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O óbvio da vida alheia

Lilian Graziano 01/01/2016 PSICOLOGIA
Por que não enxergo o óbvio sozinho?

por Lilian Graziano

A expressão que descreve perfeitamente o que psicólogos e coaches observam mais frequentemente no setting de suas atividades é "o óbvio ululante*" - título de obra de Nelson Rodrigues. Não falo de tragédias rodriguianas, ainda que, muitas vezes, esse óbvio constitua uma verdadeira tragédia pessoal na vida de pacientes e coachees**. Falo daquilo que salta aos olhos do profissional psi em suas sessões, mas que o cliente não vê ou demora para enxergar.

Esse óbvio que ulula é um dos principais insumos de processos de evolução pessoal mediados por esses especialistas. O que deixa claro que psicoterapia e coaching consistem, em grande parte, em apreender esse rico material e auxiliar na mudança de perspectiva.

Muitos me perguntam: "Por que não enxergo o óbvio sozinho?" E eu mais uma vez digo neste espaço que falta o exercício do autoconhecimento - não nos dedicamos suficientemente a isso, de maneira que, mesmo imersos em nossos problemas, nosso olhar seja imparcial, com foco em aprendizados e soluções possíveis, sem angústia ou paralisia.

Desta vez, contudo, preciso acrescentar que nos falta algo mais, ainda. Falta-nos uma visão desprovida de julgamentos maniqueístas sobre nossa vida, que não limite nossa análise dos fatos a bom/mau, feio/bonito, culpado/inocente e outras dualidades generalistas com origem em nossa tradição judaico-cristã.

Ampliar o olhar e descobrir o seu "óbvio ululante" requer muito mais que esse repertório. Requer estar aberto a deparar-se com uma zona cinzenta em que cabe tudo, inclusive maior compaixão consigo mesmo, diante da constatação de que determinados fatos têm razões circunstanciais e que devemos levar em conta nossos recursos emocionais naquele momento, considerar que nem tudo está sob nosso controle e que sempre há uma lição ou um ângulo positivo de nossa atuação.

É a abertura para esse olhar positivo e pragmático sobre as coisas, entendendo as razões circunstanciais dos problemas, e corrigindo nossos erros, tirando deles uma lição, que nos permite enxergar situações sempre sob vários ângulos, habilidade que pode ser treinada em Psicologia Positiva.

Não se trata de colocar as lentes cor-de-rosa da autopiedade ou da condescendência, mas de dar o devido peso a cada coisa e "colocar rodinhas" naquilo que mais pesa: problemas e consequências que precisaremos carregar conosco, mas que podem ser, mais do que um fardo, uma oportunidade de aprendizado e crescimento.

O óbvio que ulula, neste ponto de nossa conversa, é que o copo pode estar meio vazio ou meio cheio, embora se trate sempre de um copo com água pela metade - ou, como já disse em outros textos desta coluna, que o caminho sempre terá flores e esterco, e somos nós que escolhemos aquilo a que devemos prestar atenção, ainda que tenhamos de passar pelo esterco.

* O termo ululante, segundo o dicionário Caldas Aulete, quer dizer:

1. Que ulula, que uiva (lobos ululantes; torcida ululante).
2. Evidente, gritante, insofismável (sentido imortalizado por Nelson Rodrigues).
** Coachee é o termo que designa clientes de coaching.




Lilian Graziano

Diretora dos Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, psicóloga e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) com pós-graduação em Psicoterapia Cognitiva Construtivista. Seu doutorado sobre Psicologia Positiva e Felicidade foi a primeira tese brasileira baseada nessa abordagem. Atua há mais de 20 anos na Educação com foco no desenvolvimento de condutas preventivas para os comportamentos humanos disfuncionais. Possui certificação em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. Treinou e atendeu centenas de funcionários de grandes organizações tais como: Coca-cola, Basf, Bank Boston, Accenture, British Petroleum, Merrill Lynch, Unilever, dentre outras.



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