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Ao largar o cigarro, como superar a ansiedade e a depressão?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

"Fumo mais ou menos 30 cigarros e quero parar. O pior é controlar a ansiedade e a depressão. Chega a ser insuportável. O que posso fazer para controlar essa ansiedade louca, sem contar a depressão e irritabilidade?"

Resposta: Quando o dependente de nicotina tenta cessar o consumo do cigarro, certamente mostrará sintomas típicos da síndrome de abstinência, caracterizados, principalmente, por:

1) Humor deprimido ou irritável;

2) Insônia;

3) Sensação de raiva e frustração;

4) Ansiedade;

5) Dificuldade para concentração;

6) Inquietação;

7) Redução da frequência cardíaca;

8) Aumento do apetite e ganho de peso.

Apesar da meia-vida curta da substância nicotina, os sintomas de abstinência podem durar bastante tempo, variando de semanas a meses. Ademais, entre os dependentes, a duração e a característica dos sintomas podem variar bastante.

Por que as pessoas fumam?

Além da satisfação conseguida através do fumo e da evitação dos sintomas da síndrome de abstinência, existem outros fatores que dificultam a cessação do consumo de cigarros. Essa substância exerce efeitos na modulação do humor, redução do estresse, redução da dor, controle do peso e melhora subjetiva do funcionamento cognitivo. Dessa forma, o tratamento para deixar de fumar pode ser mais difícil entre pacientes com outros transtornos psiquiátricos (como depressão e ansiedade), preocupados com o ganho de peso e com quadros crônicos de dor.

Apesar de vários tratamentos propostos, ainda muitos dependentes de nicotina continuamente demonstram significativa dificuldade para cessar o consumo dessa substância, mesmo quando submetidos a tratamentos que integram a abordagem com medicações e as psicoterapias.

De fato, transtornos do humor (principalmente depressão) são fortemente associados com o consumo de tabaco. Depressão, ansiedade, irritabilidade e raiva são todos gatilhos para o consumo da droga.

Pesquisas qualitativas têm revelado que aqueles dependentes de nicotina que padecem de transtornos do humor necessitam de estreito e saudável contato terapêutico com o médico que os assiste.

Recaídas fazem parte do tratamento e não devem desestimular o paciente em seus esforços para cessar o uso do cigarro.

Remédios eficazes para tratar dependência de nicotina

Existem algumas propostas farmacológicas comprovadamente eficazes para o tratamento da síndrome de dependência de nicotina, tais como:

1) Bupropiona;
2) Terapia de reposição de nicotina;
3) Varenicline;
4) Nortriptilina e Clonidina são consideradas medicações de segunda linha para o tratamento dessa condição, as quais ainda não são aprovadas para essa indicação.

Reposição de nicotina

Em geral, a reposição de nicotina é indicada para pacientes dependentes que usam mais de 10 cigarros ao dia, em especial para aqueles que previamente tentaram sem sucesso abandonar o uso.

Embora existam diferentes formas de reposição de nicotina (gomas, adesivo transdérmico, sprays, inhaler, tablete sublingual), tem-se utilizado no Brasil principalmente a goma e o adesivo. Antes de qualquer administração terapêutica de nicotina, deve-se estar atento às contraindicações de seu uso, tais como gestação, úlcera gastrointestinal ativa e condições clínicas que impliquem risco de piora de doença cardiovascular grave.

Adesivos transdérmicos: reposição e efeito colateral

Os adesivos transdérmicos têm sido bem tolerados, apesar de cerca de 30% dos pacientes demonstrarem irritação de pele com o seu uso. Os adesivos devem ser trocados diariamente, a redução da dose é paulatina e o tempo de uso pode durar cerca de um ano. Pacientes com problemas dentários ou de mastigação ou com dispepsia (dificuldade na digestão) podem aderir melhor ao emprego dos adesivos do que às gomas. Apesar de efetivo, os adesivos podem não proteger o paciente contra a fissura que surge em situações de risco, como dirigir o automóvel, sentar-se diante do computador ou falar ao telefone. Para esses pacientes, pode-se combinar o uso da goma nessas situações.

Goma de mascar

A goma de mascar pode produzir irritação na cavidade bucal e língua. No entanto, tais efeitos são infinitamente menos prejudiciais do que o consumo de cigarros. O número médio de gomas com 2 mg de nicotina mascadas durante o dia varia de 10 a 20. Cerca de 50% da nicotina da goma é absorvida na mucosa bucal; bebidas ácidas interferem com a absorção e devem ser evitadas durante e cerca de 15 minutos antes do uso da goma.

Bupropiona

Esse antidepressivo foi aprovado em 1997 para o tratamento da dependência de nicotina. Clinicamente, é possível que essa medicação alivie alguns sintomas da síndrome de abstinência, como sintomas depressivos.

Devemos lembrar que toda medicação deve ser prescrita e acompanhada por médico especialista no assunto.

Varenicline

Essa medicação foi aprovada em 2006 para o tratamento de dependentes de nicotina. Tem mostrado eficácia em estudos clínicos.

Nortriptilina

Vários antidepressivos têm sido testados no tratamento de pacientes dependentes de nicotina. Apesar de considerada medicação de segunda linha para esse tratamento e não aprovada para essa finalidade, a Nortriptilina tem mostrado eficácia clínica em alguns estudos, em pacientes portadores ou não de sintomas depressivos. Efeitos colaterais têm sido amplamente descritos, como taquicardia, retenção urinária, boca seca, constipação intestinal (prisão de ventre) e visão borrada.

Clonidina

Com relação ao tratamento da dependência de nicotina, também é considerada medicação de segunda linha, não aprovada para essa indicação. Efeitos colaterais têm sido descritos, como tontura, hipotensão (pressão baixa), constipação intestinal e boca seca. Poucos estudos têm avaliado a sua real efetividade no tratamento da dependência de nicotina.

De qualquer forma, o principal fator de sucesso no tratamento da dependência de nicotina é a motivação pessoal para deixar de fumar. O apoio de familiares e amigos se faz de enorme importância.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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