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Vontade louca de beber quando chega sexta-feira? Saiba o que fazer

Danilo Baltieri 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Mulher é mais vúlnerável aos efeitos do álcool

por Danilo Baltieri

"Fico de segunda a quinta-feira sem vontade de consumir álcool, mas quando chega sexta-feira da aquela vontade louca de beber. O que eu faço?"

Resposta: O beber excessivo ou intenso em finais de semana é um comportamento bastante comum, especialmente entre jovens. Esse comportamento engloba cerca de 90% do total de bebidas alcoólicas consumidas por jovens entre 12 e 17 anos de idade, segundo estatísticas americanas.

Várias consequências nocivas têm sido apontadas entre jovens com essa conduta. Maior frequência de comportamentos sexuais e físicos arriscados e pior desempenho escolar e laboral têm sido mais observados entre bebedores excessivos de finais de semana do que entre não bebedores.

Elas e eles

Entre jovens do gênero feminino com esse padrão de consumo, alguns estudos têm observado uma maior frequência de comportamentos sexualmente inadequados, gravidez não planejada e, consequentemente, indesejada, maior susceptibilidade a comportamentos sexualmente ofensivos dos seus pares, maior exposição a danos físicos, dirigir embriagada...

Entre jovens do gênero masculino, consequências semelhantes são observadas, como comportamentos sexualmente arriscados, dirigir embriagado, maior propensão a interpretações errôneas e equivocadas, conflitos físicos com seus pares, comportamentos agressivos de vários tipos...

Além disso, sob uma perspectiva fisiológica, as meninas tipicamente pesam menos do que os meninos e elas apresentam menor capacidade de metabolização do etanol. Dessa forma, as moças são mais vulneráveis aos efeitos do consumo do álcool. Por essa razão, menores quantidades de bebidas podem causar muito mais danos para as meninas. Também, a chance de experimentação de outras drogas é maior entre os jovens que apresentam esse comportamento de beber excessivamente (“binge drinking”) do que entre os abstêmios ou bebedores sociais.

Neuropsiquiatria

Do ponto de vista neuropsiquiátrico, o álcool em altas doses é neurotóxico e pode provocar danos às células neurais. Alguns estudos comparando o funcionamento cognitivo entre jovens bebedores pesados de finais de semana e outros jovens sem esse comportamento apontam prejuízo da memória e das habilidades de raciocínio e concentração no primeiro grupo. Além disso, uma diminuição da dimensão do hipocampo (estrutura cerebral responsável pela memória e aprendizado) tem sido observada entre os jovens bebedores pesados (não se sabe se esse efeito é reversível).

Efeitos aos outros sistemas orgânicos decorrentes do beber excessivo episódico abundam na literatura médica (gastrites, esofagites, aumento súbito da pressão arterial sistólica, diminuição da contractilidade miocádica, dores musculares agudas resultantes de miopatia etc).

Segundo estudo publicado no Current Opinion on Psychiatry (Karam et al., 2007), existem alguns fatores que protegem e outros que favorecem o beber pesado episódico entre jovens. Dentre os fatores de risco, citam-se gênero masculino, uso frequente de bebidas alcoólicas pelos pais e/ou amigos, maior nível educacional e maior status sócioeconômico. E, entre os fatores de proteção, destacam-se a presença forte de uma fé religiosa e de familiares com conceitos negativos sobre o uso de bebidas alcoólicas e de outras drogas.

Beber pesado uma vez por semana acarreta prejuízos

Apesar de todas essas evidências, os jovens tendem a negar as deletérias repercussões do beber pesado em festas ou finais de semana. Isso ocorre, principalmente, quando os seus pares fazem uso importante de bebidas e incentivam esse comportamento. Isso acaba gerando, principalmente entre os jovens, a crença de que beber bastante uma vez por semana é legal e não acarreta quaisquer prejuízos.

Estratégias

Acredito que as primeiras estratégias a serem desenvolvidas para se evitar isso são: a mudança do estilo de vida e das ideias muitas vezes disfuncionais entre essas pessoas. Você seguramente já deu um primeiro passo, quando reconhece que é uma “loucura” a sua vontade de beber nos finais de semana. É o momento exato de mudança de estilo de vida e, talvez, dos amigos de copo.

Tentar desenvolver atividades sociais diferentes, em que a presença de bebidas não existe, consiste em uma estratégia adequada e muitas vezes prazerosa. A diversão ou o relaxamento tão desejados nos feriados e finais de semana não deve estar associado com o consumo de bebidas alcoólicas ou com outras substâncias.

Muitas vezes, a pessoa que bebe intensamente é cercada por amigos que também têm esse comportamento, e não percebe que existem outros colegas que não compartilham disso.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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