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Conflitos fazem bem ao relacionamento

Lilian Graziano 01/01/2016 PSICOLOGIA
Reconhecer a alteridade do par - o outro como ele é - é um difícil exercício

por Lilian Graziano

Relembro, nesta coluna, reflexão que teci recentemente em uma revista de Psicologia com a qual colaboro, ao observar que certos animais andam em pares. Mais precisamente os tucanos que rondam o verde em volta de minha casa suscitaram o texto. Seria um casal as duas aves que avistei? Tudo me levou a crer que sim e isso me remeteu às relações humanas, mais precisamente entre homens e mulheres. E então me vieram os pensamentos.

A conexão de afeto que imaginei entre os tucanos logo me trouxeram à memória as tentativas frustradas de encontrar um par ideal de muitos pacientes que já atendi. Na verdade, essa busca tem sido um tormento levado à clínica há muitos anos. Busca que precisa ser ressignificada em algum momento das consultas. Explico: tendemos a acreditar que os melhores casais são aqueles que não brigam e assim idealizamos o par como alguém com quem nunca brigaremos. Isso é um erro comum e fatal para as relações amorosas, uma vez que, nos primeiros conflitos, tal convicção nos aproxima do fim da relação. Conflitos fazem bem! Costumo repetir…

Não há nada mais maravilhoso do que uma paixão correspondida

Muito já se disse sobre o que levaria duas pessoas a se apaixonarem: hormônios, genes, personalidade (ou talvez tudo isso). Da projeção à simples ilusão, as inundações de oxitocina (conhecida como o "hormônio do amor") que ocorrem quando nos apaixonamos têm raízes complexas. Mas o que é fato, e merece destaque nas relações, é que nos apaixonamos pelo melhor do outro. E, ao fazê-lo, também conseguimos despertar o olhar do outro para tais características em si. Por isso, não há nada mais maravilhoso no mundo do que a paixão correspondida, visto que nos apaixonamos também pela nossa melhor versão que o outro nos apresenta. Por isso tendemos a achar que nunca haverá desentendimentos.

A convivência nos lembra, porém, que, ao escolhermos o outro (ainda que sob forte influência de seu melhor), aceitamos também compartilhar com ele as suas "loucuras", seus defeitos que nos passaram despercebidos, seu lado sombra. São as letras miúdas do contrato que assinamos sob as lentes da paixão. Os inevitáveis conflitos que surgirão, paradoxalmente, são os únicos capazes de alçar nosso relacionamento a patamares mais altos. Os chamados relacionamentos fortes o são justamente por serem capazes de suportar o conflito, ao mesmo tempo em que se tornam mais fortalecidos ao fazê-lo.

Reconhecer a alteridade do par (ver o outro enquanto outro e não o seu espelho ou qualquer característica projetada ou idealizada) é um difícil exercício. Porém, é a única coisa capaz de nos fazer suportar os problemas da relação. Afinal, amamos o outro porque é outro. Do contrário ficaríamos sós. Nos maus e também nos bons momentos. Com quem compartilharemos as delícias da vida, se vivermos evitando o conflito, repelindo o diferente?




Lilian Graziano

Diretora dos Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, psicóloga e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) com pós-graduação em Psicoterapia Cognitiva Construtivista. Seu doutorado sobre Psicologia Positiva e Felicidade foi a primeira tese brasileira baseada nessa abordagem. Atua há mais de 20 anos na Educação com foco no desenvolvimento de condutas preventivas para os comportamentos humanos disfuncionais. Possui certificação em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. Treinou e atendeu centenas de funcionários de grandes organizações tais como: Coca-cola, Basf, Bank Boston, Accenture, British Petroleum, Merrill Lynch, Unilever, dentre outras.



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