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Interpretar metáforas ajuda a exercitar a mente

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Faz bem exercitar a imaginação e a abstração

por Elisandra Vilella G. Sé

Metáforas são figuras de linguagem que utilizamos para significar as coisas no mundo. Para alguns estudiosos o fato de se expressar algumas coisas com as metáforas é para dizer o que não se pode dizer de forma literal. No entanto, a verdade é que grande parte da nossa linguagem cotidiana é metafórica. Muito de nosso raciocínio é metafórico. De modo geral, sempre usamos a metáfora para exprimir nossos pensamentos. Porque nossos conceitos abstratos fundamentais - tempo, eventos, afetos, sentimentos e a moralidade - são na maior parte metafóricos.

Uma boa metáfora é a que induz a pessoa a uma percepção intuitiva da semelhança entre os diferentes, isto é, as semelhanças nas expressões se dão por meio de comparações entre situações. Trata-se, pois, de uma aproximação entre idéias. Diz respeito a possibilidades de combinação entre imagens situacionais e que, por sua vez, dão sentido à expressão.

Desde Aristóteles, um grande filósofo grego, que a metáfora teve muita importância na Arte Poética e na Arte Retórica (argumentação). Para Aristóteles o uso da linguagem metafórica transporta a significação própria de um nome para outra significação, definia como "transferência de significado". Ou seja, a metáfora tira o significado de uma palavra numa situação comum e leva esse significado para outra palavra em outro contexto. Mas ela é mais do que uma simples transposição de significados, e muito mais do uma simples comparação. Usar a metáfora é usar a capacidade criativa de usar as palavras. Seria a criação de novos universos de conhecimentos. Atualmente, a maioria dos autores acha a metáfora essencial à língua e muitos deles vêem nela sua maior riqueza. Principalmente nos estudos literários e nas composições musicais.

Quem nunca ouviu expressões como essas: "O coração é uma bomba", expressão muito utilizada na medicina; "O amor é o fogo que arde sem se ver", como no Soneto de Luis de Camões e na música do compositor Renato Russo; "O amor é um livro e sexo é esporte", como na letra da música da Rita Lee e também na expressão "Deixa a vida me levar...", como na música do Zeca Pagodinho. E a expressão "O nosso cérebro é como um computador", comparando-o a uma máquina, como se a mente humana tivesse comandos igual ao de um computador; "Nossa memória é um labirinto"; e os provérbios: "A esperança é a última que morre"; Águas passadas não movem moinhos".

Quando usamos expressões metafóricas temos dois pensamentos ativos. Na expressão "O coração é uma bomba", fazemos associações na mente para interpretar o significado da frase. Acessamos o significado da palavra coração e associamos ao significado da palavra bomba. Fazemos combinações de imagens visuais na mente com as palavras abstratas.

A imagem de algo concreto e seu significado contido na memória nos permitem reconhecer e associar outros sentidos abstratos para formar novos sentidos, ou seja, novas frases, novas expressões e interpretar as metáforas. Assim, fazem os poetas.

As correlações das nossas experiências diárias inevitavelmente adquirem-se metaforicamente, e se ligam a julgamentos subjetivos. A razão e os conceitos são formas dados por nossos corpos, cérebros e modos de funcionar no mundo, ou seja, nossas experiências. Por exemplo, para interpretarmos um provérbio, precisamos de um conhecimento de mundo, um conhecimento da língua, um conhecimento do universo discursivo ou sistema de referências ao qual estamos inseridos, isso é necessário para interpretar e para usar um provérbio ou uma expressão idiomática que são expressões do nosso dia-a-dia como "Ficou na maior sai justa"; "Caiu do cavalo"; "Tomou chá de cadeira", etc...

As expressões metafóricas são cristalizadas pelo seu uso, pela tradição cultural e surgem da relação simbólica entre sujeito, língua e sociedade. O uso desses recursos expressivos e interpretativos que resultam nos efeitos de sentido que relacionam linguagem com o que fazemos ao longo da vida, significa entender seu enfoque social, cultural e lingüístico e ser capaz de dizê-lo em diferentes situações e compreender seu sentido.

Dependendo do interesse implícito no sentido, possibilita a criatividade, a invenção, a argumentação e a compreensão. Assim, é o que ocorre com os provérbios, com os ditos populares, os idiomatismos (frases feitas), os poemas, os clichês, os slogans de propagandas, as charges, etc... E todas essas expressões sempre têm a ver com os processos de memória (memória cultural, memória sócio-histórica e coletiva). Ligados ao entendimento e à expressão da tradição cultural, as expressões metafóricas de uma forma ou de outra sempre despertaram interesse dos que estudam a mente humana. Por se tratar da nossa capacidade de lidar com a abstração. Nosso raciocínio não é só lógico, ele também é discursivo, uma vez que todo nosso raciocínio é abstrato.

Portanto, ler poemas, escrever crônicas e poesias, escutar música ou compô-las, escrever detalhes criativos em uma autobiografia, significa fazer uso de recursos metafóricos para jogar com a linguagem, exercitar a imaginação e a abstração. A linguagem não é um simples código, ela se caracteriza como um sistema simbólico de grande rearranjo com o qual podemos dizer criativamente o mundo. O significado não está em nós ou nas coisas no mundo, mas entre nós e as coisas.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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