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Devo revelar no ambiente de trabalho que tenho um transtorno mental?

Tatiana Ades 19/06/2019 PSICOLOGIA
Devo revelar no ambiente de trabalho que tenho um transtorno mental?
Fonte: imagem Pixabay
O portador do transtorno deve aceitar o tratamento e se responsabilizar por qualquer recaída

Por Tatiana Ades  

Hoje falarei sobre o ambiente de trabalho, os transtornos mentais, porém visto de forma macro, não segmentada e expondo as condições para a empresa em manter o colaborador portador de qualquer transtorno mental, as consequências para ambos e talvez propor a melhor forma para ambos conviverem de forma sinérgica dentro do ambiente de trabalho.

Apenas para fins de ciência, segundo a OPAS (Organização Pan-Americana de Saúde/OMS, apenas a depressão atinge 5,8% da população brasileira, ou seja, se imaginarmos a estrutura de uma empresa compostas por 100 colaboradores, aproximadamente 6 destes apresentaram, apresentarão ou apresentam um quadro de depressão, apenas depressão; se colocarmos na conta todos os transtornos mentais cito ex: transtorno de personalidade borderline, transtorno bipolar do humor, transtorno esquizoafetivo, esquizoide, esquizofrenia, transtorno da impulsividade, transtorno dissociativo e muitos outros, os quais inclusive formaram outros espectros dentro do DSM 5(Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), a possibilidade de uma empresa ter que enfrentar algum incômodo, problemas ou até mesmo uma crise, por conta de um colaborador com algum transtorno mental é bem alto.

Do outro lado, temos uma pessoa, um cidadão de qualquer lugar, que necessita exercer alguma atividade para se manter, até mesmo para complementar a função terapêutica, é extremamente necessário que este exerça o seu direito de obter acesso ao mercado de trabalho.

A situação é delicada, temos dois lados, que quase necessariamente irão convergir, mas e aí o que cada um teria que fazer?

Dois lados da moeda

Exporemos em uma situação hipotética os dois lados da moeda.

Supondo que determinado colaborador assediou moralmente outro ou um grupo de trabalho e a questão foi elevada ao RH de determinada empresa.

Inicialmente acredito que a empresa deve apurar o fator que gerou o evento, verificar se a reação foi proporcional à condição de estresse a qual o colaborador causador do fato está ou esteve.

Analisado o aspecto acima, deve se verificar o histórico desse colaborador, se houve caso parecido no passado e a conduta em todo o tempo que esteve a serviço da empresa. Acredito que nesses casos, se foi um episódio isolado, uma conciliação deve ser prioridade dentro do ambiente de trabalho.

Caso a reação tenha sido desproporcionalmente explosiva em relação às condições de trabalho, o RH deve encaminhar para tratamento psiquiátrico ou terapêutico.

Ponto de vista do colaborador

Sob o ponto de vista do colaborador portador de algum transtorno, esse deve aceitar o tratamento e se responsabilizar por qualquer recaída. Infelizmente não escolhemos como devemos nascer, mas somos responsáveis pelos nossos comportamentos. É imprescindível que a pessoa não entre em negação em relação ao problema, e aceite o tratamento. O terapeuta terá melhor visão sobre a condição do cidadão/colaborador. Mas caso a pessoa tenha alguma desconfiança sobre o diagnóstico, pode e deve buscar outro profissional para avaliá-lo. Se o outro profissional confirmar o diagnóstico, é necessário aceitar o tratamento. Somente assim será possível manter a qualidade de vida do indivíduo, tanto pessoalmente como profissionalmente. Somos instruídos a não passar nossos problemas para a nossa empresa, mas infelizmente uma coisa está visceralmente ligada a outra, essa balança não pende apenas para um lado.

Ponto de vista da sociedade

Do ponto de vista da sociedade, existe tratamento gratuito  no CAPS, (Centro de Atenção Psicossocial), e os profissionais são de excelente gabarito. Porém é uma realidade que o serviço público deve atender a todos e a demanda é bastante alta; é difícil para o profissional dar a atenção que uma consulta normal em um consultório pode oferecer. Hoje no Brasil o tratamento particular atende apenas uma pequena camada da população. Uma consulta com um excelente profissional chega facilmente R$ 500,00. Se falarmos das medicações, algumas ultrapassam a barreira dos R$ 1.200,00 (mil e duzentos reais). Intermediando a questão existe o acesso através dos planos de saúde, porém não são tão acessíveis assim e as melhores medicações são efetivamente fora da curva do poder de aquisição do brasileiro.
 
Mas agora e aí, tenho um transtorno mental, devo abrir a situação com a empresa ou não?

Acredito que o colaborador deve abrir sua condição, apenas após a efetivação do emprego, e apenas com o superior imediato. Trata-se sim de uma transferência sobre um problema, mas esse superior terá que lidar com o RH sobre a questão. E o mais importante, o colaborador deve manter o tratamento para os casos crônicos e nos casos episódicos apenas parar o tratamento com alta médica.

Faço forte apelo contra a psicofobia (preconceito com pessoas que tem algum transtorno mental) e digo que é necessário trazer luz sobre a questão. Os portadores de qualquer transtorno mental são imensamente vulneráveis no ambiente pessoal e profissional.




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    transtorno mental

Tatiana Ades

É psicanalista e escritora e teatróloga. Em seus livros, o foco de estudo é o comportamento humano e o amor patológico. Tem em seu currículo várias peças escritas e encenadas nos teatros de São Paulo, além de ter concorrido ao prêmio Shell de melhor texto teatral com Os Viúvos – Teatro Ruth Escobar (2003). Como escritora, em 1998, ganhou um concurso com o conto O silêncio da raposa. Eles são o resultado de uma pesquisa de três anos: Hades – Homens que amam demais e As escravas de Eros.



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