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Não quer ser mãe? Saiba as vantagens

Redação Vya Estelar 01/01/2016 COMPORTAMENTO
Não maternidade por escolha é uma conquista feminina

por Valéria Meirelles

No Brasil, a família adquiriu valor institucional, tal a importância que ocupa no cotidiano, mesmo com sua multiplicidade de formas: tradicional, de segunda união, homossexuais, unipessoais (um só membro), sem filhos, entre outras.

Segundo o sociólogo Roberto Da Matta, para o brasileiro, a família é também um valor, "(...) pertencer bem ou mal a uma 'família' é mais significativo do que ter um elo com pessoas ou instituições". Ou seja, quem não tem família pode ser digno de pena, e quem a despreza, de antipatia. Essa idéia é tão forte e enraizada em nossa cultura que mal percebemos o uso coloquial da palavra "família" para designar acolhimento, pertencimento, filiação: "pousada familiar", "cheiro caseiro", "comida caseira", "fulano é como se fosse de minha família".

Portanto, a família tem uma conotação tão importante que acaba definindo parte da identidade do indivíduo, sua história, forma de inserção e reconhecimento social. Uma família cresce e se solidifica com o aumento de seus membros, seja por casamento ou também por nascimentos. Se a família for "completa", tradicional, sem divórcios e com filhos, revela-se uma forma de sucesso ou superioridade social de seus membros, digna de admiração e respeito, mesmo que velados.

Diante dessa realidade, quando uma mulher faz a livre opção de não ter filhos, ela vai contra essa ordem social e muitas vezes, não é compreendida e passa a ser até hostilizada. Isso porque a escolha de não ter filhos é vista como um comportamento egoísta e não como mais uma possibilidade na vida da mulher, que acaba sofrendo preconceitos.

No mundo todo há uma tendência de casais optarem por não terem filhos, e essa escolha parte principalmente da mulher, como demonstram estudos que começam a existir sobre o tema. Elizabeth Badinter escreveu o clássico livro: "Um amor conquistado: o mito do amor materno" - muito recomendável - que mostra como a maternidade, além de um instinto da biologia, é também uma construção social e, portanto, é uma das inúmeras possibilidades na vida da mulher. Principalmente da mulher atual.

Nos Estados Unidos, Canadá e Europa, já existem associações de pessoas sem filhos que se unem para apoio, trocas de experiências e lazer - esses grupos possuem sites, como por exemplo: www.worldchildfree.org e www.nokidding.net.

No Brasil, ainda há poucos profissionais voltados a pesquisas sobre o tema. Para Bonini-Vieira, psicóloga do Rio de Janeiro, autora de uma dissertação sobre mulheres que não são mães, "(...) a maternidade está, no imaginário social, intrinsecamente ligada ao feminismo e existem pressões sociais para que as mulheres cumpram o papel reprodutivo, que lhes é 'essencial à sua completude', segundo as normas sociais.".

Mansur, psicóloga paulista também pesquisadora do assunto e autora do excelente livro: Sem filhos: a mulher singular no plural atesta que "(...) o ser humano, diferente dos outros animais, é mais consciente de suas opções e possibilidades de reprodução. Essa diferença torna aceitável que o amor materno, como todo sentimento humano, pode ser incerto, frágil, imperfeito e que a mulher tenha a liberdade de não ter filhos. (...) a mulher que não aceita a pressão psicológica pró-maternalista, é quase sempre considerada desviante, incompleta, inadequada ou vivendo uma vida inferior". Ou seja, o que leva uma mulher decidir que a maternidade não será exercida por ela, é uma combinação de fatores que refletem a sua história, a interação entre medo e desejo, capacidades e limitações, personalidade e circunstâncias socioculturais.

Tanto na prática clínica como nas pesquisas acima, as mulheres que voluntariamente optaram por não serem mães têm um perfil parecido: são economicamente independentes, ativas, muito envolvidas e satisfeitas com a profissão. Possuem ampla rede de amizades, são afetivas e privilegiam relacionamentos baseados em interesses comuns. Exercem inúmeras atividades - ou papéis - revelando multiplicidade de interesses e criatividade para viverem outros tipos de realidade, também satisfatórios. Sentem-se produtivas em outras áreas da vida, que não a familiar/materna. Em geral, são boas cuidadoras de si mesmas e privilegiam a qualidade de vida.

Segundo Bonini Vieira, essas mulheres possuem "uma percepção de si mesmas como pessoas produtivas e realizadas, dentro de suas próprias expectativas, independente de sua escolha reprodutiva". E possuem também angústias, pois são mulheres, não porque são mulheres sem filhos.

É importante estar claro que a não maternidade por escolha é mais uma conquista feminina e mais um fenômeno dos tempos atuais. E como tantos outros, deve ser compreendido desmistificando-se o amor materno, aceitando-se a multiplicidade da vida das mulheres que têm a maternidade como mais uma opção para suas vidas. Ser mulher não é obrigatoriamente sinônimo de ser mãe.




Redação Vya Estelar

Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.



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