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Psicólogo revela seu primeiro atendimento online

por Luís César Ebraico

Eu já era graduado em Psicologia e, portanto, conhecia bastante a Psicanálise do ponto de vista teórico – especializei-me nela, terminando por ensiná-la na faculdade em que me formei (PUC-RJ) – quando fui procurar minha análise pessoal.

Passei por cinco psicanalistas, todos internacionalmente sacramentados, antes de encontrar um capaz de ouvir realmente seu paciente. Desses, três – repito, todos membros regulares de instituições psicanalíticas internacionalmente reconhecidas, eram totalmente surdos. Só sabiam repetir como papagaios interpretações absolutamente estereotipadas.

Como conhecedor da Psicanálise, logo detectei isso e naturalmente caí fora, com pena dos vários leigos que terão certamente ficado vários anos com eles, em tratamentos absolutamente estéreis. Já outro era extremamente capaz: fiquei sete anos em análise com ele, à razão de cinco sessões por semana. O restante... bem, esse, se não era um robozinho de interpretações prêt-à-porter, tampouco sempre escutava. Segue-se um exemplo dessa má escuta, ocorrida em uma sessão com esse último psicanalista, após uma pequena introdução sobre as circunstâncias em que essa sessão transcorreu.

Sempre levei profundamente a sério o processo psicanalítico. Ora, eu sabia que a tarefa do paciente era descrever, o mais honestamente possível, tudo que durante a sessão, venha a sua consciência, sem o quanto possível, proteger-se de seus pensamentos e, particularmente, SEM PRECISAR DELES PROTEGER O ANALISTA. O diálogo a seguir é de minha primeira sessão com esse analista em tela, a quem chamarei de Carlos.

LC (logo ao deitar no divã): — Caramba, você é feio pra burro!

CARLOS: — A função de analista não é ser bonito, é saber analisar.

Imagino que os que me acompanharam até aqui são capazes de avaliar como a resposta de Carlos foi inadequada e como teria sido muito mais produtivo algo do tipo:

LC (logo ao deitar no divã): — Caramba, você é feio pra burro!

CARLOS: — Qual a sua relação com a feiúra?

Mas o que pretendo particularmente enfatizar aqui é o que venho enfatizando em todos os meus escritos, conferências, etc., ou seja, que essa ABORDAGEM MAIS PRODUTIVA não deve ser RESERVA DE MERCADO de psicanalistas, mas ao contrário, ser empregada por todos nós nas relações não formais de nosso cotidiano, o que nos tornaria a todos regulares promotores de nossa saúde mental e da daqueles que nos cercam.

Os diálogos a seguir ilustram o emprego em nosso dia-a-dia, dos ensinamentos mais fundamentais da Psicanálise. Comecemos como os

Diálogos promotores de doença psicológica (recalcantes)

FILHO (de sete anos, falando de forma enfática): — Você NÃO GOSTA DE MIM!

MÃE: — Gosto sim, meu amor. Você é a coisa mais linda da mamãe!

Ou:
FILHO (de cinco anos, falando de forma enfática): — Você NÃO GOSTA DE MIM!

PAI: — Como não gosto de você! Quem é que trabalha o dia inteiro para você poder ter tudo que você tem: casa, roupa, comida, brinquedos? Que absurdo! Nunca mais repita isso!

E prossigamos com os:

Diálogos promotores de saúde psicológica psicológica (DESrecalcantes)

FILHO (de sete anos, falando de forma enfática): — Você NÃO GOSTA DE MIM!

MÃE: — Ah, é, filho? E por que você acha isso?

FILHO: — Porque blá, blá, blá, blá, blá, blá...!

MÃE: — Entendi.

FILHO (de sete anos, falando de forma enfática): — Mas você gosta ou não gosta?!

MÃE: — Bem, se não gosto, não percebo, mas vou pensar sobre o que você falou. Quem sabe você possa ter alguma razão?

FILHO: — Acho bom você pensar mesmo.

MÃE: — Combinado.

Ou:

FILHO (de sete anos, falando de forma enfática): — Você NÃO GOSTA DE MIM!

MÃE: — Puxa, deve ser chato achar que nosso pai não gosta da gente!

FILHO: — É chato, sim.

MÃE: — Imagino.

Via de regra, após diálogos desse segundo tipo, passa-se um tempinho, e a criança volta, leve leve, mostrando algum sinal de carinho em relação ao pai ou à mãe, como se dissesse: “Desculpe, mas eu estava precisando encenar a situação em que alguém não gosta de mim, para aprender a lidar com ela. Obrigado por ter entendido e não ter atrapalhado, O.K.?”

Hoje em dia, contudo, graças a cultura alienada em que vivemos, é muito pouco provável encontrarmos tanta sabedoria em um pai ou em uma mãe. Antes que tal ocorra, será necessário que os ensinamentos da *Loganálise se difundam sobre este surrado planeta, cujos abundantes recursos estão sendo malbaratados e destruídos pela incompetência dos que o ocupam.

*Loganálise: filhote da Psicanálise: pretende mostrar como o cidadão comum, em seu dia-a-dia, pode tirar proveito de conceitos como repressão, fixação, trauma e outros para promover sua própria saúde psicológica e a daqueles com quem se relaciona.

SERVIÇO

Primeira aula gratuita do curso de Formação de Psicanalistas de Orientação Loganalítica

Reservas por tel: (21) 2523 5315

 


Ângelo Medina é editor-chefe do portal Vya Estelar. É jornalista e ghost writer. Com 30 anos de experiência, iniciou sua carreira na cobertura das eleições à Prefeitura de São Paulo em 1988 (Jornal da Cultura). Trabalhou no Caderno 2 - O Estado de São Paulo, Revista Quatro Rodas (Abril). Colaborou em diversas publicações e foi assessor de imprensa no setor público e privado. Concebeu o site Vya Estelar em 1999. É formado em Comunicação Social pela UFJF - Universidade Federal de Juiz de Fora.

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