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Automutilação é uma tentativa de diminuir dor psicológica

Edson Toledo 01/01/2016 PSICOLOGIA
O diagnóstico nem sempre é fácil.

por Edson Toledo

Embora a automutilação tenha sido referida na literatura científica desde 1938, estudos recentes têm apontado que a proporção de jovens que se automutilam vem aumentado, segundo os critérios do Manual Diagnóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais - 5ª Edição (DSM-5) entre 17,2% a 20,7% principalmente em adolescentes. Não por acaso temos visto na mídia manchetes como: "Meninas se automutilam com lâmina de apontador em escola do Acre" e "Direção de escola investiga possível automutilação de alunas em Minas Gerais".

Fato esse que tem aumentado a preocupação de pais, educadores e profissionais da saúde.

A automutilação pode se iniciar na adoslecência. A prevalência em adolescentes varia de 17 a 21%, a razão principal é o pobre desenvolvimento de habilidades interpessoais associados à: negligencia, expressão emocional sufocante, abuso emocional, físico e sexual, relações parentais vulneráveis, história de separação precose dos pais. Em adultos a prevalência estimada é muito baixa: menos de 2%. Na idade adulta, quando presente, a automutilação pode ser considerada como um sinalizador de gravidade de outros transtornos psiquiátricos que geralmente estão associados a outros transtornos (depressão, transtorno de ansiedade, abuso de substâncias, transtornos alimentares, transtorno de estresse pós-traumático e transtorno de personalidade borderline).

Para uma melhor compreensão apresentamos os critérios diagnósticos de automutilação definidos pelo DSM-5:

Critério A: No último ano, o individuo se engajou, em cinco ou mais dias, em dano intencional autoinflingido à superfície do seu corpo, provavelmente induzindo sangramento, contusão ou dor (por exemplo: cortar, queimar, fincar, bater, esfregar excessivamente), com a expectativa de que a lesão levasse somente a um dano físico menor ou moderado (por exemplo, não há intensão suicida).

Nota: A ausência de intenção suicida foi declarada pelo individuo ou pode ser inferida por seu engajamento repetido em um comportamento que ele sabe, ou aprendeu, que provavelmente não resultará em morte.

Critério B: O indivíduo se engaja em comportamentos de autolesão com uma ou mais das seguintes expectativas:

1. Obter alívio de um estado de sentimento ou de cognição negativos.
2. Resolver uma dificuldade interpessoal.
3. Induzir um estado de sentimento positivo.
Nota: O alívio ou resposta desejados são experimentados durante ou logo após a autolesão, e o indivíduo pode exibir padrões de comportamento que sugerem uma dependência em repetidamente se envolver neles.

Critério C: A autolesão intencional está associada a pelo menos um dos seguintes casos:

1. Dificuldades interpessoais ou sentimentos ou pensamentos negativos, tais como depressão, ansiedade, tensão, raiva, angústia generalizada ou autocrítica, ocorrendo o período imediatamente anterior ao ato de autolesão.
2. Antes do engajamento no ato, um período de preocupação com o comportamento pretendido que é difícil de controlar.
3. Pensar na autolesão que ocorre frequentemente, mesmo quando não é praticada.

Critério D: O comportamento não é socialmente aprovado (por exemplo: piercing corporal, tatuagem, parte de um ritual religioso ou cultural) e não está restrito a arrancar carca de feridas ou roer as unhas.

Critério E: O comportamento ou suas consequências causam sofrimento clinicamente significativo ou interferência no funcionamento interpessoal, acadêmico ou em outras áreas importantes da vida.

Critério F: O comportamento não ocorre exclusivamente durante episódios psicóticos, delirium, intoxicação por substâncias ou abstinência de substância. Em indivíduos com um transtorno do neurodesenvolvimento, o comportamento não faz parte de um padrão de estereotipias repetitivas. O comportamento não é mais bem explicado por outro transtorno mental ou condição médica (por exemplo: transtorno psicótico, transtorno do espectro autista, deficiência mental, *síndrome de Lesch-Nyhan, transtorno do movimento estereotipado com autolesão, tricotilomania (transtorno de arrancar cabelo), transtorno de escoriação (skin-picking).

Como podemos observar o diagnóstico nem sempre é fácil. Porém, tudo indica que a automutilação é uma tentativa para diminuir a dor psicológica, mediante a provocação da dor física, assim se justifica que os episódios ocorram após a vivência de uma forte emoção que o jovem não consegue gerir de uma forma ajustada e para tanto utilizam vários meios para se automutilarem, sejam lâminas de barbear, facas, lâminas de apontador de lápis, tesouras, queimaduras com cigarro.

Essas lesões frequentemente acontecem no quarto ou no banheiro, longe da vista dos outros. O fato é que quando se cortam, a dor psicológica desses jovens, por vez insuportável, se torne um pouco menos dolorosa e que nem sempre é fácil descobrir quando se mutilam uma vez que eles sentem vergonha e medo de revelarem o que fazem e por isso procuram esconder as lesões através do uso de mangas compridas, pulseiras e munhequeiras quando acontece nos braços ou calças compridas, quando nas pernas.

O que recomendamos é que perante a constatação deste fato, é preciso que os pais procurem a ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. A psicoterapia tem como objetivo ajudar o jovem a encontrar alternativas de lidar com a frustração e a controlar a impulsividade e a medicação é muitas vezes indicada para o alívio de sintomas depressivos e ansiosos, que podem contribuir para a manutenção do comportamento de se autolesarem.


*Síndrome metabólica rara, resultante da deficiência da enzima hipoxantinaguanina fosfo-ribisiltransferase, que participa do metabolismo das purinas. Está associada a três elementos clínicos, hiperprodução de ácido úrico, distúrbios neurológicos e comportamentais.




Edson Toledo

Coordenador do serviço de atendimento a pacientes com tricotilomania no PRO-AMITI/IPq FMUSP. Supervisor clínico na UNIP. Psicólogo pela Universidade Metodista. Mestre em ciências pela Faculdade de Medicina da USP. Especialização em Terapia Cognitivo-comportamental pelo Ambulim/IPq FMUSP. Especialização em Psicologia Hospitalar pela UNISA



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