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Por que a medicina hoje 'fala' pela mulher

Redação Vya Estelar 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Papéis de homens e mulheres são discutidos reescrevendo as relações de gênero

por Dr. Joel Rennó Jr.

As mulheres vêm conquistado aos poucos direitos e deveres sociais que precisam ser preservados. O movimento de mulheres em causa própria é antigo.

Inicialmente foi silencioso e sutil. As formas de abordagem da condição feminina têm variado no tempo e no espaço. Deve-se ressaltar ainda que muitas vezes a história das mulheres foi marcada por tragédias.

No século XIX, em 8 de março de 1857, cerca de 129 mulheres morreram queimadas dentro de uma fábrica em Nova Yorque, porque reivindicavam condições dignas de trabalho. São fatos marcantes para a história das mulheres no ocidente. Em 1910 foi criado o 'Dia Internacional da Mulher' em memória dessas 129 operárias assassinadas por patrões de uma indústria têxtil.

Já agora, século XXI, Código Civil brasileiro renovado, a condição jurídica da mulher está menos discriminatória. Mas há ainda muito o que avançar para a garantia da democracia paritária.

No momento, a preocupação maior é em relação à violência contra a mulher, inclusive a doméstica.

Nas últimas décadas do século passado, as mulheres reivindicaram seu espaço, inclusive contestando o modelo dominante da velha teoria da evolução humana centrada no sexo masculino.

Homem X mulher

Diferenças existem do ponto de vista físico entre os corpos de mulheres e homens no que se refere, entre outros aspectos, à formação do cérebro, características do sangue (número de glóbulos vermelhos) e aparência (altura, peso, músculos, etc). As diferenças cumprem função essencial em relação ao progresso que se realiza em uma determinada existência.

Tais diferenças não podem ser utilizadas para práticas que ainda se observam particularmente, no Oriente, África e até em comunidades muçulmanas no Canadá, EUA e outros países que, através de vários mecanismos, fazem a mutilação do órgão sexual feminino por extirpação parcial ou total. Os processos de mutilação à margem da lei, com inexistência de anestésicos e utilização de tampas de latas, canivetes, etc... levam a infecções e óbitos de grande número de mulheres em todo o mundo. Em países como a China, os controles de natalidade levam ao aborto de bebês do sexo feminino e até ao infanticídio de crianças do mesmo sexo em virtude da ênfase cultural ao filho do sexo masculino.

No Brasil, embora a constituição federal estabeleça que "homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações" tal igualdade não se verifica na prática, devido à cultura machista predominante, inclusive nas próprias instituições que devem aplicar a lei.

No país onde temos uma verdadeira superlegião de pessoas que vivem na miséria, encontramos, infelizmente, poucas mulheres empregadas com os registros exigidos por lei que lhes garantam os direitos inerentes à relação de emprego. A mulher ganha, em média, 2/3 do salário pago ao homem na mesma função. Os homens detêm 70% da renda nacional e as mulheres apenas 30% da mesma renda.

Verifica-se a grande luta desenvolvida pelas mulheres pelos direitos essenciais do ser humano, que devem se adequar às leis naturais com a conseqüente igualdade e fraternidade.

A mulher, na atualidade, tem acesso à vida profissional, porém, embora contribua com o orçamento familiar, ainda se exige que continue obediente ao marido.

Entretanto neste momento, cada vez mais se observam os movimentos para reconhecimento da igualdade, guardadas as diferenças óbvias entre os sexos. Os homens enfrentam uma nova fase que exige adaptações e concessões que, na maioria das vezes, não se encontram preparados para fazer, gerando conflitos, principalmente no âmbito da família. Visões diferentes da vida e também do casamento agravam os conflitos sendo que na atualidade, tais conflitos geram vários casos de separação os quais são, na maioria das vezes, promovidos por iniciativa das mulheres.

Atualmente, neste tempo de efervescência cultural, as noções e os conceitos sobre saúde-doença proliferam. E foi no século XIX que se constituiu uma medicina voltada para o controle do meio social e da coletividade, fazendo parte de uma tecnologia disciplinar. Essa medicina surgiu como dispositivo regulador biopolítico, com o objetivo de gerir a vida social, por um projeto de normalização e de controle social dos corpos. Com a apropriação dos discursos médicos, surge a proposta de uma medicina social voltada para atuar no controle dos contágios de doenças e de vários transtornos.

