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Vergonha: entenda o que há por trás desse complexo estado emocional

Ceres Alves Araujo 07/11/2018 PSICOLOGIA
Vergonha: entenda o que há por trás desse complexo estado emocional
Fonte: imagem Pixabay
Vergonha é diferente de culpa, tendo ambas funções sociais

Por Ceres Alves Araujo

A palavra vergonha tem origem no latim verecundia e pode ser definida como uma condição psicológica, que consiste em um estado emocional, um estado fisiológico e um conjunto de reações comportamentais, determinados pelo conhecimento de ter feito algo desonroso. A vergonha se origina em experiência de estados afetivos intensamente dolorosos induzidos por quebra de sintonia inesperada com alguém valorizado.  

O acanhamento, a timidez, o constrangimento e o sentimento de inferioridade podem causar vergonha, pelo medo do julgamento alheio. A vergonha é uma emoção vivida profundamente que leva a ficar sem fala, a se ruborizar, à necessidade de se esconder, ao desejo de entrar em um buraco e com frequência à sensação de exposição, desvalia e desesperança.  A vergonha é um estado agudo de distresse, que envolve a imagem de ser desvalorizado por um outro valorizado e pode causar danos importantes à autoestima.

A vergonha pode ser induzida verbal e fisicamente. Insultos e ataques às fraquezas e vulnerabilidades do indivíduo, muitas vezes seguidas de exposição ao ridículo, provocam vergonha e danos à dignidade pessoal. Tapas, espancamentos, sujeição física, causam vergonha juntamente com a sensação de humilhação, de desvalor e de impotência.

A vergonha tem a história importante como uma força patogênica. Muitas doenças psiquiatras, sintomas psicológicos e dificuldades de crescimento pessoal tem sua etiologia ligada à vivência crônica de vergonha. Durante o desenvolvimento do ser humano, é perigosa a formação de uma identidade pautada por experiências de vergonha, pois dá a essa pessoa  a sensação de não digna de respeito e de valor e de merecer mesmo a estigmatização e a discriminação.

A vergonha é uma emoção central para a economia emocional. Ser engolfado pela vergonha pode causar um colapso fisiológico e psicológico profundo. Porém, o oposto, não conseguir assumir a vergonha, usando a negação e a dissociação dessa emoção acarreta, na maioria das vezes, a falta de sentimento e ou a raiva defensiva.

Por outro lado, a experiência da vergonha moderada é positiva para o desenvolvimento do ser humano. A capacidade para processar, para elaborar a vergonha adaptativamente é crucial para o crescimento pessoal e social. Sendo a vergonha a internalização da experiência de perda de amor, de consideração, de atenção de um outro significativo, ela se transforma em uma das mais dolorosas emoções e, exatamente por isso, ela sinaliza a necessidade de autocorreção.  

A vergonha regula a autoestima

Ela é também reguladora da autoestima. O desejo de voltar a se sentir valorizado pelo olhar do outro, faz com que a pessoa busque reparar em si o que lhe causou tal sensação de constrangimento e ocasionou a perda de valor. Recobrando a valorização do outro, ela volta a ter condições de se autoapreciar e de sentir-se confiante em suas competências e capaz de apresentar movimentos de autoafirmação positivos no mundo.

Vergonha é diferente de culpa, tendo ambas funções sociais. Culpa é a vergonha que foi posteriormente mentalizada para incluir a ideia de se ter feito algo errado e com consequências ruins para os outros, incluindo a condição moral. A vergonha representa um colapso repentino, doloroso, induzido por uma falta de sintonia inesperada e desaprovadora com um outro ou outros. A vergonha se desenvolve primeiro e, comparada com a culpa, tem maior intensidade e evolutivamente maior importância, justamente pela possibilidade de autocorreção e aprimoramento do indivíduo.

Do ponto de vista neurobiológico, ainda no final do primeiro ano de vida, a experiência da vergonha é fundamental para o desenvolvimento da capacidade para regular a função parassimpática do sistema nervoso autônomo. Para restringir a exuberante atividade do filho, o papel da figura de apego inclui a indução de estados de “vergonha” que causa a diminuição da excitabilidade. Nessa época, em média, a cada 9 minutos a mãe ou cuidador precisa colocar limite à hiperatividade do bebê, para protegê-lo.

Na exploração ativa do ambiente, o bebê de tempos em tempos olha para a mãe que toma conta dele na expectativa do olhar aprovador que lhe permite explorar mais. Ao receber o não, ao perceber a desaprovação expressa pela face e pela vocalização de alarme, ele chora e busca a mãe, esperando ser acolhido.  Ao ser acolhido e apaziguado, a vergonha é seguida pela re-sintonia com a mãe, que dá à criança a sensação de conexão, de segurança e de bem-estar. Reassegurado do amor da mãe, ele volta a se capaz de se interessar pelo mundo. É importante nesse período do desenvolvimento, a capacidade do cuidador induzir vergonha moderadamente.

Na infância, a experiência de se envergonhar é necessária para estabelecer limites, visto que as crianças pequenas ainda não são capazes de lidar com relações de causalidade. Posteriormente, quando as crianças conseguem pensar sobre suas próprias ações, a culpa se torna a formadora da consciência, mantendo-se intrínseca a vergonha.

Nos adultos, em geral, é a culpa que guia a consciência, mas a vergonha permanece subjacente. Observa-se, na nossa cultura e sociedade atualmente o quão frequente a vergonha não é assumida! Intensa e frequentemente, mecanismos de negação são utilizados para que não se experimente a vergonha. A dissociação dessa emoção, impede a autocrítica necessária e muitas vezes transforma o indivíduo em alguém que se acha superior, em um ser sem sentimento, dono da verdade e sem possibilidades de se autocorrigir.




TAGS :

    vergonha. autoestima, culpa, psicologia

Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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