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Uso recreativo de maconha: saiba os efeitos

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Sintomas comuns em usuários ocasionais: ansiedade e reações de pânico

por Danilo Baltieri

Recentemente EUA (Estado do Colorado) e o Uruguai liberaram o consumo de maconha para uso recreativo como forma de inibir o tráfico. Com esse movimento internacional direcionado para a descriminalização do consumo da maconha, o que precisamos saber sobre ela?

Resposta: Apesar das suas raízes remotas, a maconha é uma droga que tem sido mais frequentemente usada por jovens desde as décadas de 70 e 80.

O aumento do consumo desde então tem motivado pesquisadores a entender o impacto do uso dessa droga sobre o funcionamento físico e psicológico dos usuários.

Evidências científicas abundam demonstrando que o consumo regular de maconha aumenta a chance do uso de outras substâncias, induz sintomas depressivos e psicóticos, está relacionado a um pior desempenho cognitivo nas atividades escolares e no trabalho. Nesta coluna, procuro revisitar as principais evidências sobre os efeitos negativos do uso da maconha e apontar as preocupações de agentes da saúde em relação à descriminalização ou mesmo legalização do uso.

Efeitos agudos da maconha

Os sintomas adversos mais frequentes são ansiedade e reações de pânico, principalmente entre usuários ocasionais. Para aqueles que experimentam esses efeitos, a sensação é bastante negativa.

A toxicidade aguda da maconha é baixa, uma vez que os canabinoides não provocam depressão respiratória, como outras drogas podem assim o fazer, como é o caso de opioides e álcool, por exemplo.

A dose fatal é muito difícil de ser atingida, inclusive por um usuário pesado.

Acidentes de trânsito

Um dos efeitos agudos de preocupação pública é a possibilidade de que usuários intoxicados por maconha apresentem aumentada chance de provocar acidentes de trânsito. De fato, o uso da maconha prejudica o desempenho cognitivo e comportamental, o que pode aumentar o risco de acidentes automobilísticos. Vários estudos têm mostrado esse relacionamento com o uso de maconha antes de dirigir, aumentando o risco de acidentes. O risco atribuído à maconha é bem menor do que aquele atribuído ao uso de bebidas alcoólicas (2,5% versus 29%).

Uso regular: risco de dependência e efeitos crônicos

A síndrome de dependência de maconha é uma das principais consequências do uso regular. O risco de dependência é de cerca de 9% entre pessoas que já fizeram uso da droga na vida. Esse risco aumenta para uma em seis pessoas que iniciaram o consumo na adolescência, e para uma em três pessoas que usam a droga regularmente. Aqueles em alto risco de desenvolver dependência são os que iniciam o consumo precocemente e que têm histórico de pobre desempenho acadêmico, comportamento desafiador na infância e adolescência, pobre supervisão parental, história familiar de problemas com o uso de substâncias. Sintomas de síndrome de abstinência têm sido vislumbrados, tanto entre usuários regulares e crônicos quanto entre usuários pesados, como: irritabilidade, diminuição do apetite, ansiedade, sintomas depressivos, insônia. Esses sintomas tipicamente surgem cerca de 24 horas após o último consumo da droga, e se tornam mais intensos após 10 dias.

Riscos respiratórios

Fumantes de maconha usualmente registram mais frequentemente sintomas de bronquite do que não usuários. Não há evidências, até o momento, sobre o aumento do risco de enfisema pulmonar entre fumantes de maconha que não fumam concomitantemente tabaco.

Câncer

Há boas razões para acreditar que maconha cause câncer de pulmão, do trato gastrointestinal e de outras estruturas das vias respiratórias. O cigarro de maconha contém muitos dos mesmos agentes carcinogênicos encontrados no cigarro comum. Usualmente, fumantes de maconha inalam mais profundamente a fumaça do que fumantes de tabaco, e apresentam muitas das modificações celulares pulmonares que precedem o aparecimento de câncer de pulmão.

Efeitos cardiovasculares

A maconha (bem como outros canabinoides) aumenta a frequência de batimentos cardíacos. Embora esse efeito seja minimizado com o tempo de uso entre jovens saudáveis do ponto de vista cardiovascular, naqueles que já demonstram doença cardíaca, hipertensão arterial sistêmica e isquemia cerebral, o consumo deve provocar mais danos.

Consequências psicossociais

Pesquisas tipicamente encontram associações entre uso de maconha e pobre desempenho escolar. As taxas de consumo dessa droga parecem ser maiores entre jovens com maiores taxas de absenteísmo escolar. Embora seja difícil estabelecer uma relação de causa-efeito, diferentes estudos têm defendido três hipóteses:

a) o uso de maconha contribui diretamente para o pobre desempenho;

b) um prévio desempenho escolar insatisfatório contribui diretamente para o consumo da droga;

c) tanto o pobre desempenho escolar quanto o consumo da maconha são provocados por outros fatores que se somam para um desenlace indesejável.

Usuários de maconha tendem a experimentar outras drogas?

Usuários precoces de maconha e usuários regulares mais frequentemente experimentam outras drogas, como a cocaína, em relação a não usuários ou usuários tardios. Três explicações são comumente oferecidas para essa associação:

(a) o mercado de drogas que oferece maconha é frequentemente o mesmo que oferece outras substâncias;

(b) usuários precoces de maconha acabam por experimentar outras substâncias por razões possivelmente não relacionadas com a maconha;

(c) efeitos farmacológicos da maconha aumentam a propensão para a experimentação de outras drogas.

Sintomas psicóticos (alucinações e delírios)

O uso de maconha está associado com o surgimento de sintomas psicóticos, conforme mostram várias pesquisas realizadas em população geral. O início precoce do consumo e a dose consumida da droga são fatores de preocupação nesse relacionamento. De fato, uma maior concentração de THC (tetrahidrocanabinol) nos cigarros de maconha aumenta a chance de sintomas ansiosos, depressivos e psicóticos.

Política e maconha

Em vários países ao redor do mundo, a discussão em torno da maconha e dos seus possíveis efeitos à saúde do usuário é simplista e comumente se encerra em duas bandeiras:

(a) a maconha deve ser legalizada, ou pelo menos descriminalizada, tendo em vista seus poucos efeitos danosos;

(b) a maconha deve ser mantida como droga ilícita, dados seus efeitos danosos à saúde física e psicológica do usuário.

Essa visão simplista do problema é perniciosa e pouco produtiva, tendo em vista que se criam dois grupos fechados ao posicionamento alheio. Os defensores da legalização não aceitam o fato e as evidências a respeito dos problemas físicos, psicológicos e sociais relacionados ao consumo da droga. Por outro lado, os defensores da manutenção da proibição devem reconhecer que os efeitos da maconha não são manifestamente mais graves do que os efeitos do álcool e do tabaco.

Eu acredito que as visões pró e contra descriminalização e legalização devem ser combinadas, sempre se baseando em evidências científicas e bom senso.

O texto foi baseado no seguinte artigo científico:
Hall, W., The adverse health effects of cannabis use: what are they, and what are their implications for policy? Int J Drug Policy, 2009. 20(6): p. 458-66.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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