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Grande escritores são imaturos ao escrever sobre o amor

Tatiana Ades 01/01/2016 PSICOLOGIA
Ser ingênuo perante o amor é a grande armadilha da vida

por Tatiana Ades

As famosas frases de amor que nos deixam extasiados e nos fazem compartilhar sorrisos e mensagens em redes sociais podem ser belas, mas muitas vezes não trazem veracidade no que dizem.

Vamos observar alguns exemplos e desmistificá-los, pois o belo nem sempre significa o correto.

"Ah o amor... que nasce não sei onde, vem não sei como e dói não sei por quê"
Luís de Camões

Nessa citação de Camões já podemos observar um tipo de amor que surge repentinamente e faz doer, estamos aqui então falando de uma possível paixão e não de um amor maduro.

Sim, é a paixão que nos pega desprevenidos, que nos deixa sem rumo e um tanto "tontos".

O amor saudável e maduro não dói e surge exatamente de um ponto, atravessa uma difícil ponte e deságua na paz e na tranquilidade. Amar não dói, amar cura-nos da dor.

"Aprendi que não posso exigir o amor de ninguém...
Posso apenas dar boas razões para que gostem de mim...
E ter paciência para que a vida faça o resto..."
William Shakespeare

A frase é bonita e causa impacto, mas será que devemos esperar sentados pelo amor?

Não! O amor deve ser construído e essa construção exige ação, investimento em quem gostamos (ceder e receber). O amor não é preguiçoso, ele exige que exista esforço para que o outro e nós mesmos consigamos sustentar um amor por toda uma vida. Para isso, é preciso muita coragem e luta. O amor não acontece por acaso apenas por que somos legais com a vida.

"Porque quem ama nunca sabe o que ama
Nem sabe por que ama, nem o que é amar
Amar é a eterna inocência,
E a única inocência, não pensar..."
Fernando Pessoa

Nessa citação de Fernando Pessoa podemos observar a falta de consciência do que amamos, daquilo que amamos e a inocência de deixar-se ir pelo amor.

Mais uma vez podemos perceber um amor imaturo, onde a ingenuidade deixa que nós não observemos o outro com cautela; o que esse outro ser realmente representa para nós, o que ele pode somar, quem esse outro é de verdade e como ele pode ser amado por mim, já que preciso me amar o todo tempo.

Esse outro ser merece o meu amor?

Esse outro me acrescenta e soma de forma positiva em minha vida?

Estou idealizando essa pessoa ou ela é dessa forma mesmo?

Ser ingênuo perante o amor é a grande armadilha da vida. Deixar-se levar pelo amor desconhecido, mostra falta de conhecimento sobre nós mesmos, falta de autoestima e estímulos concretos e positivos daquilo que queremos para sermos mais felizes.

Podemos ainda prosseguir com esse pensamento na citação de Carlos Drummond de Andrade:

"O ser busca o outro ser, e ao conhecê-lo
acha a razão de ser, já dividido.
São dois em um: amor, sublime selo
que à vida imprime cor, graça e sentido"

Vejam como aqui o ser encontra a outra parte da laranja e não outro ser completo para que juntos caminhem e construam esse amor.

O importante em toda literatura, filme, livro, etc. é reconhecer a beleza da poesia, sem realmente aplicar isso na vida real.

É preciso amar com os pés no chão e a mente sã. Só assim alcançaremos a plenitude e a beleza do amor incondicional




Tatiana Ades

É psicanalista e escritora e teatróloga. Em seus livros, o foco de estudo é o comportamento humano e o amor patológico. Tem em seu currículo várias peças escritas e encenadas nos teatros de São Paulo, além de ter concorrido ao prêmio Shell de melhor texto teatral com Os Viúvos – Teatro Ruth Escobar (2003). Como escritora, em 1998, ganhou um concurso com o conto O silêncio da raposa. Eles são o resultado de uma pesquisa de três anos: Hades – Homens que amam demais e As escravas de Eros.



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