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Visão distorcida sobre o papel do aluno

Ceres Alves Araujo 29/06/2018 PSICOLOGIA
Visão distorcida sobre o papel do aluno
Fonte: imagem Pixabay
Indiscutivelmente, não se adquire e desenvolve o papel de filho sem pais, da mesma forma não se adquire e desenvolve papel de aluno sem professor

Por Ceres Alves de Araujo

Em sentido amplo, aluno é a pessoa que se dedica ao aprendizado. A condição necessária é a existência de uma disponibilidade interna para aprender, para se abrir ao conhecimento. Para adquirir o papel de aluno é preciso admitir o não saber. Saber que não sabe é justamente o que cria a abertura interna para buscar a construção do conhecimento.

Existe confusão a respeito da etimologia da palavra aluno. O dicionário Houaiss mostra que aluno vem do latim alumnus, com significado de lactante, criança de peito, menino, discípulo, aquele que está crescendo e sendo nutrido.  A palavra é derivada do verbo alére, fazer aumentar, crescer, desenvolver, nutrir, alimentar, criar, produzir etc.

Na internet, muitos portais, pouco cuidadosos, repetem a ideia de que aluno quer dizer “sem luz” e alguns profissionais da educação tendem a reproduzir essa ideia falsa em contextos diversos. Surgem propostas como: Aluno não é mais aluno (sem luz), é educando e sua cultura pessoal, adquirida nos meios eletrônicos em geral deve ser valorizada. As crianças devem parar de serem alunas e passarem a serem autoras do próprio conhecimento. O professor deixa de ser um mestre, ele é apenas um facilitador, um mediador entre o aprendiz e o objeto do conhecimento. É lamentável essa confusão que surge quando se define aluno como ser sem luz e mais lamentáveis ainda algumas das proposições para corrigir tal preconceito falso.  

As relações duais mãe-filho, pai-filho, professor-aluno são relações assimétricas, primordiais, que estão na base da constituição da mente. O ser humano precisa de um outro ser da mesma espécie para que possa sobreviver e se desenvolver. O bebê e a criança precisam adquirir o papel de filho, o papel daquele que recebe, que é amado, cuidado, contido e protegido pelas figuras de apego primárias. De forma análoga, a criança precisa adquirir o papel de aluno, o papel daquele que recebe, que é nutrido, alimentado pelo conhecimento armazenado pela humanidade, transmitido pelo professor.  

Tais relações são dialéticas, de trocas. Na experiência de ser cuidada pelos pais, a criança adquire a possibilidade de se cuidar, isto é, de ser, um dia,  mãe e pai dela mesma.  Na experiência de ser aluna, a criança adquire a possibilidade de ter o professor dentro de si, o que poderá constelar nela a paixão pela construção do conhecimento.

Indiscutivelmente, não se adquire e desenvolve o papel de filho sem pais, da mesma forma não se adquire e desenvolve papel de aluno sem professor. Na infância, pais e professores não são simplesmente mediadores entre a criança e objetos, pois transmitem o padrão humano de apego e aprendizagem de vida.  Precisam ser figuras respeitadas, valorizadas, idealizadas até, pois são modelos constituintes da identidade do indivíduo.  Crescer sem tais modelos, significa não conseguir ter uma noção clara e estável de quem se é.

São relações assimétricas, onde filho e aluno recebem; e mãe, pai e professor dão.

Para a criança, pais e professores precisam ser figuras de autoridade, para garantirem segurança a ela na infância. Porém, tendo bem claro que autoridade é muito diferente de autoritarismo.

Na adolescência surge a necessidade da desidealização das figuras de autoridade, para que possa se processar a busca pela própria independência e autonomia. Progressivamente, as relações passam a ser simétricas, passam a ser relações de alteridade. Entretanto, para que exista a desidealização é necessário que anteriormente tenha se existido a idealização. Quem nunca adquiriu de fato o papel de filho e o papel de aluno está incapacitado para trocas simétricas.

Acredito esse ser um fator importante na crise educacional que vivemos no nosso país. A despotencialização do papel do professor, profissional pouco valorizado e profissão mal remunerada. Soma-se a isso o descaso crônico do governo com a formação do professor.

Da pré-escola à pós-graduação, nos dias de hoje, o professor é alguém desvalorizado. Visto inicialmente a serviço do aluno e de seus pais, depois é desprestigiado muitas vezes como alguém obsoleto, pois o conhecimento trazido pela internet é atualizado a cada instante.  Pena que esse conhecimento não seja minimamente questionado.

O desrespeito pelo professor é, com frequência, oriundo do desrespeito às figuras parentais. Infelizmente, parece que temos uma geração de jovens centrados em seus desejos, onipotentes, pouco autocríticos e que acreditam tudo aprender sozinhos. Eles não sabem que não sabem...




TAGS :

    pais, filhos, aluno, professor, educação, psicologia, aprender

Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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