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Como lidar com a dependência de remédios para dor?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Dor crônica e síndrome de dependência exigem tratamento especializado

por Danilo Baltieri

"Minha tia tem dor crônica devido a uma lesão na coxa direita. Ela faz tratamento com metadona há três anos. Só que ela toma outros comprimidos para dor, escondida de seu médico, ou mesmo vai para o pronto-socorro pedir remédio para dor. Às vezes, acho que ela não tem mais dor. Acho que ela finge dor para continuar a se drogar. O que fazer?"

Resposta: Esforços para controlar o uso inadequado de opioides (medicações do tipo metadona, morfina, oxicodona, fentanil, codeína, oximorfona, dolantina) têm sido feitos ao redor do mundo.

Cerca de 22 milhões de pessoas usam opioides, conforme dados da United Nations Office on Drugs and Crime (2010). A metadona, um opioide sintético, é a medicação mais comumente utilizada no tratamento de pacientes com quadros de síndrome de dependência de opioides. Ela é prescrita para aliviar os sintomas da síndrome de abstinência e prevenir recaídas.

De fato, dor crônica é uma situação preocupante para quem tem um quadro de síndrome de dependência de opioides. Os pacientes com dor crônica e síndrome de dependência de opioides mostram uma maior incidência de uso continuado de opioides do que aqueles sem o quadro de dor. Muitas vezes, o paciente portador de dor crônica, que é tratado com medicações opioides, recorre a outras medicações opioides, tanto para acalmar a dor quanto para manejar os sintomas da síndrome de dependência.

Ocorre que o concomitante uso de dois ou mais opioides aumenta o risco de morte prematura, devido à toxicidade, overdose e problemas de condutividade cardíaca. Dado esse quadro nada animador, os portadores de dor crônica que fazem uso de medicações opioides devem receber tratamento intensivo objetivando a melhora da qualidade de vida e evitar o desenvolvimento do quadro de síndrome de dependência.

Lembramos que tanto o quadro de dor crônica quanto o de síndrome de dependência são doenças reais e merecem tratamento especializado. O profissional que prescreve a medicação opioide tem ampla responsabilidade em seguir seu paciente de perto, evitando danos secundários. Como por exemplo, tentando evitar o desenvolvimento da síndrome de dependência, de padrões de uso inadequados de opioides, uso de outras medicações para dor não prescritas, entre outras.

Alguns fatores de risco têm sido aventados para o desenvolvimento da síndrome de dependência de opioides entre portadores de dor crônica tratados com medicações opioides. São eles: antecedentes pessoais e familiares de problemas com o uso de substâncias psicoativas, presença de comorbidades psiquiátricas (ou seja, coexistência de traços específicos de personalidade por exemplo), idade jovem de início da prescrição dentre outras, podem trazer algum grau de alerta. Entretanto, esse "alerta" não significa deixar de tratar adequadamente aquele que padece de dor crônica; muito pelo contrário, o tratamento, se indicado e pautado em evidências científicas de efetividade e segurança terapêutica, deve ser realizado, com equipe bastante especializada e atenta.

Como a dor é uma medida subjetiva, muitos pesquisadores têm envidado esforços para investigar a dor de forma objetiva. Algumas medidas de perfil inflamatório têm mostrado algum sucesso em uma parcela significativa de portadores, mas ainda não dão certeza absoluta. Assim, a equipe que maneja o paciente com dor crônica, em tratamento com medicações opioides, deve ser interdisciplinar, dada a complexidade do tema.

Os profissionais que tratam a sua tia devem receber informações objetivas a respeito da evolução do problema. Infelizmente, para uma parcela pequena, mas existente, dos portadores de dor crônica que usam medicações opioides, comportamentos de risco do tipo "forjar" receitas de opioides, peregrinar de hospital para hospital objetivando angariar medicações, pedir medicações emprestadas para vizinhos ou conhecidos, dizer ao médico que perdeu as receitas etc são comuns. Assim, a equipe deve estar munida de informações para manejar o quadro de forma ética e cientificamente embasada.

Não tenha receio de contar ao médico que trata a sua tia estes fatos preocupantes. O médico especialista deve estar treinado para manejar adequadamente esta situação, respeitando os pilares da ética médica. Boa sorte.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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