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Menos poder e mais leveza relacional: abra mão do controle

Fátima Fontes 12/04/2018 PSICOLOGIA
Menos poder e mais leveza relacional: abra mão do controle
Fonte: imagem Pixabay
Será que já paramos para pensar no quão poderosos somos em nossas relações?

Por Fátima Fontes

Introdução

“Aquilo que ilumina, fica sempre na sombra. A consciência é qualquer coisa de global e de indeciso... Ela é, de qualquer maneira, a resultante das respectivas inter-relações, interações e interferências. Nasce da confluência delas e é essa própria confluência.” (Edgar Morin em: O Paradigma Perdido- a natureza humana. Publicações Europa-América: Mem Martins, Portugal, 2000, página131).

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Vamos caminhar outra vez por entre ideias que nos ajudarão a refletir sobre nós e nossos vínculos.

Fui buscar inspiração no exercício do poder, que apesar de estar intrinsecamente ligado a cada um de nós e nossas relações, dificilmente o trazemos para o reino das subjetividades.

Quase sempre associamos o poder aos jogos de poder nas relações exteriores a nós, a saber: na política, nos governos, em relações corporativas, institucionais, comunitárias, familiares, ou seja, o poder está sempre sendo visto colocado nas mãos de terceiros.

Aí está o desafio que me lancei: é preciso pensar, urgentemente, no poder que exercemos ou não, e a consciência que temos disso, desejosa de que a reflexão venha a diminuir a sombra que sobre nós se instala, quando algo tão importante para nós e nossos vínculos não é pensado.

Podres poderes: nossas sombras no comando de nossas relações

Será que já paramos para pensar no quão poderosos somos em nossas relações? Afinal, parece que fica mais fácil atribuirmos nossos conflitos relacionais unicamente ao outro, que sobre nós exerce um poder, o que nos transforma em vítimas do poder desse “não eu” que quer nos dominar.

Porém, se aceitamos a leitura da complexidade relacional, seus múltiplos fios e o princípio sistêmico da complementariedade nas relações, nossa vitimização tenderá a cair por terra e seremos capazes de reconhecer nossa “sombra de poderosos”, que poeticamente denomino aqui de “podres poderes”.

Mas como isso é possível? Tendemos a nos mirar em espelhos tendenciosos, que diferentemente do “espelho da madrasta” nos contos infantis, só dirá aquilo que queremos ouvir e vê: somos bacanas, amáveis e o mais das vezes mal-entendidos e maltratados.

A origem desse “defeito perceptual”, em algumas biografias deve-se a uma educação primeira muito crítica e repressiva, o que enseja basicamente a dois caminhos  possíveis: ou a pessoa cresce agressiva e revoltada com os próprios erros e os do outro, tal qual seus educadores a trataram, ou se apresenta em suas relações de maneira complacente, escondendo a forte ira que o “ceder ao desejo ou crítica do outro” provocam internamente nela.

Mas também pode-se pensar em outra fonte de “podres poderes” sombrios e não percebidos, seria o caso de pessoas que cresceram em ambientes negligentes ou abandonadores, onde faltou o “olhar amoroso e crítico positivo” daqueles que seriam encarregados por seus primeiros cuidados. Parece que nesses casos, todo o “podre poder” no futuro relacional será usado para “seduzir” e “ser amado” pelo outro. Um dos maiores problemas experimentado nessa forma sombria de poder, é a total incapacidade da pessoa em ser rejeitada ou não querida. Não que essa seja uma experiência agradável, mas se torna insustentável para os “carentes de plantão”.

Fica então indicado um exercício que nos auxiliará a “limpar nosso percepto” que se tornou equivocado e sombrio: precisaremos duvidar de nós mesmos, de nossa “vitimização”, e há perguntas que servirão como bússolas como por exemplo, que parte eu tenho com meu sofrimento? Em que complemento o mal-estar em que me encontro? E se o que estou concluindo não for a realidade e sim o fruto direto do meu sofrimento?

A dificuldade de nos iluminarmos: só queremos sair vencedores

Mas para seguir a bússola que iluminará nossa sombra de poder, como proposto acima, surge uma dificuldade humana, de grandes proporções: não queremos abrir mão do poder, não suportamos “não ter razão”, perder o “poder” ainda que seja o poder sombrio, e isso exigirá certa dose de coragem e luta pessoal.

Há algum tempo, circulou nas mídias socais um texto que se intitulava “prefiro ser feliz a ter razão”. Me chamou a atenção o número de pessoas ao meu redor repetindo à exaustão esse jargão, o que a meu ver nada mais era do que mais um exercício de arrogância que de humildade, afinal todos os que eu escutava eram a parte que “cedia” que só queria ser feliz. Será que nenhum de nós luta para ganhar seus embates relacionais? Custo a crer nisso.

