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Atividade física regular na adolescência pode prevenir danos cerebrais ao longo da vida

Ricardo Arida 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Ricardo Arida

Estudos recentes têm enfatizado o papel do exercício físico na prevenção e regeneração nos processos de envelhecimento.

No texto anterior (clique aqui), foi comentado que o cérebro que envelhece é capaz de se utilizar de mecanismos adaptativos consideráveis para evitar uma maior redução cognitiva e neurodegeneração, provavelmente por mecanismos de proteção e de restauração neural.

Os fatores que previnem uma redução na capacidade cognitiva pelo envelhecimento têm sido denominados conjuntamente de reserva neural.

Estudos prelimilares mostram importante relação entre a atividade física praticada na infância/adolescência e a cognição desses mesmos indivíduos na idade avançada (para mais detalhes, clique aqui).

Nesse sentido, um grupo de pesquisadores do Departamento de Fisiologia da Universidade Federal de São Paulo publicou um trabalho sugerindo esse efeito (1). Gomes da Silva e colaboradores (1) verificaram se o exercício físico realizado durante o desenvolvimento cerebral pós-natal em ratos poderia modificar a suscetibilidade a um dano cerebral em fases mais tardias da vida.

Como abordado textos anteriores (clique aqui), estudos clínicos demonstraram um efeito positivo da atividade física sobre a frequência e gravidade de crises em pessoas com epilepsia. Informações de estudos em animais também indicam que o exercício pode modular a vulnerabilidade neuronal a insultos epilépticos (2), isto é, um programa de exercício físico reduz a susceptibilidade a crises em modelos animais de epilepsia.

Nesse estudo (1), animais foram submetidos a um programa de exercício físico diário (corrida em esteira rolante) entre o período pós-natal de 21 a 60 dias, isto é, da adolescência ao início da fase adulta. Após este período, o treinamento físico foi interrompido e os animais permaneceram sem atividade física programada por mais 90 dias. Este "período sem estímulo" foi usado para observar a influência do exercício físico precoce na susceptibilidade a crises induzidas pelo modelo da pilocarpina em períodos tardios da vida do animal. Os resultados mostraram que o programa de exercício realizado durante o período pós-natal do desenvolvimento cerebral atrasou o início das crises e diminuiu a intensidade de sintomas motores induzidos pela pilocarpina em ratos de meia-idade.

Alguns fatores podem estar contribuindo para esse efeito. Estudos recentes têm mostrado que o exercício físico pode modular a maturação funcional do cérebro por processos de neuroplasticidade. Por exemplo, estudos realizados pelo mesmo grupo de pesquisadores mostram que um programa de exercício físico em ratos durante a adolescência aumenta a plasticidade cerebral, assim como a aprendizagem e memória (3,4). Outro achado importante desses estudos com animais é que a atividade física nas fases iniciais do desenvolvimento aumenta a capacidade de evocar memórias em períodos mais tardios da vida. Esses dados estão de acordo com achados anteriores em humanos que mostram uma correlação entre a prática de atividade física no início da vida e funções cerebrais ao longo da vida (5).

Nesse sentido, muitos estudos indicam que várias experiências de vida, como atividades educacionais, ocupacionais ou de lazer podem estar associadas com a reserva neural e são sugeridos em promover a melhora da saúde mental (Rivière et al, 2001; Raine et al, 2003; Arida et al., 2010).

Com base nessas observações, podemos sugerir que o exercício físico realizado na adolescência pode resultar no desenvolvimento de um circuito neural mais complexo capaz de tolerar insultos no sistema nervoso nas fases mais tardias da vida. Futuros estudos sobre essa questão são extremamente importantes para elucidar como o exercício realizado no período inicial da vida pode exercer impacto positivo sobre o cérebro, a longo prazo. Para isso, estudos longitudinais com programas de exercícios físicos durante a infância/adolescência são necessários. Essa informação pode ter implicações mais amplas não somente para a prevenção, mas também como uma estratégia para retardar o aparecimento de distúrbios cerebrais, assim como retardar o envelhecimento normal do cérebral.

1-Gomes da Silva S, de Almeida AA, Silva Araújo BH, Scorza FA, Cavalheiro EA, Arida RM. Early physical exercise and seizure susceptibility later in life. Int J Dev Neurosci. 2011;29(8):861-5.

2- Arida, R.M., Scorza, F.A., Gomes da Silva, S., Schachter, S.C., Cavalheiro, E.A. The potential role of physical exercise in the treatment of epilepsy. Epilepsy Behav. 2010;17 (4):432–5.

3- Gomes da Silva, S., Unsain, N., Mascó, D.H., Toscano-Silva, M., de Amorim, H.A., Silva Araújo, B.H., Simões, P.S., da Grac¸ a Naffah-Mazzacoratti, M., Mortara, R.A., Scorza, F.A., Cavalheiro, E.A., Arida, R.M. Early exercise promotes positive hippocampal plasticity and improves spatial memory in the adult life of rats. Hippocampus, 2012;22(2):347-58.

4- Gomes da Silva, S., Araujo, B.H., Cossa, A.C., Scorza, F.A., Cavalheiro, E.A., da Grac¸ a Naffah-Mazzacoratti, M., Arida, R.M.,. Physical exercise in adolescence changes CB1 cannabinoid receptor expression in the rat brain. Neurochem. Int. 2010;57(5):492-6.

5- Dik, M., Deeg, D.J., Visser, M., Jonker, C.,. Early life physical activity and cognition at old age. J. Clin. Exp. Neuropsychol. 2003;25:643–53.




Ricardo Arida

Possui graduação em Educação Física pela Universidade de São Paulo (1980), mestrado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1995), doutorado em Medicina (Neurologia) pela Universidade Federal de São Paulo (1999) e pós-doutorado pela Universidade de Oxford-UK. Atualmente é professor adjunto da Universidade Federal de São Paulo. Tem experiência nas áreas de Neurociências e Fisiologia do Exercício Mais informações: www.ricardoarida.wordpress.com



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