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Como a psiquiatria entende o suicídio

Edson Toledo 11/06/2019 PSICOLOGIA
Como a psiquiatria entende o suicídio
Fonte: imagem Pixabay
Suicídio deve ser visto como patológico

Por Edson Toledo  

Quando se fala de suicídio normalmente vem à tona perguntas como: “por que ele fez isso?”; “o que estava tão ruim na vida dele que o motivou a tomar essa decisão?”, “como não podemos perceber que ele estava sofrendo tanto?”, “mas tudo parecia tão bem na vida dele...”.

Estas dúvidas surgem porque, na visão leiga, comportamentos suicidas são compreendidos como um fenômeno motivado apenas pelo ambiente e por questões socioculturais. Atualmente sabemos que, em mais de 95% dos casos de suicídios, as vítimas são pessoas biologicamente vulneráveis, portadoras de um transtorno psiquiátrico. O meio ambiente, em si, não é – e não poderia ser – necessário e/ou suficiente para levar qualquer pessoa a buscar o suicídio como única alternativa.

Visão moderna

A visão moderna e cientificamente mais precisa sobre as causas do suicídio o descreve como um desequilíbrio entre vários fatore estressores e mecanismos de resiliência. Eventos estressores são experiências que ameaçam a habilidade de o individuo se adaptar ao meio ambiente. Já os mecanismos de resiliência tornam-no capaz de se adaptar ao estressor e regular sua resposta diante dele. Assim, postula-se que algumas pessoas apresentem fatores individuais de vulnerabilidade e resiliência, que abalam o equilíbrio.

Os fatores estressores podem ainda influenciar uns aos outros, ou seja, impactando indiretamente o resultado. Por exemplo, o Transtorno Bipolar é um importante fator de risco para o suicídio. Contudo, se bem tratado, tal risco diminui de forma significativa. Da mesma forma, fatores que dificultam o controle do transtorno bipolar – como rotinas estressantes, privação de sono, antidepressivos mal indicados, álcool, drogas ativadoras (ecstasy, cocaína, LSD, anfetaminas etc.) podem aumentar o risco de suicídio nesses grupos, como desfecho final.

Alguns fatores de risco foram associados ao suicídio, levando a um aumento da carga estressora e diminuição da resiliência. Abaixo encontramos alguns desses fatores:

Fatores sociodemográficos:

•    estado civil: solteiro, viúvo, separado
•    orientação sexual: homo ou bissexual
•    Ocupação: desempregado, aposentado, profissões específicas (médicos, dentistas)
•    Moradores de áreas urbanas ou migrantes
•    Perda de ente querido (especialmente perda recente)

Presença de transtornos psiquiátricos:

•    Transtornos de humor
•    Transtorno psicótico (especialmente esquizofrenia)
•    Transtorno de personalidade
•    Transtornos relacionados ao uso de substâncias
•    Transtornos de ansiedade
•    Transtornos mentais orgânicos ou outros

Fatores familiares:

•    Antecedentes familiares de transtorno psiquiátrico
•    Antecedentes familiares de transtorno de suicídio
•    ambiente familiar disfuncional
•    Abusos na infância
•    Isolamento social

Fatores de riscos gerais:

•    Doenças crônicas
•    Câncer
•    Lesões medulares
•    Lesões desfigurastes

Outros fatores:

•    Tentativa de suicídio prévio: é um fator preditivo isolado mais importante
•    Impulsividade, agressividade, labilidade emocional
•    Problemas legais e/ou financeiros

Assim, somente perguntando diretamente ao paciente, investigando todos os possíveis fatores de risco e desmistificando esse assunto, tiraremos a culpa de cima dele e de seus familiares. O suicídio deve ser visto como patológico, para que as medidas preventivas e assistenciais corretas possam ser tomadas.

Fonte: Ser Médico - nº 86, Ano XXI, Jan/Fev/Mar.2019




TAGS :

    suicídio causas

Edson Toledo

Coordenador do serviço de atendimento a pacientes com tricotilomania no PRO-AMITI/IPq FMUSP. Supervisor clínico na UNIP. Psicólogo pela Universidade Metodista. Mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Especialização em Terapia Cognitivo-comportamental pelo Ambulim/IPq FMUSP. Especialização em Psicologia Hospitalar pela UNISA



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