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Encontrar pessoas tende a assumir cada vez mais uma feição competitiva

Antonio Carlos Amador 01/01/2016 PSICOLOGIA
O desejo de sermos especiais acarretou buscas insanas

por Antônio Carlos Amador

A imagem exterior é quase uma obsessão na sociedade moderna: nós somos aquilo que aparentamos. Mais do que ser é preciso parecer. E o vestuário tem aqui um papel importante, simbolizando um prolongamento da personalidade: nos manifestamos através da maneira como nos vestimos. Assim, o que vestimos nos significa, outorgando-nos alguns sentidos, que estamos dispostos a aceitar. O modo como nos vestimos e nos apresentamos nos denuncia, refletindo nossos gostos, atitudes, grau de excentricidade e grau de maturidade.

Encontramo-nos tão condicionados à existência em uma sociedade individualista que esquecemos o fato de que, para os seres humanos de boa parte do planeta, a cooperação tem sido uma prática muito mais constante. Um grande número de indivíduos tem vivido e morrido em comunidades estáveis que se baseiam no pressuposto da subordinação do indivíduo ao bem-estar do grupo ao qual pertence.

A vida competitiva é solitária e as satisfações que produz são efêmeras, levando, única e exclusivamente ao aparecimento de uma nova competição, e assim indefinidamente. Instituições como a família extensa e a vizinhança perderam importância e somos forçados a tentar satisfazer nossa vaidade e nossa necessidade de privacidade no mesmo local e ao mesmo tempo.

Buscamos então uma residência isolada, meios privados de transporte, lojas exclusivas e habilidades que possamos praticar isoladamente. E assim, uma imensa máquina tecnológica dedica-se à tarefa de isolar um indivíduo do outro no curso de suas atividades. No próprio meio familiar prevalece a ideia de que cada membro deve possuir um quarto separado, um aparelho de televisão, um computador pessoal e o imprescindível telefone celular, cada vez mais sofisticado. Desejamos maior privacidade e, no entanto, sentimo-nos alienados e solitários quando a conseguimos.

Nossos encontros com as outras pessoas tendem a assumir cada vez mais uma feição competitiva. Cada vez menos nos reunimos com o propósito de interagir e partilhar. Apenas interagimos virtualmente.
Os encontros parecem assumir o caráter de obstáculos ou transtornos, engarrafando as rodovias quando nos dirigimos às pressas a algum lugar, atravancando e causando confusão nas praias, empurrando uns aos outros nos supermercados, esgotando as vagas nos estacionamentos dos shopping centers, poluindo a atmosfera, os rios e assim por diante. Perdemos a capacidade de nos comunicarmos efetivamente.

Ficamos chocados com o fato de que milhares de pessoas desejam a mesma coisa que nós. Apegamo-nos demasiadamente à fantasia individualista de que todas as pessoas são, ou deveriam ser, totalmente diferentes - de que um homem poderia construir toda a sua existência em torno de uma única excentricidade, sem aborrecer a si mesmo e aos demais. O desejo de sermos especiais acarretou buscas insanas e competitivas em torno de símbolos cada vez mais dispendiosos, busca que se tornou fútil na medida em que é exatamente o individualismo que produz a uniformidade.

 

 

 




Antonio Carlos Amador

É psicólogo e psicoterapeuta de adolescentes e adultos. Professor no Departamento de Psicologia do Desenvolvimento da PUC-SP desde 1974, onde ministra disciplinas relacionadas ao desenvolvimento de adolescentes, ao desenvolvimento interpessoal, à psicologia comunitária e da saúde. Atua em consultório particular como psicoterapeuta e hipnoterapeuta, atendendo a adolescentes e adultos.



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