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Graus de profundidade: a linguagem do inefável

Monica Aiub 01/01/2016 AUTOCONHECIMENTO
Se alguém lhe diz: Amo você! O que é esse amor?

por Monica Aiub

Já ocorreu de você desejar dizer algo e não encontrar palavras? Você já tentou expressar um pensamento ou sentimento, considerou fazê-lo da forma mais clara possível, mas seu interlocutor não acompanhou a profundidade de sua expressão? Já foi mal interpretado? Superficialmente interpretado? Já disse sem dizer, ou tentou dizer e não conseguiu expressar?

O problema pode ser a forma de expressão, como apontado no artigo anterior (clique aqui), mas também pode ser o caso de diferentes graus de profundidade da existência. O que quero dizer com isso? Que nossa fala pode conter vários níveis diferentes. Isso pode se revelar por metáforas corretamente interpretadas, ou incorretamente interpretadas; mas também é possível que as sutilezas da linguagem passem despercebidas pela maior parte de nossos interlocutores. Outros poderão compreender a que se referem nossas expressões, nossas palavras, mas talvez não compreendam o alcance delas.

John Searle, em Expressão e Significado, pergunta: por que dizemos S é P, quando queremos significar S é R? E mais, como é possível que o ouvinte ouça S é P e compreenda S é R? Seu questionamento aborda, principalmente, “Como funcionam as emissões metafóricas, isto é, como é possível para os falantes comunicarem algo aos ouvintes falando metaforicamente, uma vez que não dizem o que querem significar? E por que algumas metáforas funcionam e outras não?” (SEARLE, 2002: 122).

Metáforas e significados

Muitas são as teorias sobre a metáfora, e Searle examina algumas delas. Apresenta-nos um mesmo processo de significação de metáforas e associações de idéias. Se conseguimos nos entender minimamente, isso ocorre porque partilhamos um mesmo universo lingüístico, construído a partir de referências próximas. Pensamos, muitas vezes, que os equívocos somente ocorrem quando escolhemos mal nossas metáforas, ou quando o outro não as compreende por desconhecimento do universo no qual elas foram construídas. Buscamos significados literais.

Searle desconstrói essa idéia, mostrando-nos que há muitas crenças subjacentes àquilo que consideramos literal. Fazendo uso de um clichê filosófico – “O gato está sobre o capacho” – ele tenta imaginar diferentes situações, algumas extremamente inusitadas, de um “gato sobre o capacho”. Questiona os fundamentos de nossas crenças óbvias ao emitirmos certos enunciados. E, de fato, não pensamos na lei da gravidade quando afirmamos que “O gato está sobre o capacho”, mas a compreensão do enunciado supõe a crença na gravidade.

Poderíamos radicalizar, de um lado, e afirmar que qualquer compreensão do discurso de um falante é impossível. Contudo, isso contradiz o que ocorre diariamente. Você, leitor, ao ler esse texto, compreende, minimamente, o que quero dizer. Ao dar uma ordem, fazer um pedido, emitir uma opinião, consegue, minimamente, se expressar, se fazer entender. De outro lado, não menos radical, poderíamos considerar que qualquer discurso, dadas as regras lógico-gramaticais, é plenamente compreensível. Será?

Interpretação

Muitos filósofos abordaram as questões da linguagem, em especial, a questão do significado. O que faz com que, ao ler determinada palavra nesse texto, você pense em algo? E por que outra pessoa pode pensar em algo completamente diferente de você ao ler a mesma palavra? Como posso garantir a mim mesma que, escrevendo este texto, conseguirei transmitir exatamente o que pretendo a você? Como você se certificará de que o que compreendeu foi o que eu pensei ao escrever?

Poderíamos responder que há uma lógica, que há uma gramática, que há uma estrutura do pensar à qual a fala e a escrita correspondem; acrescentaríamos que essa estrutura corresponde ao mundo e que, quando falamos, falamos do mundo. Assim, quando, como no exemplo de Searle, dizemos que “Sally é um bloco de gelo”, queremos dizer que ela é fria como um bloco de gelo. Há, subjacente à afirmação, a identificação de gelo com frio, e no mundo, essa identificação encontra correspondência. Mas há, também, um significado atribuído a frio, que não é exatamente o mesmo para a frieza do bloco de gelo e para a frieza de Sally.

