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Uso esporádico de maconha leva à dependência?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Danilo Baltieri

Resposta: O consumo de maconha em geral começa ocasionalmente (em festas e com amigos), avança para consumo regular, passa para o uso freqüente, depois pode progredir para o abuso e, finalmente, para a dependência. Trata-se de um avanço progressivo do consumo da droga. Isso não quer dizer que todas as pessoas que experimentam a droga se tornam dependentes da mesma. Todavia, isso também não quer dizer que todas as pessoas que a experimentam não se tornam dependentes dela. Existem múltiplos fatores de risco que facilitam o desenvolvimento do quadro de dependência química da maconha, como fatores genéticos, psicossociais e ambientais.

A maconha consiste na mais freqüente substância ilícita consumida no Brasil e em vários outros países do mundo. Ainda muitas pessoas acreditam que ela não gera dependência, embora quadros de síndrome de dependência desta substância sejam freqüentes nos serviços especializados no tratamento das dependências químicas.

Usuário de maconha por décadas pode largar de uma vez só?

Resposta: O usuário de maconha por décadas deve procurar um profissional especializado para auxiliá-lo no difícil processo de cessação do consumo de substâncias. Seguramente, o usuário pode cessar o consumo de uma só vez. Nestas circunstâncias, ele pode experimentar sintomas de síndrome de abstinência, como irritabilidade, insônia, ansiedade e redução do apetite, além de importante desejo de voltar a usar, que podem ser manejados clinicamente. De qualquer forma, o mais importante do processo é a decisão clara por parte do usuário de parar o uso.

O apoio de familiares e amigos sempre é bem-vindo. Em geral, quando sob tratamento, eu recomendo a cessação imediata do consumo da droga. Isso não costuma ser uma tarefa fácil para o dependente que apresenta fissura pela droga, consome grandes quantidades de maconha em alta freqüência e possui a maior parte dos seus amigos também consumidores da droga. Todavia, a decisão deve ser clara e lembrada ao paciente durante as suas consultas.

Mesmo quando o paciente dependente consegue manter um tempo considerável de abstinência da droga, através de mudança do seu estilo de vida e da modificação dos comportamentos associados a esse consumo, ele pode voltar a consumi-la (recaída). Isso não deve significar “falha” do tratamento. Ao contrário, o paciente deve ser novamente incentivado a permanecer abstinente, reconhecendo as situações e os motivos que o levaram à recaída, objetivando driblá-los futuramente. O desenvolvimento de estratégias de evitação do consumo da substância, a mudança do estilo de vida, e o reconhecimento de que a Síndrome de Dependência consiste em uma doença, costumam ser ferramentas essenciais no processo terapêutico.

Meu marido parou de fumar maconha de uma só vez
Isso após 40 anos de uso. Ele está sentindo algumas reações como: falta de apetite, dores no estômago, enjôos, calafrios, perda de peso. Gostaria de saber se essas reações têm a ver com o fato dele ter parado de só uma vez?

Resposta: Os principais sintomas da síndrome de abstinência da maconha são: ansiedade, irritabilidade, nervosismo, redução do apetite, inquietação, dificuldade para dormir. Menos freqüentemente, o dependente de maconha que cessa ou reduz o consumo abruptamente pode manifestar sensação de estar gripado, humor deprimido, desconforto gástrico, sudorese e leves tremores em membros superiores.

Provavelmente, esses sintomas referidos pelo seu marido estão relacionados com a cessação abrupta do consumo de maconha em um indivíduo dependente. No entanto, são sintomas geralmente frustros que cessam em poucos dias, embora o dependente possa manifestar desejo intenso de fumar durante muito tempo.

Segundo alguns estudos, cerca de 50 a 90% dos dependentes de maconha que procuram tratamento especializado sofrem de sintomas de síndrome de abstinência. Quanto maior a gravidade da dependência, mais intensos serão os sintomas da síndrome de abstinência.

Seu marido deve ser incentivado a manter-se abstinente. Em muitas situações, quanto mais intensos os sintomas da abstinência, maiores são as chances de recaídas ou lapsos. O apoio e a participação de familiares também abstinentes são essenciais para o sucesso na manutenção da abstinência.

Aproveito o ensejo para congratular a decisão do seu marido de cessar o consumo dessa droga.

Atenção!
As respostas do profissional desta coluna não substituem uma consulta ou acompanhamento de um profissional de psiquiatria e não se caracterizam como sendo um atendimento

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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