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Pais têm dificuldade em reconhecer que seus filhos estão acima do peso

Ceres Alves Araujo 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Criança gordinha ou obesa tende a se transformar no adolescente gordinho

por Ceres Araujo

Em artigo recente na revista “Pesquisa” da FAPESP, Carlos Fioravanti escreve sob o titulo “Coma menos, filho” sobre as mães que nem sempre reconhecem quando suas crianças estão acima do peso.

O jornalista comenta uma pesquisa da Universidade Federal do Espírito Santo, na qual é revelado que apenas 10% das mães de crianças, com sobrepeso ou obesidade, reconheceram que seus filhos estavam realmente pesando acima do normal para a altura e para a idade.

As crianças com excesso de peso, tendem com alta frequência a apresentar problemas de pressão arterial, o que é um risco importante para doenças cardiovasculares, que é a principal causa de morte na população brasileira.

Calcula-se que 23,3% da população de crianças no Brasil, segundo essa pesquisa, tenha atualmente peso acima da normalidade.

Pode-se perguntar por que as mães não reconhecem quando seus filhos estão com peso acima do desejável. Poucos anos atrás, propagava-se a crença que bebês gordinhos eram bonitos e bem saudáveis. As mães eram congratuladas quando tinham bebês com “dobrinhas” nas articulações, e quando tinham bebês que “enchiam” o berço. Existia a suposição que o bebê e as crianças deveriam ter peso a mais, pois teriam uma reserva caso ficassem doentinhos. Jamais seria proposto o “Coma menos, filho”, mas sim o “Coma, pelo amor de Deus”.

Por gerações, as crianças se aproveitaram do “Coma pelo amor de Deus” e a recusa a comer tornou-se uma estratégia para manipular o comportamento da casa e testar os limites de pais, desesperados quando não conseguiam alimentar seus filhos.

Atualmente, temos um cenário diferente. Estima-se que um terço da população do mundo faz regime e dois terços passa fome. A distribuição de riqueza demais heterogênea cria uma situação onde sobra alimentos para um grupo e há escassez para outro. Isso repercute na infância. Onde falta alimentos não existe transtornos alimentares, mas onde esses abundam, a tendência aos distúrbios relativos à alimentação aumentam, mesmo em crianças bem jovens.

Observa-se que hábitos inadequados, qualidade ruim na alimentação e lazer mais sedentário é compartilhado pelas crianças e por seus pais. A merenda escolar das escolas, que atendem às populações de renda mais baixa, assim como as cantinas das escolas particulares, oferecem às crianças alimentos com alto valor calórico e baixo valor nutritivo.

Alimento é reforço primário e está relacionado a afeto. Assim recusar o doce, o salgadinho, o refrigerante, a batatinha ao filho é sempre doloroso. Mais difícil ainda é quando se tem um filho gordinho e um filho magrinho, o que é frequente acontecer. Que fazer?

Uma alimentação de rotina saudável, equilibrada é benéfica sempre para todos da família. Excesso de gorduras, de açúcares deve ser evitado, sabe-se hoje em dia. O comer bem é necessário à saúde e a relação com a comida precisa ser prazerosa, para gordinhos e magrinhos. Cuidado com o comer por ansiedade, com o comer para buscar compensar frustrações! O resultado é sempre catastrófico!

A criança gordinha e a criança obesa tendem a se transformar no adolescente gordinho e no adolescente obeso, alvos certos de gozações, chacotas e bullying. A nossa cultura, a nossa sociedade, os nossos tempos cultuam o magro e discriminam o gordo. Além dos problemas de saúde, acrescem-se os problemas com a autoestima, tornando a sobrevivência muito difícil nos grupos sociais.

Crescer com apelidos como “baleia” , “hipopótamo” não ajuda à valorização de ninguém.

Se a criança come por ansiedade, por fuga ou por mau hábito, ela precisa ser ajudada na raiz de seus problemas e a verbalização “Coma menos, filho” pode ser a expressão de pais conscientes, que desejam o bem para seus filhos, ainda que às custas de não dar um “docinho”.




Ceres Alves Araujo

É psicóloga especializada em psicoterapia de crianças e adolescentes. Mestre em psicologia clínica pela PUC-SP, Doutora em Distúrbios da Comunicação Humana pela Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo, professora do Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Clínica da PUC e autora de vários livros, entre eles 'Pais que educam - Uma aventura inesquecível' Editora Gente.



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