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Comportamento

Amor

Quem inventou o amor?

‘Antes das Seis’, da Legião Urbana, é o primeiro post de uma série que vai interpretar o significado do amor nas letras da banda

14 ago, 2019

Todo sentido nasce do amor. Toda palavra, no anseio de ser escutada, demanda amor. E já ao dizer isso, não sabemos o que é o amor. Porque essa está inflacionada e guarda tantos significados confusos, que para alguns seria melhor não a utilizar: não existe nada no mundo com este nome. O que existem são sinapses deselegantes, enlouquecidas por algum hormônio oportunista, que gera essa sensação desmedida, de certo perdendo o senso. Mas, essa mesma descrição não estaria equivocada, confundindo amor e paixão; amor e desejo; amor e ódio; amor e ternura... é nessa confusão que nos encontramos. O amor nos diz.

Filosofia

A filosofia é em sua origem, amor (philia) à sabedoria (sophia). Mas a palavra aqui é “philia”, mais comumente traduzida como amizade, uma tendência a ficar próximo, de ficar junto, descreve as relações e ordena o universo. No entanto, essa ordenação pode ser também desequilíbrio, já que é fundamental a diferença entre amar e ser amado. Eu posso amar ou ter amizade pela sabedoria, seguir toda minha vida em seu cortejo, cuidando e procurando cuidadosamente me aproximar, mas isso não significa que a “sabedoria” retribua meu favor. Você pode amar sem ser amado, ter amizade por alguém que não quer sua amizade. A frustração de quem ama e se decepciona é o aprendizado de amar. Não se pode aprender sem esse fracasso. Nem deveríamos nos iludir sobre o que seria o sucesso nessa busca. Quem ama a filosofia nunca tem a sabedoria, mas pode “saber” de sua busca.

A pergunta “o que é o amor?” não pode ser respondida como se houvesse um fim da investigação. Isso é verdade mesmo quando a palavra é escrita com letras maiúsculas e o que se cultiva é o sagrado, como palavra que une os homens e os deuses. Se me restam fé, esperança e amor, é este último que dá sentido aos demais.

Em um mundo desencantado o amor é o que move as narrativas dos filmes, das novelas, das canções, das propagandas, das fofocas etc. Aprendemos a amar com nossas mães e pais, mas reaprendemos com a cultura popular, nas telas e encenações vemos, mas o vocabulário e o sentido surgem na trilha sonora: são canções de amor e o apelo para que compartilhemos aquela emoção sugerida o guia/roteirista desse sentimento.

Trilha sonora da sua vida

Quais suas canções favoritas? Qual a trilha sonora da sua vida? Quais as canções que te ensinaram a amar?

Proponho aqui começar uma busca pelo significado do amor nas canções da Legião Urbana. É claro que essa escolha tem uma justificação biográfica e essa pode ser uma daqueles grupos ou estilo de canção que lhe fazem sentir aversão, antipatia, como se ninguém realmente legal pudesse gostar de tal ou qual estilo musical. Mas esse é um convite e a investigação vai além de suas canções. Meu amor, venha comigo! Pois quando eu digo “meu amor” é a você que eu chamo, meu amor.[1] 

O romantismo simples e direto de Antes das Seis faz muita gente questionar o porquê dessa canção só ter sido lançada no álbum póstumo Um outra estação (1997). Melhor seria perguntar se esse tipo de discurso romântico teria lugar nos álbuns da Legião Urbana.

A letra de Antes das seis repete no seu refrão a pergunta: “Quem inventou o amor/me explica por favor”. A questão se desvia da pergunta por uma essência, algo que existe de modo independente das relações entre as pessoas: “alguém” em algum momento inventou o “amor”, ou melhor, essa forma de amar descrita na canção. Em que você fica hipnotizado pela pessoa, imaginando seus passos, o que pensa, o que sente, idealizando cada gesto ou palavra, “Depois quero ver se a certo/Dos dois quem acorda primeiro”.  


Essa competição sobre quem acorda primeiro é um jogo ambíguo: se esta relação pede a fusão dos dois em um, quem vai despertar antes e reivindicar sua individualidade? Quem é ama e quem é amado? A letra parece não problematizar diretamente essa diferença, mas em sua “conclusão” descreve o amor como aquilo que nos mobiliza no cotidiano, na procura de alguém “quem um dia possa lhe dizer/ “quero ficar só com você”. Cabe um estranhamento aqui: todas as pessoas procuram ter uma relação estável, mas ninguém quer se colocar nessa posição de fragilidade, em que o sentido de toda sua existência seria dependente de estar com uma outra pessoa.

Amor romântico

O psicanalista Jurandir Freire Costa escolheu o amor-romântico como tema de investigação ao perceber que os jovens comumente tomam esse sentimento como um ideal inquestionável, porém, ao mesmo tempo, culpam o outro por não alcançar sua realização “Todos afirmavam: eu me previno sempre, porque sei que vou me apaixonar e sei que o outro não vai querer, ele vai me abandonar, então não vou me arriscar. O resultado é uma grande apatia, uma descrença em relação ao amor” (COSTA, 1999, p.114).

