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Medo e angústia em relação à morte é devido à falta de um "modelo de referência"

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Elisandra Vilella G. Sé

Na primeira parte deste artigo (clique aqui e leia) disse que a angústia em relação à morte é aliviada ao entendê-la como o fim de um processo natural.

Assim como cada um vive a vida de uma maneira própria, com sua identidade e formação de consciências e verdades, também cada um entende o processo da vida e de seu fim de uma determinada maneira.

E por isso o cenário da morte se configura de maneiras distintas para cada sociedade, cada clã, cada tribo, cada comunidade, cada grupo, cada família. É muito difícil para todo ser humano que se apegou às fantasias e ilusões de uma vida se conscientizar que existe um fim, que tudo irá virar pó. E assim todos ficam na dúvida de buscar ou não uma imortalidade da alma.

Para muitas pessoas a angústia da morte é evidente e facilmente reconhecível. O que mais assusta em relação ao fim da vida, nem tanto o que espera, o que vai surgir, ou a perda de um futuro, mas sim a perda de um passado. É sempre o medo de que a sua memória não mais exista em lugar algum. Como nos diz Irvin D. Yalom no seu livro De frente para o Sol: "Nada é estável, nada é duradouro, tudo se evapora com a morte."

Tudo isso estamos falando para discutir e refletir aqui neste artigo algo muito importante que é a maneira como as famílias enfrentam o processo de morrer de um parente idoso que se encontra no limite da vida. Cada pessoa - dependendo do grau de entendimento da realidade, suas crenças, vínculos e normas sociais - encara esse processo de maneira diferente.

A pessoa idosa se estiver doente numa fase terminal e se estiver consciente pode resignificar sua vida em muitos aspectos buscando novos sentidos para o momento que esteja passando. E o mesmo pode acontecer com os familiares, que podem refletir sobre a significação de cada instante vivido com aquele familiar idoso, já que o processo de morte por uma doença crônica, por exemplo, traz um sofrimento físico e a perda da qualidade de vida. Os familiares também sofrem com a evolução da doença e ficam profundamente angustiados com a expectativa de uma morte anunciada, principalmente quando a doença é incurável.

O cuidar de uma pessoa idosa com doença incurável causa um desgaste emocional, físico e financeiro muito grande para toda a família que pode ir desestruturando ainda mais o núcleo familiar com o passar do tempo. É muito importante que a família busque ajuda para realizar esses cuidados, buscar entender como lidar com demandas do dia a dia daquele paciente, dividir as tarefas, buscar ajuda psicológica. Isso inclui uma assistência ao paciente e para a família que inclua o tratamento adequado para o paciente e uma assistência para o cuidador principal quanto à melhor decisão a ser tomada com relação aos cuidados com o paciente, como por exemplo, o controle dos sintomas desagradáveis que o paciente sente no processo de fim da vida. São questões até que envolve um grande debate ético.

As preocupações psicológicas e espirituais estão sempre presentes. Podem existir pendências pessoais, segredos de famílias que aproximam ou distanciam as pessoas. Certas famílias trocam farpas e culpa pela doença, pelo tratamento, pela morte do parente, por atitudes e comportamentos que tiveram ou pelo que deixaram de fazer, o que conduz à uma desestruturação familiar que compromete mais o tratamento. Portanto, os cuidados prestados devem ser feitos por uma equipe multiprofissional bem formada e preparada para lidar com as questões que afligem cada família.

Acompanhar uma pessoa com uma doença incurável que se encontra em estágio avançado e terminal é um desafio para qualquer equipe de saúde e para cada família; é uma experiência de intensa significação, especialmente se o paciente estiver com a consciência e cognição comprometida. Sua capacidade de interação com o mundo está quebrada, o que exige dos que estão à sua volta uma disponibilidade e motivação para decifrar muitos sintomas.

Enfim, acompanhar o processo de morte de um ente querido traz um profundo sofrimento emocional, mesmo a morte sendo um acontecimento natural no curso de vida. O problema está na confrontação dela, que se traduz em medo, angústia e resistência; porque em relação à morte não temos mesmo onde buscar conforto e abrigo, ninguém experienciou um momento de inexistência. O que a família não quer é a perda da pessoa, do corpo, do vínculo, dos instantes significativos, dos acordos simbólicos estabelecidos. E a reflexão sobre o acontecimento da morte geralmente resulta no aparecimento do medo. Na verdade todo mundo tem medo é de acreditar que a vida é fatalista.

Acompanhar um ente querido à beira da morte é ter que se conformar com a perda de um personagem, cuja peça de teatro foi a vida encenada de diversos modos, em diversos cenários. A grande dificuldade é que as pessoas ao redor estão vivendo identificadas com um corpo presente, um corpo e uma mente vividos que ainda vive mas em condições preocupantes do ponto de vista biológico. As famílias vivem a angústia porque estão preocupadas como vai ser, o que vai acontecer no momento de morrer. Conhecemos diversas descrições da morte, mas não somos treinados culturalmente para entender o abandono do ciclo da vida, o descanso.

Fonte: Livros:
“Morte e desenvolvimento humano”. M. J. Kovacs (Org). Casa do Psicólogo, 1992.
“História da morte no Ocidente. P. Ariès. Ediouro, 2002.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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