Wittgenstein, no livro Investigações Filosóficas, apresenta a linguagem como um jogo, e afirma que as palavras ganham seus significados no uso. Para que possamos compreender o significado da expressão de um falante, precisamos contextualizar tal expressão. Uma afirmação solta pode ser interpretada das mais diferentes maneiras. Mas inserida em seu contexto, tal afirmação ganha um significado próprio.

Contexto, texto e tecido

O contexto é mais amplo do que aquilo que está ao redor. Pense num texto como um tecido, uma tessitura. São muitos os fios entrelaçados, formando a trama de um tecido. Imagine cada fio como um elemento de contexto. Se recortarmos um pedaço do tecido, vários fios serão cortados. Agora imagine que cada fio desses é um elemento de sua história de vida, e tornou-se “fio” ao ser significado por você. Para explicar ao outro o que você quer dizer com sua fala, precisaria, muitas vezes, buscar a origem de cada um desses fios que compõem a trama de seu tecido.

Cada fio, com sua história e origem, deixaria a conversa excessivamente longa, porque cada história puxa a outra. Assim, não seria possível contar tudo ao interlocutor. Mas como ele partilha, muitas vezes, o mesmo mundo que você, então fica um pouco mais fácil, porque é possível nos referirmos aos mesmos elementos do mundo vivido.

Frege, no texto Lógica e Filosofia da Linguagem, nos provoca a pensar nas diferentes formas de olhar um mesmo objeto no mundo. Como um artista, um historiador e um zoólogo veriam Bucéfalo – o cavalo de Alexandre Magno? Como diferentes pessoas, com diferentes histórias, significam os mesmos objetos no mundo? Aqui já encontramos sérias dificuldades na compreensão.

Linguagem: espelho do mundo

Segundo Frege, a estrutura da linguagem espelha a estrutura do mundo. Então deveríamos nos debruçar sobre a estrutura lógica dos discursos para que pudéssemos nos aproximar de uma clareza lingüística. Ele se refere, é claro, ao discurso da ciência, que precisa, necessariamente, de exatidão. Não é seu objetivo lidar com o discurso cotidiano. Daí as distinções feitas entre uma filosofia da linguagem ideal – que trata das estruturas lingüísticas como um espelho do mundo e destina-se à construção de uma linguagem clara e distinta, necessária à ciência; e uma filosofia da linguagem ordinária, que traz a análise da linguagem para os contextos e abarca a linguagem cotidiana.

Voltando aos contextos propostos por Wittgenstein, como garantir que o outro esteja significando os termos da mesma maneira que nós significamos? Não há garantias, há construção de significados nos jogos de linguagem. E para evitar o mal entendido, o melhor caminho é perguntar ao outro pelo significado de suas expressões. Ao fazer isso de maneira incansável, até que possamos nos aproximar ao máximo do que o outro nos apresenta.

Tratando-se de elementos “objetivos” do mundo, já há um grau de complexidade. Imagine que você aponta para um livro e diz: veja isto! Para o que aponta? Para o formato? Para o tamanho? Para a cor da capa? Para o título? Para o autor? Para o conteúdo? – e poderíamos elencar outras tantas questões. Mais que isso: aponte para a cor azul da capa do livro. Veja este azul! Há alguma garantia de que o azul que você vê é o mesmo azul que seu interlocutor vê?

Em se tratando de questões “subjetivas” – crenças, sentimentos, desejos, sonhos, etc. – a complexidade aumenta. Como saber acerca da dor do outro? Ainda que comparemos a minha dor de dente à sua dor de dente? Como saber sobre os sentimentos do outro? Se alguém lhe diz: Amo você! O que isso significa? O que é esse amor? Qual a natureza e a intensidade desse amor? Se alguém diz: não estou suportando, está pesado demais! – referindo-se à circunstância vivida – , como avaliar esse peso existencial?

