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Estudo da USP: Santo Daime pode ser opção para tratar dependentes químicos

Redação Vya Estelar 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

Da Redação


Grupos que agem no centro de São Paulo vem utilizando o ritual-religioso Ayahuasca, mais conhecido como Santo Daime, como terapia de tratamento para a recuperação de moradores de rua dependentes químicos.

A prática foi verificada e analisada pelo psicólogo Bruno Ramos Gomes, em um estudo desenvolvido pela Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

Composto por uma mistura de plantas amazônicas, o chá do Santo Daime é o elemento central de um ritual xamânico herdado da cultura indígena. Após verificar o uso da bebida por diferentes grupos e associações, o psicólogo iniciou em 2009, um acompanhamento das ações da Unidade de Resgate Flor das Águas Padrinho Sebastião, que focava suas ações na recuperação de moradores de rua que faziam uso intenso de álcool e crack. A Unidade filantrópica agiu no centro da cidade, em especial no bairro do Glicério, de 1996 a 2010.

Recuperação pelo chá

O cotidiano e o processo de recuperação de um morador de rua alcoólatra, que havia descoberto há pouco tempo que era soropositivo, foi acompanhado de perto por Gomes. Segundo o psicólogo, os relatos desse morador de rua revelaram que ele estava consciente de que não se curaria do HIV e que a terapia não o iria fazer parar de beber. Mas, ao mesmo tempo, foi graças à terapia que o homem entendeu o que o fazia beber e o que o levou àquela situação. “Cabia a ele, a partir disso, se livrar ou não do uso problemático”.

Para Gomes, esse tipo de relato demonstra que o efeito terapêutico do chá do Santo Daime não é o aspecto principal do tratamento, não podendo ser considerado efetivo de forma isolada, mas, apenas a partir da experiência simbólica dos rituais. “É importante ressaltar que os efeitos da terapia estão menos ligados aos efeitos da substância no organismo. O elemento central dessa modalidade terápica está nos rituais e no elemento religioso e sagrado”, afirma.


De acordo com as experiências relatadas pelos participantes do tratamento, o ritual age na construção de ideais morais de cada pessoa e com isso indica em que sentido cada um deve agir para modificar sua situação.

Esse efeito está diretamente relacionado com a terapia, segundo Gomes. “Os rituais e o ambiente inédito de retiro espiritual em um sítio do interior de São Paulo contribuíram para uma experiência significativa para essas pessoas. Essa experiência foi capaz de as fazer refletir sobre a causa de sua situação e o que fazer para alterá-la”, diz.

Riscos

O estudo no entanto pondera sobre os riscos do uso do chá. “Pouco se conhece sobre as substâncias presentes no chá. Existe o risco de interação medicamentosa. Ou seja, caso o chá seja ingerido por um paciente que se medica com antidepressivos e outros medicamentos, a bebida pode interagir negativamente com esses remédios, mas pouco se conhece sobre isso”, avalia o psicólogo. Além disso, a ingestão do chá implica em fortes náuseas.

Para contornar essas reações e adaptar o organismo à bebida, os grupos submetiam os pacientes a dietas e a um retiro espiritual, em uma área arborizada no interior do estado de São Paulo. Ainda assim, Gomes relata que a ingestão do chá xamânico dependia do aval dos membros da Unidade. “Existia uma relação de confiança entre os moradores de rua e os realizadores do projeto. Por conta disso e por acreditarem que nem todas as pessoas estavam prontas para a terapia, nem sempre todos os pacientes podiam ingerir a bebida”, explica.

O uso ritual-religioso do Santo Daime foi regulamentado no Brasil em 2006. Contudo, seu uso terapêutico necessita de comprovações científicas para constatar a legitimidade e efetividade do tratamento, para que seja permitido de acordo com o estudo.

O trabalho denominado O sentido do uso ritual da ayahuasca em trabalho voltado ao tratamento e recuperação da população em situação de rua em São Paulo, foi orientado pelo professor Rubens de Camargo Ferreira Adorno, da FSP.

Fonte: Agência USP de Notícias




Redação Vya Estelar

Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.



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