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Viver: saiba o que é e como atua seu potencial de plasticidade

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Quanto mais alimentarmos a atividade mental, mais cérebro e mente teremos

por Elisandra Vilella G. Sé

Durante nosso desenvolvimento estamos sempre experimentando um equilíbrio entre aumento (ganhos), diminuição (perdas) e manutenção (estabilidade) da nossa capacidade de se adaptar aos diferentes eventos ao longo da vida. Essa capacidade cheia de alcances de limites chama-se plasticidade.

Todos nossos comportamentos são ao mesmo tempo fixos e variáveis e refletem-se nas diferenças interindividuais, nas diferenças transculturais e no tempo histórico. Nesse sentido a plasticidade é conceituada como o potencial para mudança adaptativa.

Os avanços das Neurociências, especialmente nas últimas três décadas, têm confirmado que as funções mentais têm estrutura psicológica organizada em diferentes níveis de complexidade. As funções mentais e as regiões cerebrais que as processam constituem um todo interconexo, ou seja, constitui um "sistema funcional dinâmico da atividade mental". E como as nossas funções mentais (cognitivas) nascem da prática sóciocultural e sócio-histórica, elas são passíveis de reabilitação, correção, recuperação, reorganização, manutenção, compensação e rearranjos, levando-se em conta sua natureza social e estrutura sistêmica (cerebral) conforme a tarefa em pauta, indicando também a flexibilidade e resistência para lidarmos com desafios e exigências do ambiente.

O potencial de plasticidade de cada pessoa está relacionado ao acúmulo de conhecimentos ao longo da vida, a preservação da mente ativa e a capacidade cognitiva. O grau de plasticidade depende dessas reservas ao longo da vida juntamente com a rede social (recursos externos) que o indivíduo têm disponíveis. Isto é, quanto mais alimentarmos a atividade mental, mais cérebro e mente teremos para enfrentar os eventos do curso de vida e apresentar melhores desempenhos em memória, atenção, percepção, linguagem, funções visuo-espaciais, entre outras funções cognitivas.

Por exemplo, uma pessoa que exercita a memória terá melhores desempenhos em tarefas do dia-a-dia que exige o processamento da memória. No caso de uma pessoa idosa que procura estabelecer sempre novos laços sociais que mais tarde servirão de fontes de apoio, significa que este idoso possui plasticidade no domínio das relações sociais. Um outro exemplo, é o de compreensão de textos, compreender um texto depende sempre de uma grande parcela de conhecimentos partilhados. Ao ler um texto ou livro, ativamos modelos de situações, expectativas sobre estados de coisas, experiências, conhecimento enciclopédico (vocabulário), conhecimento de mundo que nos guiam no processo de compreensão.

Entretanto, pode ocorrer também casos em que a pessoa tenha recursos insuficientes dado o acúmulo de necessidades. As experiências evolutivas manifestam tanto como facilitadores propiciando ganhos ou limitadores propiciando perdas.

Em casos de reabilitação das funções cognitivas como nos casos de distúrbios de memória ou de linguagem (amnésia ou afasia) o trabalho consiste em ativar o potencial atual da pessoa para o máximo desempenho com base em conhecimentos existentes, aprendidos ao longo da vida, experiências (recursos internos) e suporte social e familiar (recursos externos). Com o uso de estratégias dirigidas sob condições sócioculturais específicas às funções mentais ou domínios gerais e específicos, ocorre o aumento da plasticidade do funcionamento cognitivo e o alcance de níveis ótimos de funcionamento. E isso acontece em todos os períodos do curso de vida.

Quanto à especialização de conhecimentos, se a disponibilidade de ricos conhecimentos para atividades artísticas, culturais, literários, a fatos e eventos pode ser considerado um fator protetor contra declínios ao longo da vida, é uma questão ainda bastante recente que tem chamado a atenção de pesquisadores no campo das Ciências Cognitivas e Gerontologia.

O importante é que na medida em que cresce nossa capacidade de reservar conhecimentos e experiências, cresce também o potencial para a plasticidade. Assim, a velhice não pode ser considerada um sinônimo de perda e declínio puro e simples. O que aprendemos ao longo da vida não se perde e não declina. O equilíbrio entre ganhos e perdas nos vários domínios do desenvolvimento é que se torna um pouco menos positivo. Nosso funcionamento cognitivo opera com grande liberdade e algumas funções irão atuar com mais força dependendo da importância que dermos a elas. Umas estarão sempre muito bem iluminadas na mente, outras menos, um pouco mais apagadas. É assim que opera, por exemplo, nossa memória.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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