Muitas vezes dizemos algo a alguém na expectativa de que esse alguém nos compreenda, nos chacoalhe, nos repreenda, nos acolha, nos acalente... Como o outro pode significar nossa fala e interpretá-la corretamente, oferecendo a nós aquilo que necessitamos naquele momento?

Se falamos a alguém que conhece nossa linguagem, que sabe que quando nos dizemos desesperados precisamos de uma bronca para colocar ordem nas idéias, nos sentimentos e resolver o problema; que quando nos dizemos cansados e tristes, queremos colo; que quando nos dizemos enfurecidos, buscamos repreensão, é mais fácil sermos compreendidos. Contudo, não há uma regra, uma norma, uma lógica capaz de estabelecer o que queremos dizer quando dizemos algo. Isso varia de pessoa para pessoa, de relação para relação, de contexto para contexto.

Ou seja, uma mesma pessoa, em relações diferentes, pode fazer uso de termos diferentes para referir-se ao mesmo objeto. Mas essa mesma pessoa, numa mesma relação, em contextos diferentes, pode fazer uso de linguagens diferentes.

É fundamental perguntar: "O que você quer dizer com isso?"

Assim, para pessoas que não conhecem nosso jogo de linguagem, nem estão dispostas a conhecer, precisamos ser muito didáticos para nos fazermos compreender. Podemos também expressar e gerar grandes equívocos ou, simplesmente, não sermos compreendidos no alcance que buscávamos.
Quantos equívocos, quanto sofrimento, quantos desentendimentos poderiam ser evitados se tivéssemos o cuidado de perguntar ao outro “o que você quer dizer com isso?” antes de tirarmos nossas próprias conclusões acerca do significado daquilo que foi expresso!

Por outro lado, às vezes, por mais que perguntemos, não possuímos alcance, porque não conhecemos a dimensão daquilo que nos é dito. Podemos interpretar equivocadamente, simplesmente por não termos vivências, experiências, sonhos, sentimentos, dores ou abertura suficientes para compreender a dimensão do que nos chega.

Pode também ocorrer de dirigirmos nosso discurso, com os conteúdos mais profundos que habitam em nós, para alguém que não tenha a possibilidade de nos compreender. Isso não significa que o outro é mais ou menos, que nós sejamos mais ou menos. Significa, simplesmente, que nossas vivências, nossas histórias, nossos contextos nos levam a significar de formas distintas. E essa diferença de universos existenciais pode levar a uma enorme incompreensão, a uma impossibilidade total de partilha, ao rompimento, ao sofrimento, e outras tantas formas que temos de lidar com a decepção de oferecermos ao outro o que há de mais precioso em nós e ele não ser capaz de receber; ou recebe e avalia como “ouro de tolo”. E se o valor não estiver na riqueza do metal e sim na grandeza da atitude?

Searle nos chama a atenção para o quanto de intensidade perdemos quando tentamos parafrasear uma metáfora. Se dizemos S é P para significar S é R, temos algum motivo para essa escolha. É possível que o motivo seja a intradutibilidade de uma metáfora em sua paráfrase. É possível que aquilo que tentamos atingir seja inefável pelo caminho de uma linguagem objetiva e por isso, necessitemos de uma linguagem metafórica, que pode não atingir, mas se aproxima um pouco mais.

Referências Bibliográficas:

FREGE, G. Lógica e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Cultrix, 1968.
SEARLE, J. Expressão e Significado. São Paulo: Martins Fontes, 2002.
WITTGENSTEIN, L. Investigações Filosóficas. Petrópolis: Vozes, 2005.




Monica Aiub

Filósofa Clínica. Doutora em Filosofia (PUC-SP). Dirige o Interseção - Instituto de Filosofia Clínica de São Paulo, sendo responsável pela formação dos filósofos clínicos na região. Editora: atua na Editora FiloCzar. Autora de vários livros e artigos sobre filosofia. www.institutointersecao.com.br



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