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É possível prevenir o desenvolvimento de demências na velhice?

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Educação e arte ajudam a prevenir demências

por Elisandra Vilella G. Sé

Hoje no Brasil e no mundo, à medida que aumenta a consciência para o envelhecimento populacional, também aumenta a preocupação com o alcance de uma velhice bem-sucedida. Com isso vários fatores estão envolvidos para contribuir na busca por qualidade de vida com a longevidade, mantendo a vida ativa, o corpo saudável e a mente lúcida.

É um sonho do ser humano manter a vida longa com saúde física e mental e com o vigor da juventude. Assim, podemos hoje lançar mãos de vários recursos e orientações por causa dos estudos, tecnologias, informações médicas, educacionais e sociais e divulgação das pesquisas no campo do envelhecimento para uma velhice saudável e satisfatória. E claro sem cair nos estereótipos e nas atitudes preconceituosas em relação à velhice.

Muitos aspectos relacionados à saúde física e mental considerados típicos do processo de envelhecimento na maior parte das vezes são atribuídos a fatores biológicos associados à idade. Entretanto, nem sempre incapacidades, fragilidades, transtornos entre outros processos negativos realcionados à saúde ocorrem devido aos aspectos genéticos e pessoais ou porque são típicos da idade. As variáveis biológicas, sociais e psicológicas têm cada uma o seu peso.

Envelhecimento e desenvolvimento

O grande desafio hoje é ver o envelhecimento numa perspectiva de desenvolvimento, isto é conciliar os conceitos de envelhecimento e desenvolvimento ao longo da vida. Um bom desenvolvimento significa um bom envelhecimento. Ou seja, o alicerce de uma boa velhice se encontra na infância e na juventude. Isso quer dizer que desenvolvimento e envelhecimento são processos concorrentes, significa que as mudanças evolutivas classificadas como crescimento, ganho ou progresso e as que apontamos como perdas e degeneração se fazem presentes da infância à velhice. Trata-se de uma perspectiva em que vemos a vida em toda a sua extensão e abrangência. Um pressuposto teórico assumido pelos cientístas que trabalham numa perspectiva multidimensional e multicausal do desenvolvimento e do envelhecimento (NERI, 1995, 2001).

A velhice é vista como uma experiência heterogênea, que comporta ganhos e perdas e é determinada por uma amplo espectro de variáveis em interação. Ou seja, o envelhecimento é determinado pela interação contínua de fatores genético-biológicos, psicológicos e comportamentais, do ambiente natural, fatores sócioculturais e históricos. O contexto sócio-histórico-cultural é o que oferece ao ser humano a oportunidade dessa interação contínua de todas as variáveis que contextualizam o processo de envelhecimento e que é fundamental à socialização e manutenção das potencialidades.

Com relação à polêmica discussão sobre os transtornos demenciais na literatura médica atual, as demências são os transtornos mentais mais comuns entre os idosos (o que os leigos costuma chamar de “esclerose” ou “caduquice”) seguido dos transtornos depressivos, que numa outra ocasião irei abordar sobre a prevalência de depressão em idosos.

Transtornos demenciais

Entre os transtornos demenciais mais comuns estão a doença de Alzheimer, demência vascular, demência fronto-temporal, demências subcorticais e demências reversíveis.

A demência é uma síndrome neuropsiquiátrica caracterizada por alterações no cérebro de forma degenerativa, pelo desenvolvimento de declínio cognitivo, alterações de comportamento e da personalidade. O quadro é geralmente de natureza crônica e progressiva, e os sintomas interferem de maneira significativa nas atividades habituais da pessoa, nas atividades sociais e de trabalho. Vamos ater-se no momento aos quadros mais comuns das síndomes demenciais hoje na população idosa brasileira, a doença de Alzheimer e a demência vascular.

Alzheimer e os primeiros sinais

Entre as alterações mais comuns nos quadros demenciais, principalmente na doença de Alzheimer é o comprometimento da memória e de mais uma função cognitiva (déficit de atenção e concentração, dificuldade de orientação temporal e espacial, dificuldade de julgamento, raciocínio abstrato, linguagem e dificuldade de planejamento e organização de atividades). Os esquecimentos são os sintomas que tendem a ocorrer primeiro e que aumentam com o passar do tempo. Nos estágios iniciais da doença, as alterações de memória podem ser difíceis de detectar e difíceis de diferenciar dos esquecimentos comuns que apresentamos com o envelhecimento normal.

Alterações de comportamento (desinibição, agressividade, inquietação) e outros sintomas psiquiátricos (apatia, desmotivação, desinteresse, depressão, delírios e alucinações) também são freqüentes durante o curso clínico da doença. Muitos dos sintomas não costumam ocorrer no início da doença, mas surgem com a evolução do quadro.

É importante salientar que o diagnóstico de síndrome demencial, segundo critérios diagnósticos bem estabelecidos, é eminentemente clínico, por meio da histórica clínica (os sintomas que a pessoas apresenta), do exame físico geral (reflexos, psicomotricidade, exame neurológico), baseado em avaliação objetiva do desempenho cognitivo e funcional (memória, linguagem, raciocínio, praxia, funções executivas, etc...), e por meio dos exames laboratoriais e de neuroimagem estrutural e funcional (exames de sangue, tomografia computadorizada, ressonância magnética, SPECT cerebral, etc...).

