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Larguei a maconha, mas não consigo me motivar para nada. O que fazer?

Danilo Baltieri 28/11/2018 SAÚDE E BEM-ESTAR
Larguei a maconha, mas não consigo me motivar para nada. O que fazer?
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Veja aqui os efeitos da dependência e da abstinência do consumo de maconha

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“Olá. Resumindo: 10 anos usando maconha, traços depressivos na infância e hoje tenho 34 anos. Há 3 anos, decidi mudar radicalmente meu estilo de vida: larguei um emprego rentável para viver de arte (tatuador/pintor) e, junto, larguei a maconha. Estou 1 ano e 2 meses limpo; porém, não consigo me motivar e encarar minhas escolhas. Busco sempre ter os pés no chão. De fato, sei que tenho uns traços de SAD me acompanhando. Mas meus problemas estão me engolindo. O que você poderia compartilhar com base na sua experiência? Obrigado.”

Por Danilo Baltieri

Resposta: A maconha continua sendo a substância psicoativa mais frequentemente usada ao redor do mundo, ficando atrás apenas do álcool etílico e do tabaco. Na América do Norte, por diferentes razões, seu consumo tem aumentado (taxas de consumo em quase 13% na população norte-americana).

Na Europa, taxas de uso anual da maconha variam entre quase 18% em países nórdicos e 22% na França. Aproximadamente, 1% dos adolescentes e adultos jovens europeus consomem maconha diariamente ou quase diariamente (quase diariamente é definido aqui como o consumo da substância por 20 ou mais dias no mês anterior ao questionamento feito pelos pesquisadores a respeito do uso da droga).

Quanto àqueles que desenvolvem um quadro de síndrome de dependência à maconha, as taxas variam pouco entre diferentes regiões do mundo. Na Europa, as taxas variam entre 0,3% e 0,5% da população adulta, enquanto na América do Sul as taxas giram em torno de 0,3% da população adulta.

Há consistente evidência clínica de que cerca de 90% daqueles que desenvolvem uma síndrome de dependência de maconha apresentam sintomas de uma síndrome de abstinência, quando cessam ou reduzem abruptamente o consumo da mesma. Quanto maior o tempo de consumo da maconha e maior a quantidade da droga usada, mais intensos são os sintomas da síndrome de abstinência.

Os sintomas da síndrome de abstinência da maconha variam bastante entre os dependentes, de acordo com vários fatores, tais como:

a) quantidade da droga usada e tempo de consumo
b) traços de personalidade
c) coexistência de um outro transtorno mental ou do comportamento, como é o caso do transtorno depressivo e ansioso
d) estressores diários
e) expectativas do próprio usuário
f) gravidade da síndrome de dependência
g) disponibilidade de receptores endógenos canabinoides (para maconha) no cérebro do usuário.

O consumo regular ou continuado da maconha está associado com prejuízos neuroanatômicos, especialmente nas regiões cerebrais com maior concentração dos chamados receptores canabinoides (CB1). Estas regiões cerebrais consistem, principalmente, no hipocampo (região bastante associada com o funcionamento da memória) e o córtex pré-frontal (região associada com o controle impulsivo). De qualquer forma, é importante destacar que outros sistemas neurobiológicos estão envolvidos tanto com os efeitos do uso da maconha quanto com os efeitos da sua síndrome de abstinência, como é o caso do sistema cerebral envolvendo opioides endógenos (tais como as endorfinas).

Os principais sintomas da síndrome de abstinência aguda da maconha são apontados na Tabela 01. Tais sintomas costumam durar, no máximo, quatro semanas.

Tabela 01. Sintomas da síndrome de abstinência aguda da maconha

•    Fissura
•    Ansiedade
•    Inquietação psicomotora
•    Insônia
•    Redução do apetite
•    Humor deprimido
•    Cefaleia
•    Náuseas
•    Vômitos
•    Dores abdominais
•    Pesadelos

Alguns estudos têm mostrado que dependentes dessa substância, tanto adolescentes quanto adultos, que apresentam importantes sinais da síndrome de abstinência à maconha, demonstram reduzido volume de uma estrutura cerebral conhecida como amígdala (região relacionada com o controle das emoções ou afetos). O que ocorre é ainda uma incerteza se o consumo crônico e pesado de maconha conduz à redução volumétrica da amígdala cerebral, ou se indivíduos que já têm suas amígdalas cerebrais com tamanho reduzido, antes mesmo do consumo inicial da maconha, demonstrariam maior chance de desenvolver uma síndrome de dependência e, consequentemente, a  síndrome de abstinência.

