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Meu filho é dependente de álcool e soropositivo. O que fazer?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

"Gostaria de saber se ele pode tomar algum medicamento para parar de beber?"

Resposta: O consumo nocivo de bebidas alcoólicas entre portadores do vírus da AIDS (HIV) é bastante comum, sendo que as taxas desse uso chegam a ser duas vezes maiores entre os portadores quando comparadas com a população geral. Infelizmente, o consumo inadequado de bebidas alcoólicas pode complicar certas condições clínicas frequentemente associadas com esta infecção, tais como as hepatites B e C, ou mesmo associadas com o tratamento da infecção, tais como intolerância à glicose e hipertensão arterial. Outrossim, o consumo de bebidas alcoólicas está relacionado com comportamentos sexualmente arriscados, múltiplos parceiros sexuais e uso de outras substâncias psicoativas concomitantemente.

Todos os portadores do vírus da AIDS devem ser questionados sobre o consumo de álcool e de outras drogas, devido à alta coexistência e consequente necessidade de manejo conjunto. Clínicos especializados no tratamento de pacientes portadores de HIV devem estar familiarizados com serviços dedicados ao tratamento de problemas associados com o uso de álcool e de outras drogas, para onde devem encaminhar seus pacientes com consumo problemático.

Psicoterapias e grupos de mútua ajuda (Alcoólicos Anônimos) sempre devem ser contemplados no tratamento para os pacientes com problemas relacionados com o consumo. Medicações comprovadamente eficazes para o tratamento do alcoolismo também constituem importantes ferramentas para esse manejo. Naturalmente, essas medicações devem ser criteriosamente prescritas, tendo em vista as indicações médicas.

Como já detalhado em respostas prévias aqui no Vya Estelar, existem quatro medicações comprovadamente eficazes para o manejo do alcoolismo: acamprosato, naltrexone, naltrexone-depot e dissulfiram. Outras medicações, ainda sob investigação clínica intensiva, têm também sido utilizadas, como: topiramato, ondansetron e baclofeno.

Como os portadores do vírus HIV fazem uso de outras medicações, é importante que o clínico monitorize possíveis interações medicamentosas entre 'as medicações prescritas para conter o avanço da doença infecciosa' e 'as medicações prescritas para o tratamento do alcoolismo'.

O clínico, então, tem cinco importantes papéis:

a) investigar a existência de um problema relacionado com o consumo de bebidas alcoólicas;
b) se existente, avaliar a necessidade do uso de medicação específica para o tratamento do alcoolismo;
c) determinar, a partir do armamentarium (arsenal) médico disponível para o manejo do alcoolismo, qual medicação seria mais apropriadamente recomendada para o paciente em questão, tendo em vista o padrão de consumo, a intensidade da fissura, sintomas de síndrome de abstinência, idade de início dos problemas com o álcool, dentre outros aspectos;
d) avaliar as possíveis interações medicamentosas entre a medicação indicada e as demais medicações utilizadas pelo paciente;
e) monitorizar tanto a eficácia quanto a segurança terapêutica da medicação então prescrita.

Os problemas relacionados ao consumo de bebidas alcoólicas devem ser rigorosamente tratados. Existem indicações precisas para cada uma das medicações comprovadamente eficazes para o seu manejo. Assim, é importante que o paciente seja avaliado por médico especialista no campo das dependências químicas, objetivando determinar a melhor modalidade de tratamento inicial e de manutenção.

Não recomendo, sob quaisquer hipóteses ou pretextos, o uso de quaisquer medicações para essa condição sem uma adequada avaliação e supervisão médica especializada. Desta forma, sugiro que conduza seu filho para uma avaliação e seguimento com médico especialista o quanto antes.

Não perca tempo.

Atenção!

Este texto e esta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um médico e não se caracterizam como sendo um atendimento.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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