Numa entrevista em 1993, Renato Russo mostrou estar em sintonia com esse julgamento: “Depois que eu me apaixonei de verdade, e não deu muito certo, então eu não consigo mais… Eu fico esperando, putz, eu quero sentir aquilo de novo, mas aí, se começa, se o coração bate mais rápido: "Ah, eu não sei se quero isso, não”. Eu acreditei durante muito tempo em amor romântico. Hoje em dia, eu não acredito em amor romântico, não. Eu acredito em respeito e amizade. De repente, sexo e tudo. Ou, então, expressão física. Mas é assim: respeito e amizade. Porque paixão, essa coisa de amor romântico mesmo, acho que traz muito sofrimento e sempre acaba. Você sofre, você fica pensando na pessoa, você não funciona direito. Ao mesmo tempo em que você descobre muitas coisas boas em você — não sei, pelo menos comigo acontece isso —, eu descubro sempre as invejas, certos ciúmes, uma certa possessividade, no meu caso, muito machista. E isso incomoda. Eu sou ciumento, possessivo, italianão. Eu acho que o amor verdadeiro não passa por isso, não” (RUSSO, 2016, p.29).

Ainda que Renato assuma em sua fala a crença na amizade, cai ainda no mesmo esquema romântico, em que depois da paixão arrebatadora se segue o tempo em que o amor se torna terno e sensato, para a realização da construção da família. Em verdade, Antes das Seis é prima-irmã de O mundo anda tão complicado do disco V, mas nessa última canção a idealização da convivência romântica é a construção de um lugar em comum, na casa que o casal começa a mobiliar, um lar em que a paixão dá lugar para a ternura e o sentimento mitigado de quem quer construir uma convivência familiar e “pequeno burguesa” (com amizade), uma canção que fala da “situação de quem deixou a segurança de seu mundo por amor”. O que é “seguro” aqui é o “mundo individualista”, a segurança é também medo de sofrer, de investir numa relação que depende de outras pessoas, que vai além da mobília e entretenimento.

Ainda que Antes das seis tenha ficado na gaveta e a escolha tenha sido por O mundo anda tão complicado, a “metafísica do amor romântico” continuava acenando. Não se pode menosprezar a diferença dessa relação fundada na amizade e não na paixão desmedida, mas a questão é quem disse que o amor deve ser deste jeito? Por que o amor romântico, sem qualquer sentido social ou religioso, tornou-se nosso grande ideal de vida?

A “metafísica do amor romântico” coloca esse sentimento fundado na relação afetiva intima como a fonte de todo o sentido, seu discurso pendula entre os polos do “amor eterno” e do “prazer constante”. Curiosamente, as canções do sertanejo romântico passaram nas últimas décadas da primeira promessa para a segunda, sem problematizar que as duas são idealizações falsas: não podemos ter ambos e quando abrimos mão de um, nos sentimos frustrados, como se a felicidade completa fosse negada, como se estivéssemos vivendo pela metade (COSTA, 1999, p.132).

Legião Urbana trata relações íntimas em um sentido social 

A Legião Urbana, na melhor tradição da música popular brasileira, considera que as canções que tratavam de relações íntimas também tinham um sentido social. Já que as canções mobilizam e modificam os sentimentos, também têm um efeito político descrevendo formas de relacionamento e ideais de vida. A ideia de que alguém pode dar sentido e redenção para nossa existência é politicamente desastrosa: a mobilização das massas em torno de líderes autoritários responde a esse anseio de totalidade. Na verdade, seriam também um sintoma do afeto autoritário de um país fundado na escravidão que depois de anos de governo ditatorial continua procurando e venerando a ideia de um governante forte e redentor, que teria atitude para refundar a nação. Sebastianismo como farsa.

Sabendo disso, temos uma explicação do que justificaria que Antes das Seis tenha ficado na gaveta. Lançada num disco póstumo, juntamente com sobras de estúdio, não deve ser considerada a melhor descrição do amor nas canções da Legião. Em verdade, a pergunta é aqui é o que há de mais importante. Quem inventou o amor? Podemos encontrar nas canções da Legião Urbana diversas respostas e definições do que é o amor, seus discos podem ser tomados como um caminho de aprendizado, para que possamos nos pensar, como pessoas e como sociedade.

REFERÊNCIAS

COSTA, Jurandir Freire. Razões públicas, emoções privadas. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.

RUSSO, Renato. Renato Russo de A a Z: as ideias do líder da Legião Urbana. Campo Grande: Letra Livre, 2016.

[1] Não citei Derrida.


Marcos Carvalho Lopes é filósofo, desenvolve junto com Murilo Ferraz o podcast filosofia pop (www.filosofiapop.com.br). É pós-doutor em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-RJ; doutor em Filosofia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás e Licenciatura em Filosofia pela Universidade Federal de Goiás. Atualmente é professor na Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira (UNILAB). Autor de Canção, estética e política: ensaios legionários (mercado de letras, 2012) e Máquina do Medo (PUC-GO, 2013); organizou em parceria com Ronie Silveira a coletânea Religiosidade brasileira e filosofia (Editora Fi, 2016) e botAfala: Ocupando a Casa Grande (Pedro &João, 2019).

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