Logo, precisaremos de outra “ducha nas nossas sombras”, teremos de descer de nossos saltos de arrogância e nos desafiarmos a viver com menos poder, reconhecendo nossos próprios erros e coparticipação em nosso sofrimento e no sofrimento de com quem nos relacionamos.

E esse segundo banho na nossa sombra, agora a sombra arrogante, parece ser um verdadeiro campo de batalha relacional, visto que habitamos num mundo em que “abrir mão” é sinônimo de fracasso e não de grandeza. Mas fica a grande motivação: ansiamos, mais do que ter poder, em levarmos nossa vida com mais tranquilidade e paz relacionais.

Menos é mais: por relações mais leves

Daí chegamos ao “crème de la crème” do texto, como dizem os franceses para a melhor parte, e nela desejo mostrar que poderemos melhorar e ampliar nossas percepções sobre nossos sombrios poderes, condição para sairmos de seu domínio.

É tarefa árdua, mas não impossível, requer coragem e uma gula para o bem-estar psicológico e relacional. Como teremos que remexer em vários sótãos e porões de nossa mente, faxinando aquilo que não precisa estar no controle do que sentimos ou fazemos, pois são experiências que nos marcaram, mas que não precisam nos definir, penso que será de bom tom, fazermos essa “faxina” psicológica com alguém mais preparado para nos auxiliar na missão.

Também é preciso dizer que essa verdadeira reviravolta em nosso modo de nos perceber e às nossas relações, não ocorrerá da noite para o dia, mas ocorrerá num longo e permanente processo de transformação, onde a paciência para que nos transformemos precisará ser renovada a cada manhã, sem pressa, nem urgência a nos contaminar.

Por fim, compartilho com vocês algo bem pessoal, é o fato de que além de pedir auxílio terapêutico há muitas décadas, e sempre o faço diante da humana necessidade de “faxinar” minha mente, duas outras experiências pessoais, há bom tempo, tem se mostrado como ferramentas de “esvaziamento” e “estímulo a viver com menos expectativa” sobre mim e sobre o outro, elementos importantes para nosso processo de abrir mão dos nossos podres poderes.

Uma delas é o desenvolvimento de uma postura meditativa cristã de gratidão ao Pai Criador por todo seu cuidado comigo.  Várias vezes ao dia, e por vezes, no meio da noite, sou impelida a fazer a seguinte meditação: nada pedir e somente agradecer, agradecer por tudo de bom e de difícil que vivo, pois creio que todas essas experiências me levam para perto do plano dEle, o de que eu me torne uma melhor pessoa para mim e para o outro com quem me relaciono.

Outra experiência que me utilizo é a dos exercícios do Tai Chi Pai Lin, que se fundamentam na milenar medicina chinesa do equilíbrio. Sinto-me muito beneficiada por sua proposta de silenciar, tirar meu controle mental e assim deixar mais espaço para minha alma se alimentar e se encher de leveza.

Descubra seus caminhos auxiliares nessa longa jornada de nos tornarmos menos poderosos e mais leves, a premissa que deve regê-los é o quanto nos ajudarão a experimentarmos mais paz e alegria interior, verdadeiros antídotos contra os nossos podres poderes subjetivos.

E para terminar...

Como creio que “navegar é preciso e viver não é preciso”, assertiva tão bem colocada por Fernando Pessoa, desejo finalizar esse texto convidando todos a trazerem as dúvidas e imprecisões do viver para nos convencerem de que uma vida com menos poder, menos expectativas e mais leveza pode ser uma proposta que nos ajude a viver melhor conosco e com o outro.

E que a canção “E o homem falou”, do saudoso Gonzaguinha, nos inspire a “limpar o salão, para um desfile melhor”, combinado?

O Homem Falou
Gonzaguinha

E é prá chegar quem quiser, deixe a tristeza prá lá

E traga o seu coração, sua presença de irmão

Nós precisamos de você nesse cordão

Pode chegar que a casa é grande e é toda nossa

Vamos limpar o salão, para um desfile melhor

Vamos cuidar da harmonia, da nossa evolução

Da unidade vai nascer a nova idade

Da unidade vai nascer a novidade

E é prá chegar sabendo que a gente tem o sol na
mão

E o brilho das pessoas é bem maior, irá iluminar
nossas manhãs

Vamos levar o samba com união, no pique de uma escola
campeã

Não vamos deixar ninguém atrapalhar a nossa passagem

Não vamos deixar ninguém chegar com sacanagem

Vambora que a hora é essa e vamos ganhar

Não vamos deixar uns e outros melar

Oô eô eá, e a festa vai apenas começar (vamos lá
meu amor )

Oô eô eá, não vamos deixar ninguém dispersar (o homem falou).




TAGS :

    relação, rejeição, vitimização, carência, psicologia, autoconhecimento

Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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