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Sábado solitário: até quando sofreremos com isso?

Patricia Gebrim 01/01/2016 COMPORTAMENTO

por Patricia Gebrim

Talvez você já tenha vivido algo assim...

Chegou o fim de semana. Sábado. Estava sol, você passou o dia fazendo coisas de que gostava.

Acordou mais tarde, foi à padaria da esquina tomar um café da manhã, lendo o jornal em uma mesa que, milagrosamente, era grande o suficiente para acomodar as páginas cheias de notícias. Depois do café, foi ao parque, praticou esportes, curtiu um dia lindo e cheio de sol, encontrou amigos, teve um almoço delicioso em um lugarzinho simples mas cheio de charme.

Voltou para casa cansado, tomou um banho longo e relaxante e jogou-se no sofá para uma deliciosa soneca. Acordou, tinha alugado um DVD maravilhoso. Começou a assistir.

Estava se sentindo deliciosamente bem, feliz, o filme era mesmo interessante e você se sentia em paz... até que, já na metade do filme, olhou pela janela, já estava escuro, e você se deu conta:

- HOJE É SÁBADO!

Um choque!! Imediatamente a alegria começou a escorrer para fora de seu momento, como areia fina escapando por entre os dedos de sua mão. Já não era um momento delicioso de prazer, ERA UM SÁBADO À NOITE E VOCÊ ESTAVA SOZINHO!!! S-O-Z-I-N-H-O !

- Como posso estar sozinho em um sábado à noite??? - você pensa. Eu devia estar me divertindo agora, talvez com um grupo de amigos bebendo e dando gargalhadas em um barzinho da moda. Ou quem sabe me preparando para ir àquele show maravilhoso de uma nova banda. Ou “amassando” aquela pessoa especial que vive surgindo em meus sonhos.

- Qualquer coisa, MENOS ESTAR SOZINHO ! Devo ser um fracassado... - você pensa baixinho porque não quer ouvir.

Trêmulo com a descoberta, você pega seu caderninho de telefones, desesperado para encontrar algo para fazer. Depois de muitas ligações liga para o último número de telefone, embora faça muito tempo que não fale com aquele amigo. O telefone toca várias vezes, até que seu amigo atende em meio a uma euforia suspeita. Os ruídos de fundo, música e risadas, só servem para confirmar que TODOS estão se divertindo muito, menos você!

Depois de uma difícil conversa (afinal ninguém ouvia ou entendia ninguém), você veste uma roupa premeditadamente desleixada, para dar a impressão de que você não se preocupa com isso, e segue para o endereço que seu amigo lhe deu. Já é tarde. Mesmo assim, decidido, você atravessa a cidade, enfrenta um trânsito maluco e mal consegue se aproximar da porta do tal barzinho, de tanta gente que se acotovelava por lá. Espera quase meia hora para conseguir estacionar, mais uns dez minutos para encontrar seus amigos dentro do bar.

No caminho até a mesa leva um banho de cerveja, tropeça em uma bolsa que estava no chão e é praticamente defumado pelo cheiro de cigarro. É verdade que se sente muito magro ao conseguir passar por lugares tão estreitos, o que é um consolo para todo aquele esforço. Finalmente, você chega à mesa. Conseguir uma cadeira, seria querer demais, assim você se encosta em uma coluna e faz de conta que prefere ficar em pé, aproveita para fazer um tipo meio misterioso.

E então, finalmente enturmado, acompanhado e em um lugar da moda, você se dá conta - e dói perceber isso - de que tudo o que você realmente queria era... a paz do seu sofá.

É claro que você nunca daria o braço a torcer, e pede logo uma outra bebida para esquecer o que sente.

Bem, eu sei que nem todos se sentem assim. Entendam que eu escrevo com certo exagero para causar o impacto que desejo. Quando escrevo nunca tenho a pretensão de dizer verdades. O que gosto mesmo é de provocar, de fazer com que você, que me lê neste momento, pense um pouco sobre a sua vida, sobre as suas escolhas, sobre o que faz no seu tempo livre, sobre como se sente com relação a isso.

Muitas vezes as nossas escolhas para o lazer se baseiam em puras fantasias, em mensagens que recebemos pela mídia, em tanta coisa distorcida... acreditamos nas promessas do lugar da moda, da turma bacana, do programa considerado “in”.

Valide seus sentimentos e seja fiel a eles

Esquecemos de validar o que sentimos, as sensações corporais, sinais simples e claros que com certeza nos levariam a muito mais acertos. Se pudéssemos ser mais fiéis à sensação que temos em cada momento, sem julgá-la, sem interpretá-la com a nossa mente, simplesmente sentindo em cada célula de nosso corpo, encontraríamos uma forma mais saudável, simples e divertida de viver. Uma forma mais livre.

Usando o exemplo que criei:

- Hoje estou "me sentindo" tão bem aqui, sozinho, assistindo esse DVD, que não quero sair. Simples assim. Não sou obrigado a sair porque hoje é sábado!

Eureka!!! Posso também ser feliz estando sozinho em casa em um sábado à noite!

(Onde foi que aprendemos que isso é algum pecado mortal?)

Antes que eu seja mal compreendida, ouçam: eu não tenho absolutamente nada contra as pessoas que gostam de sair, badalar, agitar. Mesmo! Se essa for a sua verdade, é claro que pode ser também uma boa escolha.

Mas as pessoas são diferentes umas das outras, e se sentem de formas diferentes dependendo do momento. Assim, o que me preocupa é a criação de regras que desrespeitem essas diferenças. O que me preocupa é essa “obrigatoriedade de diversão”, que considero algo absolutamente não saudável. A obrigatoriedade de estar “felizinho” o tempo todo, de sociabilizar o tempo todo, de estar sempre pronto a enfrentar qualquer coisa em troca de algo que supostamente me fará feliz.

Pense: Ou você está feliz, ou não está.

Esteja você no alto de uma montanha do Tibete ou no bar mais badalado do momento, não é lá que você encontrará o bem-estar que procura, deixe de iludir a si próprio e evite aquela sensação de frustração e vazio que muitas vezes sentimos quando colocamos em algo expectativas que jamais poderão ser cumpridas.

Não espere que nada do que você “faça” seja responsável por quem você “é”.

Aprenda a visitar seu mundo interno mais vezes. Existe alguém que mora lá, sabia? Alguém que sempre sabe o que é melhor para a sua vida.

- Você mesmo!

Se você aprender a se comunicar com essa parte sua, terá muito mais chances de escolher o programa que realmente fará com que você se sinta bem. Assim, antes de se decidir entre o DVD e a balada, faça uma visitinha a esse personagem que mora em seu íntimo. Aprenda a respeitar sua opinião.

Se quiser ficar no sofá, fique.

Se quiser badalar, vá.

Sem certos e errados. Sem expectativas.  Sem culpas.  Apenas vivendo a sua verdade no momento presente.

 




Patricia Gebrim

É Psicóloga Clínica, atua numa abordagem transpessoal. Seu trabalho é direcionado a favorecer o autoconhecimento e a transformação das crenças limitadoras que nos mantêm aprisionados a padrões repetitivos de escolhas. É escritora, publicou 'Gente que mora dentro da gente' e o best-seller 'Palavra de Criança' pela editora Pensamento



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