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Larguei o esctasy, mas fiquei com uma depressão profunda. Como tratá-la?

Danilo Baltieri 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Danilo Baltieri

"Além da grande depressão de vez em quando tenho dores musculares. Por favor, me dê a melhor indicação para o tratamento."

Resposta: O ecstasy ou MDMA (3,4 Metileno-Dioxi-Metanfetamina) é uma droga sintética estruturalmente similar à Metanfetamina e ao alucinógeno Mescalina. Após o consumo, essa droga produz sensação de aumento de energia, euforia, distorções na percepção do tempo e experiências de alucinação.

Inicialmente, essa droga foi mais popular entre os jovens frequentadores de “raves”; mais recentemente, o perfil do usuário dessa substância tem se ampliado.

Também, é importante considerar que o ecstasy tem sido usado juntamente com outras substâncias, como maconha, cocaína, álcool e outras “club drugs” (ketamina, metanfetaminas). A associação com outras drogas SEMPRE implica em um potencial maior de prejuízo cerebral e comportamental.

O ecstasy exerce primariamente seus efeitos psicoativos em regiões cerebrais produtoras de serotonina, alterando o funcionamento das mesmas de forma intensiva. É amplamente conhecido que o neurotransmissor serotonina tem um papel fundamental na regulação do humor, agressividade, atividade sexual, sono, e sensibilidade à dor.

O ecstasy, dessa forma, pode causar confusão mental, depressão, problemas com o sono, fissura pela droga, e intensa ansiedade. Esses problemas podem ocorrer logo após o consumo da droga ou, às vezes, depois de dias ou semanas. Além disso, os usuários crônicos da droga têm demonstrado pior desempenho cognitivo (atenção e memória) do que grupos de pessoas não usuárias, demonstrando o potencial lesivo da mesma.

Estudos experimentais (envolvendo ratos) têm demonstrado que a exposição ao ecstasy por apenas 4 dias provoca danos funcionais cerebrais por até 7 anos ou mais.

Segundo alguns resultados de pesquisas clínicas, o ecstasy pode causar dependência. Pesquisas envolvendo jovens usuários têm revelado que até 40% daqueles consumidores persistentes da droga preencheram critérios médicos para o diagnóstico de Síndrome de Dependência. Autores têm descrito, inclusive, alguns sintomas claros da Síndrome de Abstinência relacionada com a cessação ou redução abrupta do consumo da substância entre usuários persistentes: fadiga, perda do apetite, sintomas depressivos e problemas de concentração.

É essencial lembrar que o ecstasy pode ser extremamente perigoso e, em certas ocasiões, letal. Os efeitos físicos, como taquicardia e aumento da pressão arterial, bem como hipertermia, sudorese intensa, tensão muscular, visão borrada e confusão mental, em geral são bastante preocupantes e podem culminar em consequências extremamente danosas.

Também é importante ressaltar que, em algumas situações, a pílula ou tablete de ecstasy pode conter também outras substâncias combinadas, como efedrina, cafeína, ketamina, dentre outras. Como ressaltado anteriormente, a combinação de substâncias psicoativas produz consequências ainda mais deletérias ao usuário.

Uma das consequências observadas entre usuários crônicos de ecstasy é o quadro de depressão induzida pelo consumo dessa droga. Humor depressivo, prejuízo na capacidade de concentração e atenção, prejuízos no sono, pensamentos de morte, apatia, falta de interesse em tarefas diárias, são alguns dos sintomas mais observados em indivíduos com quadros de depressão.

Esses quadros precisam ser adequadamente tratados por médicos psiquiatras especialistas. Na verdade, existe tratamento eficaz para esses quadros que deve ser instalado o quanto antes. Também, é importante ressaltar que, de acordo com alguns estudos, nem todas as medicações antidepressivas são eficazes no tratamento da depressão induzida pelo consumo de ecstasy. Dessa forma, você deve consultar um médico especialista, revelar a sua história de consumo de substâncias e não deixar de contar com detalhes toda a sua sintomatologia.

Tendo em vista que o consumo de ecstasy está relacionado com intensas alterações no funcionamento cerebral relacionado com regiões produtoras de serotonina, alguns dos mais comuns antidepressivos podem ser ineficazes.

Dessa forma, um tratamento continuado, baseado em fortes evidências científicas, ser-lhe-á extremamente importante. Quanto mais cedo você procurar um tratamento adequado, melhor será a sua recuperação e a sua qualidade de vida. Portanto, como tenho reiterado seguidamente, não perca tempo!

Abaixo, forneço algumas recomendações para leitura:

Durkin S, Prendergast A, Harkin A. Reduced efficacy of fluoxetine following MDMA ("Ecstasy")-induced serotonin loss in rats. Prog Neuropsychopharmacol Biol Psychiatry 2008;32(8):1894-901.

Rogers G, Elston J, Garside R, Roome C, Taylor R, Younger P, et al. The harmful health effects of recreational ecstasy: a systematic review of observational evidence. Health Technol Assess 2009;13(6):iii-iv, ix-xii, 1-315.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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