantias de existir agarras para minha ascensão. E a cada metro que eu subisse aumentaria dois metros em um futuro pulo. Mais uma vez o controle das emoções me deu condições de sair ileso desta.

Vya Estelar - Quais são os itens básicos do seu método para que a pessoa adquira qualidade de vida?

C. Sposito - Como preparador físico, eu inicio meu relacionamento com os clientes falando apenas de exercícios físicos, caminhadas, musculação... Em seguida, passamos a incluir conversas sobre nutrição, sempre de uma maneira suave, informal. A partir do momento em que o canal de comunicação estiver consolidado, não haverá barreiras para nada. Tudo, ou quase tudo, será conversado. Haverá dias em que a sessão de treinamento se torna uma sessão de "psicanálise", com desabafos profundos e confidências.

As palestras que ministro em empresas, chamadas "Motivação e Qualidade de Vida", tratam o assunto exatamente desta maneira, não necessariamente nesta ordem: na primeira parte da palestra eu falo sobre a importância de fazer-se o que se gosta, dando exemplo reais, inclusive o meu.

Na segunda parte eu mostro o resultado do trabalho de alguém que faz o que gosta, apresentando resumidamente algumas aventuras-desafio que fiz, como correr no Deserto do Sahara, correr no Grand Canyon, correr no Deserto de Mojave, entre outras.

Na terceira parte eu apresento várias dicas e segredos práticos para quem já faz, ou pretende fazer, alguma atividade física. E, claro, passo bastante tempo respondendo dezenas de dúvidas que aparecem.




Redação Vya Estelar



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