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Boa parte dos perfis expostos nas redes sociais não é real, mas idealizado

Patricia Gebrim 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Nas redes sociais precisamos diferenciar o que é realidade e fantasia

por Patricia Gebrim

Você sabe utilizar as redes sociais de forma saudável?

Hoje, cada vez mais, vivemos expostos, queiramos ou não. Quando optamos por nos integrar a uma rede social, a exposição aumenta ainda mais.

Nossa vida repousa indefesa nessa vitrine virtual que se expande cada vez mais e a assustadora verdade é que não estamos sabendo como lidar com isso. No nosso anseio por obter a aceitação das outras pessoas, como em um baile de carnaval, criamos máscaras e são essas máscaras o que apresentamos ao público. Se somos tímidos, criamos um personagem extrovertido e nos mostramos extremamente abertos e sociáveis. Se nos sentimos feios, tiramos 3000 fotos e postamos a melhor delas em nosso perfil, ostentando um sorriso digno dos galãs de cinema. Pouco importa se mal nos reconhecem naquela foto, afinal a maior parte de nossos amigos nas redes sociais não são mesmo pessoas com as quais convivemos na vida real! Sem nos dar conta, criamos falsas imagens de nós mesmos e as apresentamos aos outros como se fossem verdadeiras.

Perceba, não existe objetividade no mundo das redes sociais. O mundo virtual é um terreno fértil para projeções e idealizações. Vemos aquela pequena foto pulsando na tela, lemos algumas poucas frases publicadas por alguém e ficamos livres para imaginar e criar o outro de acordo com nosso desejo.

A verdade é que as redes sociais, quando utilizadas sem consciência, podem se tornar perigosas máquinas de inventar pessoas. Cada pessoa com a qual nos relacionamos na superficialidade de informações das redes sociais, é como uma tela em branco onde projetamos a nós mesmos. Se não prestarmos atenção, acabamos hipnotizados por nossa própria criação, aprisionados, tal como acontece nos estados regidos pela paixão.

Como a paixão, o mundo virtual é fortemente atraente, dotado de uma intensidade arrebatadora. Nos vende a ilusão de uma vida leve, descontraída, feita só de momentos bons. Um mundo perfeito onde não existem problemas.

Como acontece com o uso do fotoshop, as redes sociais editam nossas vidas de forma a excluir delas tudo o que poderia parecer incômodo ou imperfeito.

Imaginem agora o que acontece quando comparamos as pessoas com as quais convivemos no dia a dia aos personagens mágicos de contos de fadas que passeiam pela tela de nosso computador naquelas pequenas fotos sempre sorridentes.

- Como a realidade (feita de luz e sombra, belo e feio, alegrias e tristezas) poderia competir com a pureza magnânima e irretocável das imagens projetadas nas redes sociais?

- Como as pessoas verdadeiras e imperfeitas, feitas de carne e osso, poderiam competir com aquela gente que nunca tem problemas, espinhas na cara ou ataques de mau humor?

Claro que a realidade sairá perdendo.

A não ser que tenhamos consciência para avaliar todas essas questões, sabedoria para nos lembrar de que imagens nem sempre refletem a realidade e a coragem de escolher a realidade à fantasia; a realidade não terá chance alguma.

Pessoas reais estão longe de atingir a perfeição exibida nos perfis de nossos amigos virtuais. Pessoas reais sentem dores, sentem medo, são inseguras às vezes, ficam bravas, cometem erros, acordam tristes de vez em quando, com a cara inchada, com aquelas bolsas roxas horrendas sob os olhos e os cabelos parecendo palha seca de vassoura, coisas que nunca encontraremos nas fotos encantadoras e joviais de nossos amigos virtuais sempre impecáveis.

Pessoas reais exigem de nós o aprofundamento das relações, nos desafiam, nos decepcionam às vezes, mesmo quando nos amam. Pessoas reais nos dão trabalho, e mais, fazem com que a gente dê de cara com a nossa própria sombra. Pessoas reais revelam nossos defeitos e exigem muto mais de nós. Quando nos cansamos de um amigo vitual, basta desligar o computador. Na vida real não é assim.

No entanto, pessoas reais também são capazes de gestos grandiosos, de atitudes lindas e surpreendentes, nos pegam no colo quando mais precisamos, nos embalam, nos abraçam, ficam ao nosso lado mesmo quando o desespero salta na forma de lágrimas de nossos olhos inchados. Pessoas reais são capazes de ir além, de aceitar não só nossa beleza e nossas virtudes... Isso é fácil. Pessoas reais são capazes de nos aceitar mesmo quando nos sabem cheios de defeitos. Isso definitivamente não é nada fácil!

Pessoas reais são aquelas que têm a coragem de olhar na parte mais funda de nossos olhos sem medo do que possam vir a encontrar. Pessoas reais nos tocam a alma e nos fazem crescer, coisas que a superficialidade virtual nunca será capaz de oferecer.

Ouça ... Só pessoas reais podem amar.

Assim, sejamos conscientes em nossas escolhas. Não me entendam mal. Não há mal algum em brincar nesse mundo virtual, trocar com nossos amigos, reencontrar pessoas, fazer novas amizades (também é possível!); enfim, utilizar o que as redes sociais têm de bom a nos oferecer. Existe até mesmo a possibilidade de uma amizade virtual escapar das prisões da fantasia e se tornar uma amizade real, daquelas amizades especiais que guardamos em nossa sala de tesouros ...

No entanto, para lidar de forma saudável com esse mundo virtual das redes sociais é necessário que, tal como deveria acontecer por volta dos sete anos de idade, saibamos diferenciar realidade de fantasia.




Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento



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