Alzheimer é a forma mais comum de demência

A doença de Alzheimer é a forma mais comum de demência com aproximadamente 50% dos casos, atingindo em torno de 2,1% da população com 70 anos de idade e chegando a 30,6% acima dos 80 anos e em 40-50% após os 95 anos. Em estudo sobre a prevalência da doença de Alzheimer em várias regiões do mundo, realizado por pesquisadores da USP (Lopes e Bottino, 2002), em artigos internacionais, revelou um predomínio no sexo feminino em 75% dos estudos avaliados, o predomínio chega à razão de duas mulheres para um homem sem dados percentuais significativos. Entretanto, outros estudos revelam predomínio no sexo masculino entre os homens negros americanos.

Um outro estudo sobre a incidência da doença de Alzheimer realizado com indivíduos brasileiros feito pela equipe do Dr. Ricardo Nitrini e col. (2004) da USP também encontrou uma incidência maior em mulheres, sendo a incidência mais elevada nas faixas etárias avançadas (acima de 80 anos). Esses dados podem estar associados ao fenômeno da femininazação da velhice que se caracteriza pela maior proporção de mulheres idosas em todo o mundo. Estudos internacionais confirma prevalência semelhante.

A doença de Alzheimer e os transtornos relacionados a ela afetam 24,3 milhões de pessoas no mundo e poderão atingir 81 milhões até 2040. Mais de cem anos depois de sua descoberta, em 1906 pelo médico alemão Alois Alzheimer, esta doença neurodegenerativa é ainda incurável e os especialistas temem que o número de doentes se duplique em 20 anos.

Existem fatores de risco bem definidos para o desencolvimento da doença de Alzheimer, a redução do número de neurônios com o avançar da idade, atrofia cerebral por acúmulo de proteínas específicas no cérebro (peptídio beta-amilóide responsáveis pela inflamação dos neurônios e a proteína tau que forma os emaranhados nurofibrilares) história familiar e fatores genéticos.

Demência vascular

Outra forma de demência também muito comum na população idosa é a demência vascular, corresponde a 12 a 18% dos casos. A demência vascular pode desenvolver devido a doenças cerebrovasculares como os Acidentes Vasculares Cerebrais, o infarto cerebral (aterosclerose, doença de grandes vasos e de pequenos vasos, isquemias, hemorragias intracranianas, traumatismos cranianos alterações do metabolismo cerebral podem estar associados à demência vascular).

Diversas doenças e fatores podem levar ao desenvolvimento de uma demência. Entre elas estão os processos infecciosos, intoxicações, diabetes, obesidade, hipercolesterolemia (colesterol alto), abuso de álcool, hipertensão arterial, alterações da tireóide, depressão, etc..

Um estudo realizado pela por Flroindo Stella e colaboradores da equipe do Ambulatório de Psiquiatria Geriátrica da Unicamp publicado no Journal of the Neurological Sciences que pesquisou os fatores de risco para o desenvolvimento da demência vascular em idosos, mostrou que dos 250 idosos com idade acima de 60 anos, 86% apresentam fatores de risco importantes para a demência vascular. Tais como depressão, hipertensão arterial, colesterol alto, problemas cardiovasculares, diabetes e obesidade.

Entre outros fatores relacionados ao desenvolvimento da demência estão os sociais e os educacionais. Pesquisas comprovam que o fator educação tem grande importância no desenvolvimento de habilidades e competências ao longo da vida, interferindo de forma significativa na maneira como se dão as redes neurais. As fases iniciais de escolarização é a fase mais importante para desenvolver conexões neuronais no cérebro, também o número de atividades de lazer e de atividades com valores artísticos têm grande importância para o desenvolvimento de uma mente com mais capacidade de associações, de habilidades visuo-espaciais, raciocínio abstrato, memória, atenção e criatividade.

Educação e arte ajudam a prevenir demências

Desta forma, além dos anos de educação, estudar e compor música, escrever poesias, estudar uma língua estrangeira, praticar esportes, pintura, teatro, dança, bordados, artesanato, entre outras atividades que envolvem a mente fazem a diferença ao longo da vida e ajudam a prevenir o desenvolvimento de déficits de atenção, memória e de demências. Além é claro de um equlíbrio da alimentação, sono e atividade física.

As modificações cognitivas que podem emergir no envelhecimento dependem fundamentalmente da interação de variáveis como tempo histórico, base biológica, fatores genéticos e fatores ambientais. Fatores sóciodemográficos (gênero, idade, nacionalidade, fatores socioeconômicos, etnia, escolaridade, etc...) juntamente com fatores subjetivos como altos índices de satisfação pessoal, auto-estima, e também atividade física regular, ausência de hábitos prejudiciais à saúde como tabagismo, controle de fatores de riscos e a existência de maior rede de relações sociais são fatores que associam com melhor desempenho e manutenção do funcionamento cognitivo ao longo da vida.

A junção desses fatores é que determinam a boa qualidade de vida. Quanto mais experiências e conhecimentos acumulados durante seu desenvolvimento, mais cérebro terá para enfrentar desafios e as adversidades com o processo de envelhecimento.

Assim podemos conciliar desenvolvimento e envelhecimento prevenindo-se dos fantasmas e estigmas que assombram a velhice. O envelhecimento começa quando nós nascemos, a partir do nascimento já construímos o nosso “eu” na interação com os outros e começa a construção de um curso de vida. Apesar da biologia ter seu valor, a genética não faz nada sozinha, nossa mente é uma mente social e histórica.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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