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É possível fazer distinção entre mau humor e distimia?

Joel Rennó Jr. 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Tratamento: combinação de psicoterapia mais medicação é muito positiva

por Joel Rennó Jr.

"Gostaria de saber como se faz para diferenciar o que faz parte do temperamento da pessoa e o que é patológico. É possível uma pessoa ter o seguinte perfil: ser insegura, medrosa, ansiosa, ter dificuldade em tomar decisões, ser facilmente irritável, não sentir vontade de fazer quase nada, etc, e não estar com depressão ou distimia?"

Resposta: Ninguém tem todos esses sintomas e todos esses traços de personalidade. É importante avaliarmos sempre o nível de prejuízo sóciofuncional da pessoa (com prejuízo no trabalho e família), além do sofrimento gerado. Muitos distímicos se esforçam para vencer as dificuldades de relacionamento e serem mais sociáveis.

Eles geralmente são mal julgados, porque o comportamento é causado por uma doença, mas as pessoas não sabem disso. O mundo incompreensivo pode determinar o maior isolamento do distímico. Estima-se, em média, uma incidência de 4% de distimia (de acordo com o estudo epidemiológico e critérios adotados). As mulheres costumam ser 2,5 a 3,0 vezes mais acometidas que os homens.

Diferença entre distimia e depressão

Uma das diferenças com relação à depressão - clique aqui e leia - é que esta vem com sintomas mais fortes e delimitados. A distimia é um subtipo depressivo crônico que costuma aparecer já na adolescência ou mesmo na infância. Deve ter duração de no mínimo dois anos, as pessoas relatam estar “empurrando a vida com a barriga”, desmotivadas e muito mal humoradas. Antigamente, eram os populares “rabujentos” que ficavam, infelizmente, isolados e sem um tratamento médico correto.

O termo distimia substituiu outros como "neurose depressiva", "depressão neurótica", "neurastenia", "melancolia", "Transtorno Depressivo de Personalidade". Só na década de 80, é que o renomado psiquiatra americano Akiskal conseguiu classificar este tipo depressivo.

A pessoa distímica passa a vida sendo prejulgada como alguém de baixo astral, melancólica, que só enxerga o mundo pelo lado negativo. Muitas vezes são pessoas que na infância e na adolescência eram melancólicas, "profundas", isoladas, “pavio curto”, “céticas”, “cricas”. Costumam ter uma autocrítica exacerbada e também tendem a ser perfeccionistas. Sofrem muito quando erram ou se comparam a terceiros.

O termo “depressão dupla” é utilizado quando ocorre a sobreposição de um episódio depressivo maior ao quadro clínico de distimia.

Como todo transtorno mental, pode haver comorbidades, ou seja, associações com outros transtornos mentais -  principalmente nas mulheres. Os principais são transtorno do pânico, ansiedade generalizada, fobias, TPM, etc...

A distimia, assim como também outros transtornos mentais, é causada por um conjunto de fatores (sempre reitero isso a todos vocês leitores do Vya Estelar):

Causas da distimia:

- Relações familiares complicadas na infância
- Genética familiar para distimia ou para depressão.
- Separação traumática dos pais ou pais agressivos ou distantes, pouco afetivos
- Situações cotidianas que levem ao estresse crônico, persistente.
- Idosos, principalmente, costumam ter distimia quando apresentam prejuízos da autonomia funcional, por exemplo, surdez, limitações físicas etc.

Distímicos vêm aos consultórios com grande resistência aos medicamentos, alguns descrevem que compareceram à consulta “só para mostrar aos familiares que a personalidade deles é assim mesmo”. Sentem-se incompreendidos pelo mundo.

A psicoterapia é importante, principalmente a cognitivo-comportamental, familiar sistêmica e interpessoal. Ela não tem a mesma potência dos antidepressivos, porém, ajuda muito a melhorar os relacionamentos e a maneira da pessoa reagir aos acontecimentos vitais.

Por isso, a combinação de psicoterapia mais medicação é muito positiva.

Repito, o tratamento deve ser realizado por psiquiatras e psicólogos. O subtratamento é comum, piora o curso com os riscos inerentes decorrentes.

DICA DE LEITURA: Distimia: Do Mau Humor ao Mal do Humor. Editora Artmed. Dr Táki A Cordás (USP) e Dr Antônio Egídio Nardi (UFRJ).

Atenção!
As respostas do profissional desta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um profissional de psiquiatria e não se caracterizam como sendo um atendimento




Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br



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