Outrossim, uma síndrome de abstinência crônica, demorada ou mesmo protraída, pode ocorrer entre usuários crônicos e pesados da substância. Tais sintomas também são bastante heterogêneos e variam de acordo com aspectos genéticos e ambientais, podendo perdurar por meses após o último uso da droga. Na Tabela 02, aponto alguns dos principais sintomas desta síndrome de abstinência protraída.

Tabela 02. Sintomas da síndrome de abstinência demorada da maconha

•    Insônia
•    Apatia
•    Falta de motivação
•    Sintomas depressivos
•    Flutuação do humor
•    Crises de ansiedade
•    Problemas de concentração e atenção
•    Problemas com a memória
•    Maior reatividade negativa às situações de estresse do dia a dia
•    Sintomas frequentes de exaustão ou fadiga
•    Redução no interesse em atividades sexuais

Recomendações para quem tem síndrome de abstinência 

Claramente, nem todos os portadores da síndrome de dependência da maconha reportam sintomas da síndrome de abstinência crônica, demorada ou protraída. Para aqueles que, de fato, manifestam tais sintomas, algumas recomendações podem ser úteis, tais como:

a) angariar conhecimentos a respeito dos efeitos agudos e crônicos das substâncias psicoativas
b) ser paciente e flexível
c) procurar auxílio de profissional médico especializado a fim de investigar a presença de algum outro transtorno mental coexistente
d) praticar atividades físicas (se possível, supervisionadas)
e) evitar ganho desnecessário de peso; portanto, é importante alimentar-se de forma adequada e equilibrada
f) levar a sério os sintomas que estão surgindo ou se mantendo, buscando revelar tais dados para um profissional especializado
g) participar de grupos de mútua ajuda
h) manter rede de amigos e rede social obviamente não usuária da substância.

A presença dos sintomas da síndrome de abstinência em um usuário dependente da droga sempre é preocupante, uma vez que, além de provocar um status de mal-estar no indivíduo, aumenta as suas chances de recaídas ou lapsos. Portanto, para esses indivíduos, o tratamento médico faz-se necessário.

Falta de motivação

É relevante aproveitar este espaço para discorrer brevemente sobre a falta de motivação para a realização das atividades da vida diária que pode surgir entre usuários crônicos e persistentes da maconha. Alguns autores descrevem essa carência de motivação como “síndrome amotivacional.” Nesta dita síndrome, podemos encontrar:

a) letargia
b) desinteresse
c) falta de energia
d) prejuízo no julgamento
e) falha nas funções executivas.

Não existem razões totalmente claras para o surgimento da chamada síndrome amotivacional entre usuários crônicos, recorrentes e pesados da maconha. Especula-se, entretanto, que aquele usuário diário (ou quase diário) ocupa os seus receptores cerebrais endógenos canabinoides quase o tempo todo com a maconha (que é um canabinoide exógeno). É importante notar que o sistema endocanabinoide cerebral está relacionado com a sensação de prazer e com a regulação do humor. Uma vez que tal sistema é ocupado muito amiúde por substâncias exógenas, é possível a ocorrência de uma desregulação endógena, causando perda progressiva na habilidade para sentir prazer e redução na busca por atividades antes tidas como prazerosas ou mesmo necessárias.

Você percebeu os prejuízos causados pelo seu consumo de maconha. Procure um profissional da saúde, apresente a ele toda a sua história relacionada ao consumo e manifeste as suas dúvidas. Será importante uma avaliação rigorosa do seu quadro clínico e o estabelecimento de uma proposta terapêutica eficaz.

Boa sorte!!!

Atenção!
Este texto não substitui uma consulta ou acompanhamento de um médico psiquiatra e não se caracteriza como sendo um atendimento.

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TAGS :

    síndrome, abstinência, dependência, maconha, preguiça

Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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