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Por que pessoas espancam outras e cometem atos violentos após derrota de seu time?

Regina Wielenska 01/01/2016 PSICOLOGIA

por Regina Wielenska

Seu time perdeu e você saí por aí, espancando pessoas?!

Li notícias de gente que sai brigando depois que seu time foi derrotado no futebol. Na Inglaterra eram "famosos" os hooligans, e esses só tiveram sua ação coibida à força de muita ação policial e de condenações com penas rígidas.

Como surgem pessoas tão agressivas, atacando os outros com virulência, indiscriminadamente quando seu time perde?

Em Psicologia raramente há como identificar um fator único que determine um fenômeno complexo. Ao contrário, comportamentos complexos geralmente são construídos através de uma história, a partir da vida no seio da família, escola e comunidade.

Vivemos numa sociedade na qual são frequentes os relatos de comportamentos, destrutivos, agressivos em situação de frustração ou oposição. A troco de que alguém parte pra destruição de bancas de jornal e outros itens do mobiliário urbano depois que seu time perdeu?

Quantas vezes pessoas inocentes foram mortas ou seriamente feridas por terem algum atributo (time, cor da pele, orientação sexual, fé religiosa etc) que desagrada ao agressor?

Há quem afirme que agressores apresentam dificuldade de regulação emocional, e o comportamento agressivo se torna prevalente no repertório, não aprenderam um jeito de se comportar "maduro", pacífico, refinado, que pudesse impedir que a raiva fosse extravasada assim. Isto me faz sentido parcialmente. A fórmula parece mais complexa, e acho que não conseguirei identificar todas as variáveis e muito menos estimar o peso desempenhado por cada uma.

Como é a família do agressor, que valores sustentou, que exemplos de manejo da frustração, de amor pelos outros e de aceitação das diferenças deu ao seu filho? Em segundo lugar, que consequências diferenciais - ou seja, forma dadas a comportamentos gentis, justos e pacíficos -, se comparados a demonstrações de hostilidade. Essa criança aprendeu a lidar com frustrações de um jeito positivo, encarando cada evento como um convite para novas e melhores oportunidades? Usando expressões bem exageradas, essa criança foi educada pra ser Hitler ou Martin Luther King, Calígula ou Gandhi?

O ambiente da escola, e me refiro aos professores, funcionários e às outras crianças, de mesma idade ou mais velhas, trataram comportamentos agressivos de que modo? O que conseguem fazer com casos de bullying?

Muitas crianças moram em setores da cidade que são territórios sem lei, dominados por gangs que amealham adolescentes e crianças, oferecendo-lhe bens como tênis de marca, brinquedos, games etc; e um status social que raramente obteriam de outro modo. Cometer atos infracionais é a prova de pertencimento às gangs.

Nosso sistema jurídico fez códigos, estatutos e leis difíceis de cumprir, e não sabemos muito o que fazer com jovens agressivos, falta estrutura, gente preparada, verba, há pouco apoio psicológico, social e educacional de qualidade.

Escrevo esta coluna sabendo que aqui e lá pipocam projetos sociais formidáveis, geralmente surgidos a partir de iniciativas isoladas de natureza civil.

Precisamos ensinar os pais, educadores e autoridades a cultivar nas crianças e jovens valores e habilidades de relacionamento interpessoal que tendam a se contrapor a comportamentos agressivos e destrutivos gratuitos.

Tristeza, raiva e dor da frustração precisam ser acolhidas com carinho e apoio; vamos considerar que todo sentimento é justo e possível.

Ninguém controla o que sente, mas pode aprender a transmutar essas emoções em atos de amor e crescimento de indivíduos e da sociedade.

Desculpem-me se falei muito e disse nada...




Regina Wielenska

É psicoterapeuta na abordagem analítico-comportamental na cidade de São Paulo. Graduada em Psicologia pela PUC-SP em 1981, é Mestre e Doutora em Psicologia Experimental pela IP-USP. Atua como terapeuta e supervisora clínica, é também professora-convidada em cursos de Especialização e Aprimoramento. Publicou dezenas de artigos científicos, e de divulgação científica, além de ser coautora de livros infanto-juvenis.



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