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Redes sociais alimentam ilusão de sempre poder encontrar alguém mais interessante

Patricia Gebrim 01/01/2016 COMPORTAMENTO
É como se pudéssemos ter sempre alguém mais bonito, mais inteligente...

por Patricia Gebrim

Você sabe lidar com a diversidade?

Há não muito tempo atrás eu me lembro de fazer uma brincadeira enquanto andava no banco de trás do carro de meu pai.

A brincadeira constava em adivinhar o nome dos carros, e pasmem, eu conseguia! Naquela época existiam poucas possibilidades, ou era um Fusca, ou uma Brasília, ou uma Kombi (sim, o tempo passa...), ou algum outro que eu saberia com certeza identificar. Hoje já não é tão fácil, são tantas as opções e modelos que é de dar nó até mesmo naqueles que mais se interessam pelo assunto. E não é assim só com carros.

O mundo tornou-se uma fonte infinita de informações e opções, um supermercado gigante em cujas prateleiras são oferecidos todos os tipos de produtos: carros, objetos, serviços alimentos, músicas, livros, filmes... E  até pessoas! Cada um parecendo ser mais brilhante e interessante do que o outro. Em meio a essa sedução, até mesmo os mais centrados se perdem de vez em quando na hora de escolher.

Agora vamos olhar para essa questão focando em nossos relacionamentos. A era da informação e da tecnologia ampliou de maneira  assustadora as possibilidades de encontro, interação e interconexão entre as pessoas. As redes sociais permitem a qualquer pessoa ter, em pouco tempo, uma quantidade enorme de “amigos”.  O mundo virtual, com suas infinitas possibilidades e sites de relacionamentos, nos acena com milhares de rostinhos felizes sorrindo para nós a cada vez que acessamos nosso perfil.

Os mais conscientes sabem que essa exuberância não passa de uma ilusão, e que são bem poucos aqueles com quem de verdade podemos contar; mas algo em nós acaba seduzido por essa falsa sensação de estarmos entre tantas pessoas bacanas, como se pudéssemos ter sempre alguém mais bonito, mais inteligente, mais interessante e mais bacana do que aquele ser que está ao nosso lado.

Talvez tentemos, dessa forma, curar feridas antigas de momentos de nossa história de vida nos quais nos sentimos excluídos ou sós. De repente podemos nos sentir populares, amados, queridos, parabenizados no nosso aniversário por mais de 300 “amigos”. Assim arrebatados por essa promessa, nos lançamos em todas as direções, nos estendendo como se fôssemos aquela ondinha rasa que molha nossos pés ao caminharmos à beira do mar. Passamos a viver as relações de forma superficial, um pé aqui e o outro já pensando em um lugar que possa ser melhor, andando sempre no raso. Sem paciência ou vontade de grandes mergulhos, quando um relacionamento parece começar a querer se aprofundar e exigir mais de nós, simplesmente apertamos um botão, e que venha o próximo. E o próximo. E o próximo... De superficialidade em superficialidade,  vamos conduzindo nossa vida, caminhando à beira da praia em busca de um tesouro.

Ora, que eu saiba, ninguém encontra arcas de tesouro naquele espaço onde bate a primeira ondinha. Digo com propriedade, pois desde criança sempre sonhei em encontrar um daqueles baús cheios de pérolas e moedas douradas. Li todos os  livros de piratas, e ilhas perdidas, e sei que tesouro de verdade fica lá no fundo do mar, muitas vezes com um monstro pelas redondezas. Sendo assim, não é para todos.

Se você quiser encontrar mesmo um tesouro, terá que estar disposto a se aprofundar. E mais, terá que ser capaz de enfrentar o monstro, a serpente marinha devoradora de cabeças. Não é mesmo para qualquer um.

Mas todos nós, e digo TODOS NÓS mesmo, temos um herói dentro de nós. Ele não aparece no dia a dia, tampouco em nossas caminhadas bobas em meio às ondinhas. Ele fica lá dentro de nós, quieto, esperando pelo momento mágico em que  possa fazer algo que de verdade valha a pena.

Cada um sabe e decide o que quer fazer de sua vida.

Alguns permanecerão na superfície, pulando ondas, fugindo de seu vazio existencial, trocando de relacionamento a cada obstáculo, acreditando ingenuamente que um dia encontrarão um diamante bem a seus pés, sem que tenham que lutar por ele.

Outros, os corajosos, os heróis, escaparão da sedução da superficialidade e terão a coragem de se aprofundar. Abrirão mão das falsas infinitas escolhas e escolherão  mergulhar em um relacionamento de verdade, e farão o que for necessário, enfrentarão  monstros e dragões. Lutarão pelos seus sonhos.

Esses sim, os verdadeiros heróis, encontrarão um dia o baú, as pérolas, os diamantes, as moedas douradas... O amor verdadeiro. Esses sim, preencherão o vazio com a luz da sua própria alma.

 




Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento



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