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Vício: Rivotril, álcool e drogas. O que fazer?

Danilo Baltieri 13/12/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Vício: Rivotril, álcool e drogas. O que fazer?
Fonte: imagem Pixabay
Transtorno mental pode precipitar busca por álcool e drogas

por Danilo Baltieri

“Prezado doutor, vivo um pesadelo. Sou mãe de um rapaz de 32 anos que no decorrer dos anos vem alimentando vícios relacionados ao álcool, cocaína e medicamentos psiquiátricos. Sofre também de depressão, provavelmente consequência desses abusos que vêm se intensificando e tornando-se frequentes. Tudo isso já afetou sua vida social, seu trabalho e convívio familiar. Hoje diz que quer parar com tudo, mas sei que está muito difícil e ele também admite as dificuldades. Para ultrapassar esses momentos iniciais de abstinência, dopa-se com Rivotril e passa dias e noites dormindo. Não temos condição financeira de arcar com um tratamento ou uma internação para ele. Peço seu auxílio e suplico por uma esperança de acordar desse pesadelo. Agradeço demais o seu tempo de atenção para esta mensagem. Com admiração e esperança me despeço aqui com todo respeito.”

Resposta: Transtornos mentais, como depressão e ansiedade, são bastante frequentes entre aqueles que apresentam problemas com o uso de álcool e de outras drogas. Este relacionamento é tão forte que muitas pessoas acreditam que as substâncias psicoativas causaram o transtorno mental. No entanto, nem sempre este é o caso.

Estima-se que cerca de quase 9 milhões de americanos sofrem de um transtorno mental concomitante com um problema com o uso de álcool e/ou de outras drogas. Apesar disso, quase 60% dos portadores não participam de quaisquer formas de tratamentos.

De uma forma geral, este relacionamento ‘transtorno mental – uso problemático de álcool e/ou de outras drogas’ pode assim ocorrer:

a) a presença de um transtorno mental, como depressão e ansiedade, pode precipitar a busca por álcool e/ou outras substâncias com a finalidade de amenizar os sintomas da doença primária;

b) o abuso prolongado de álcool e/ou de outras substâncias pode induzir quadros como depressão, ansiedade e outros;

c) pessoas que já apresentam alto risco para o desenvolvimento de um transtorno mental também demonstram alto risco para o abuso de substâncias e os problemas podem ocorrem simultaneamente;

d) usuários pesados de substâncias durante a adolescência podem provocar alterações em diversas funções cognitivas e atividades sociais, precipitando outros problemas mentais.

A coexistência dos dois problemas, de fato, é preocupante. Alguns estudos apontam que até 60% daqueles que participam de tratamentos para transtornos mentais (outros não relacionados ao uso de álcool e/ou de outras drogas) apresentam problemas com o consumo de substâncias psicoativas. Já entre adolescentes, as taxas podem chegar a ser maiores. Algumas evidências apontam para uma maior gravidade dos dois problemas quando ambos estão presentes em uma mesma pessoa.

Claramente, quando existem ambos os problemas, fato conhecido como diagnóstico dual, todos eles deverão ser adequadamente manejados e tratados.

Vários modelos gerais de abordagem já foram propostos para tais casos. Três modelos, particularmente conhecidos como: sequencial, paralelo e integrado têm sido usados em momentos e serviços diferentes.

No chamado modelo sequencial, uma das condições é primeiramente tratada; depois, é a vez da outra. A ideia é que uma das condições precisa ser primeiramente controlada, antes que a segunda possa então ser manejada. O problema desse modelo é determinar qual das condições receberá a primazia pelo tratamento.

No modelo paralelo, ambas as condições são manejadas simultaneamente, mas em diferentes programas ou serviços; logo, com equipes diferentes. A pobre comunicação entre os membros das equipes é desaconselhada nestes casos. Outrossim, equipes diferentes podem emitir mensagens que podem ser compreendidas como divergentes pelos portadores.

No modelo integrado, uma equipe interdisciplinar, proativa e experiente maneja tais casos. Naturalmente, este modelo tem sido visto como o mais promissor, embora seja bastante difícil organizar equipes tão coesas e experientes.

Existem vários níveis de intensidade para o tratamento daqueles que padecem de diagnóstico dual. Seguramente, um time de especialistas treinados deverá estar disponível para ajudar.

Também é verdade que as taxas de abandono do tratamento entre aqueles com o chamado diagnóstico dual são maiores do que entre aqueles sem esta coexistência.

O abandono não é o único problema; existe o problema da falta de adesão às orientações médicas, psicológicas e farmacológicas, o que prejudica o prognóstico de forma incisiva.

Como dito, a intensidade do tratamento e manejo deve variar conforme a necessidade do paciente, a gravidade dos quadros, a fase das doenças, dentre vários outros fatores.

Algumas vezes, a internação em hospital geral com enfermaria psiquiátrica faz-se necessária, objetivando a estabilização inicial do quadro.

Ao longo do tempo, apesar de uma estabilidade do quadro, a intensidade do tratamento pode variar novamente, para mais ou para menos, sempre visando à manutenção desta desejada estabilização.

Não há segredos. Você deve conduzir seu filho para um especialista médico. O profissional, seguramente, após adequada avaliação do quadro, determinará o manejo inicial.

Existem vários centros de atenção psicossocial destinados ao manejo dos problemas relacionados ao uso de álcool de outras drogas. A existência desses serviços tem sido prioridade das secretarias de saúde ao redor dos municípios e dos estados. Você precisa procurar e levar seu filho, urgentemente.

Se você precisar da ajuda de familiares confiáveis e amigos, já conhecedores do problema, utilize tal ajuda. Pode ser útil em vários momentos.

Não perca tempo!

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TAGS :

    transtorno mental, ansiedade, depressão, álcool, drogas

Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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