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Encontro presencial pode nos conectar com o nosso eu

Fátima Fontes 01/01/2016 PSICOLOGIA
Nunca estivemos tão perto e tão longe uns dos outros

por Fátima Fontes

“Quem sou eu? e, mais importante ainda, a permanente credibilidade da resposta que lhe possa ser dada, qualquer que seja – não pode ser constituída senão por referência aos vínculos que conectam o eu a outras pessoas e ao pressuposto de que tais vínculos são fidedignos e gozam de estabilidade com o passar do tempo. Precisamos de relacionamentos aos quais possamos servir para alguma coisa, relacionamentos aos quais possamos referir-nos no intuito de definirmos a nós mesmos”
(Zygmunt Bauman )

Quando fui convidada a participar do site Vya Estelar, combinei com o editor que conversaríamos sobre o enorme desafio nos tempos atuais de qualificarmos nossos vínculos, já que vivemos, como nunca, tempos em que a cada dia “estamos perdendo a capacidade de estabelecer interações espontâneas com pessoas reais”, como nos adverte o sociólogo Zygmunt Bauman.

Nunca estivemos tão perto e tão longe uns dos outros. Em redes sociais, mobilizamos pessoas e nos conectamos como nunca o fizemos na história da humanidade. Porém, temos acompanhado ao ocaso das relações reais, vivemos um tempo de vazio existencial, uma era do vazio, onde tiramos fotos compulsivamente e as postamos para nos mostrar em tempo real; contamos em larga escala, para meio mundo o que pensamos, o que comemos, onde estivemos com quem falamos, num frenesi exibicionista que nada tem de consistente, nem valorativo relacional.

Então, vamos avançar nessa reflexão buscando estabelecer uma marca outra: a do encontro humano, onde podemos ser capazes de vivermos “um encontro de dois: olhos nos olhos, face a face. E quando estiveres perto, arrancar-te-ei os olhos e colocá-los-ei no lugar dos meus. E arrancarei meus olhos para colocá-los no lugar dos teus; então ver-te-ei com os teus olhos e tu ver-me-ás com os meus”, tal como nos foi proposto por Jacob Lévy Moreno , o criador do Psicodrama.

Era uma vez... uma mulher que não queria morrer apesar de sua doença grave

Era o verão de 2006, estava viajando para passar alguns dias de absoluto repouso de alma na encantadora Ilha de Itamaracá, situada no litoral norte de Pernambuco.

Ao chegar à cidade de Recife, minha cidade natal, fui convidada a conhecer e acolher uma pessoa em um estado comprometido de saúde: ela era portadora de um câncer de pulmão em estado muito avançado da doença, e era esposa do chefe do meu irmão, a quem eu nunca vira antes.

Essa pernambucana guerreira me ajudou muito mais que eu a ela: deu-me o privilégio de confirmar o valor da vida e de que “ninguém quer a morte”, como cantou Gonzaguinha. A força que ela fazia a cada amanhecer para manter batendo seu coração, grande bomba-mestra de nossa engrenagem orgânica era louvável e invejável e assim ela mantinha cotidianamente o “sopro da vida”.

Quanta vida e força emanavam dessa mulher, uma grande Maria Maria que “misturava dor e alegria” e que me ensinou em nosso único encontro que “é preciso ter força, é preciso ter graça, é preciso ter gana sempre, pois quem traz no peito essa marca Maria, possui a estranha mania de ter fé na vida”, como nos asseverou Milton Nascimento.

Nesse único encontro, pois ela morreu dois meses depois, trocamos afetos: no sentido dado aos afetos pelo filósofo do século XVII Baruck Espinosa: nossos corpos se afetaram mutuamente e sentimos que nossa “alegria” de viver cresceu a partir desse encontro, servindo-nos de força potencializadora de nossas ações.

Recebi de meu irmão a gratidão dessa família, pois segundo relatos do marido e filho, os dois últimos meses de vida dessa pessoa estavam diferentes, desde nosso encontro com ela: ela tinha mais alegria a cada manhã.

E em mim, seis anos depois, ainda muito me emociona pensar nesse e em outros bons encontros que alimentam minha vida, que me tornam a cada dia mais próxima à pessoa que desejo ser.

Conclusão

Desejo com esse breve compartilhar humano, ter estimulado os leitores a se encontrarem mais uns com os outros, somente assim teremos nossa identidade humana adornada de valores que dignificam e dão sentido à vida, como o amor e a compaixão, valores que se tornaram fora de moda em nossos superficiais e frágeis relacionamentos atuais, sobretudo os virtuais.
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Zygmunt Bauman, Identidade: entrevista a Benedetto Vecchi. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 2005.
J. L. Moreno, Psicodrama. São Paulo: Editora Cultrix Ltda., 1978.




Fátima Fontes

Fatima Fontes, Psicóloga Clínica pela UFPE, Especialista em Psicodrama e Terapia Familiar; Mestre em Psicologia Social PUC/SP; Doutora em Serviço Social PUC/SP, com Estágio de Estudos de Doutoramento no Centre Edgar Morin, Paris, Doutora em Psicologia Social, USP. Pesquisadora do Laboratório de Psicologia Social da Religião- PsiRel USP. Professora de Pós-Graduação e Coautora e Co-organizadora de vários livros: Ex: Religiosidade e Psicoterapia, Editora Roca 2008



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