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Comportamento

Relacionamentos

Viver com o outro que nos faz mal: aprenda a virar o jogo

Precisamos nos encarar, encarar nossas dores, nossa história, desfazer ilusões e idealizações, deixar de termos piedade de nós mesmos

14 ago, 2019

Introdução 

“A vida é um tesouro, quando pode ser polida”.

(Marilene Krom, Milena Manente e Regina Frederigue, no livro, Desvendando mitos – O Uso de uma leitura evolutiva e instrumental crítica. p.135.).

Venho refletindo bastante sobre o grau de influência negativa que uma pessoa pode exercer sobre a outra.

Muito tem me espantado, constatar, com lamentos, que a boa influência provoca menos impacto nas relações interpessoais que a má influência, que doença relacional contagia mais do que saúde relacional.

Acompanhando minha própria trajetória relacional e a de vidas que me cercam, esse cenário reiterado de mal contagiando o bem, me instiga a pensar, em possíveis causas e caminhos para transformarmos tal realidade.

Desejo, ao final deste artigo, ter lançado algumas luzes sobre essas densas nuvens de nosso mundo relacional.

E que, como proporá, a nossa poetisa, ao final do texto, tenhamos os “troncos fortes, de navegador”, para nadarmos nas ondas da felicidade relacional. 

Coragem para nos sondar e descobrir as sombras que nos habitam

Somente lançando luzes sobre nossa história pessoal e familiar, poderemos iniciar a descida em nossos mistérios e legados familiares, e assim, acessarmos ao portal que nos ajudará a compreender nossas lealdades invisíveis e padrões de repetições de sofrimentos psíquicos e relacionais.

Todos nós, nascemos em famílias que “invisivelmente” estabelecem lugares para ocuparmos, e a obediência a esse lugar, manterá o frágil equilíbrio do sistema de lealdades invisíveis familiares.

Nesses “lugares”, que sempre guardarão obrigações e sansões, podem se esconder “sequestradores” de nossa felicidade e realização pessoal. Por exemplo, podemos ter aprendido que “provocamos dor no outro”, se pequeninos, queríamos testar o mundo e errávamos algumas formas de viver essa experiência ou não dávamos conta de atender a demandas que absurdamente, eram feitas a nós.

Aqueles “outros significativos”, a quem queríamos tanto bem, e de quem tanto necessitávamos, exigiam, muitas vezes, que sanássemos suas frustrações pessoais, com nossa conduta obediente, impecável, e sem erros.

E assim, vamos nos afastando, da liberdade de errar, de aprender com o erro e o pior de tudo, somos sequestrados, pelos que dizem nos amar, querer nosso bem, mas que, em verdade, estão, egoisticamente, presos em sua própria infelicidade.

“Síndrome de Estocolmo” psíquica

Porém, o que de mais grave pode ocorrer, é quando passamos a viver a “Síndrome de Estocolmo” psíquica, ou seja, quando já não queremos mais “fugir dos sequestradores”, eles podem ficar à vontade, deixar todas as portas abertas, já não desejamos mais lutar com eles, por nossa liberdade. Fomos docilizados, passamos até a entendê-los e a termos compaixão por eles.

É nesse ponto que seremos massa de manobra de todos os futuros sequestradores, que aparecerão em nossa trilha relacional, e o mais das vezes, passamos a ter certo fascínio por pessoas fortes, absolutas e que exigem que nos dispamos de quem nós somos.

Assertividade e disciplina: saindo dos pântanos relacionais que habitamos

Fazer a sondagem psíquica anteriormente proposta, exigirá coragem e persistência, pois passaram-se décadas, desde que começamos a afundar nos pântanos relacionais que nos habitam.

E gosto muito das duas ferramentas que lhes proporei agora, eu as utilizo, à exaustão, em minha vida: a assertividade e a disciplina, como dois cipós, nos quais poderemos nos agarrar, para sair de nossos pântanos.

A assertividade é uma característica que precisará ser adotada por cada um de nós, em nossa luta de transformação: precisaremos nos encarar, encarar nossas dores, nossa história, desfazer ilusões e idealizações, deixar de termos piedade de nós mesmos e dos outros que nos fazem mal, consciente ou inconscientemente.

O que é ser assertivo?

Ser assertivo, não exigirá que sejamos rudes ou grosseiros, menos ainda violentos com o outro, mas que sejamos firmes, que nosso “não” seja dado, com segurança, repetidamente e que nosso “sim”, seja bem avaliado, antes que possamos voltar aos pântanos onde habitávamos.

Vejam que enfatizei, no parágrafo acima, a palavra “repetidamente”, na utilização da assertividade. Pois é, tudo na vida seja na vida cotidiana, seja na vida psíquica que rege nossos hábitos e pautas de comportamento, exige disciplina, que é a “prontidão”, a atenção; aquela luta para fazermos o bem a nós mesmos, a despeito de cansaços, desânimos, crises, mal tempo etc.

E agora vem a boa notícia: tudo aquilo que “disciplinadamente” nos propusermos a lutar e a zelarmos por sua continuidade, como bons jardineiros, produz novos e bons frutos.

Passaremos a sermos menos afeitos aos “sequestradores de alma” de plantão, e assim, nutriremos mais brilho nos olhos por nós mesmos, por nossos sonhos e por nossa melhor parte.

Só assim, seremos bons influenciadores em nossos vínculos e construiremos “fronteiras” psíquicas contra as más influências relacionais. O convite a tentarmos mudar, está feito.

E para terminar...

Como lhes contei bem na introdução do texto, nossa reflexão teria o alinhavo final de uma jovem compositora, de alma velha e sábia, a Mallu Magalhães. Nesta canção “Navegador”, ela, com força e assertividade, confirma a proposta que lhes fiz de olhar frente a frente para o “fim”, de nossos pântanos relacionais, e de “descer a rua” deixando nossos sequestradores para trás, rumo às “ondas da felicidade”, afinal, não nascemos, como diz a compositora, para ver o mundo desabar.



Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008

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