Com isso, cria-se uma medicina que faz intervenção no meio social, visando a um controle permanente da vida social coletiva, regulando todos os elementos que possam determinar uma deterioração da saúde da coletividade. Nesse contexto, a higiene no interior das famílias instaura uma nova subjetividade através de uma política de intervenção-regulação nos corpos, atuando nos costumes dos hábitos familiares, visando a reorganização dessas relações familiares, objetivando uma reestruturação desses corpos na sociedade.

Por que a medicina hoje 'fala' pela mulher

Os papéis sociais de homens e mulheres são discutidos reescrevendo as relações de gênero. A higiene inaugura um novo discurso sobre a condição feminina, visando à prevenção da vida e da saúde social.

Nesse momento, esse novo discurso visa tornar a mulher uma das estratégias do projeto médico como um de seus objetos privilegiados, submetida a uma vigilância necessária para torná-la capaz de desempenhar da melhor maneira o seu papel profissional e organizar sua vida pessoal.

Sendo assim, o estudo da condição feminina, nessa época determinada, é considerado um dos pontos fundamentais da perspectiva médico-higiênica.

Dessa forma, tenta-se justificar o novo lugar dado à mulher na estrutura familiar, justificado pela medicina, recolocando a mulher em uma nova forma de relação de dominação através do discurso higiênico. Assim, a medicina agora fala pela mulher e diz como ela é e de que forma ela deve viver.

Então, a medicina possuía uma tendência ao adotar comportamentos e estilo de vida para a mulher, fixando-a nesse modelo criado, dentro de seu discurso higienista já estabelecido e que demonstra uma clara perspectiva de manter a mulher em um determinado lugar social, transformando o desejo feminino em uma necessidade conjugal.

O uso de contraceptivos orais, por exemplo, é um marco social significativo. Aqui, as mulheres tiveram mais liberdade para exercer a sua sexualidade em busca do prazer, sem uma preocupação excessiva com gravidez, ou mesmo com a visão restrita a um papel de mulher procriadora. Foi fundamental para que a mulher pudesse ter mais autonomia para escolher o momento apropriado e conveniente de ser mãe, sem traumas ou culpas.

Então, construindo um discurso sobre a condição feminina, a medicina delega à mulher uma nova importância dentro do modelo familiar, atribuindo a essa perspectiva um aspecto científico. Apesar de persistir na perspectiva da higiene coletiva, passa a promover a saúde, tentando produzir indivíduos, física e moralmente adequados, a um determinado projeto social pela promoção de um novo corpo social em que a medicina vai se propor a programar também os indivíduos.

Sendo assim a preocupação com a mulher se exacerba, e os trabalhos voltados para seus problemas se modificam. Logo, toda essa mudança no comportamento feminino aparece como uma grande ameaça ao ideal de maternagem, onde a nova mulher é revestida com novas formas de vida.

Nesse momento, os discursos médicos aprofundam os estudos sobre a mulher e sua natureza feminina. Partindo daí, os textos médicos mudam seus discursos e constróem um novo tipo de saber sobre a mulher. Muito cuidado e bom senso deve nortear todos os pesquisadores envolvidos. Comparando-a com o homem, utilizando-se de estudos antropológicos, a medicina precisa se precaver para não reafirmar a idéia de inferioridade feminina, dando-lhe agora novas cores, já que transforma a diferença entre os sexos em sinal de anomalia da mulher.

É essa ideia de uma constituição feminina de base degenerada que vai nortear todo o projeto médico de intervenção junto à mulher, caso não haja uma reflexão aprofundada e crítica por parte de todo o corpo social. Por outro lado, esse tipo de visão possui uma grande força e aspectos vantajosos para a estratégia médica. Ou seja, criar atendimentos cada vez mais especializados, que ao mesmo tempo ajudam a fixá-la em um determinado papel, que respeita a visão histórica, humana e ética da mulher na sociedade atual.




Redação Vya Estelar

Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.



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