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Como é o tratamento para alcoolismo?

Joel Rennó Jr. 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Joel Rennó Jr.


Resposta: Cada caso clínico deve ser individualizado. Não há soluções únicas para todos os dependentes de álcool. Múltiplos e diferentes fatores atuam em conjunto.

As condutas devem ser tomadas apenas após uma avaliação clínica, psiquiátrica e psicológica.

O planejamento terapêutico depende do nível de gravidade e incapacitação gerados pelo alcoolismo, dos prejuízos sócio-funcionais (em atividades de estudo, profissionais, familiares e sociais), dos problemas físicos de saúde envolvidos (cirrose, alterações de memória, pancreatite, alterações cardíacas, neurológicas, etc), da presença de comorbidades psiquiátricas (associação com outros transtornos psiquiátricos como depressão, ansiedade, transtorno bipolar do humor, e dependência de outras drogas como cocaína), além do nível de interesse e motivação do paciente para iniciar o tratamento.

Fatores relacionados à personalidade individual também são importantes para serem incluídos na avaliação da terapêutica a ser utilizada. Histórico pessoal e familiar detalhado na anamnese é importantíssimo.

"Alcoolismo é uma doença crônica, não há cura e sim controle dos sintomas e sinais. A abstinência é algo que se buscará por toda a vida, dia após dia"

Portanto, pelo exposto acima, pode variar desde a internação compulsória (em casos extremos e urgentes com riscos de suicídio, psicose e prejuízos sérios nos diversos níveis) até tratamentos ambulatoriais e auxílios significativos em grupos como o AA, extremamente sérios e importantes. Os tratamentos podem ser em conjunto, ou mesmo alternados, dependendo do estágio e do nível de gravidade da doença - além da motivação e conscientização do doente sobre a doença. Posturas rígidas, reducionistas e arcaicas só prejudicam a todos.

Costumam ser tratamentos e acompanhamentos longos, por toda a vida, mesmo após grandes e prolongados períodos de abstinência. O alcoolismo é uma doença crônica, não há cura e sim controle dos sintomas e sinais. A abstinência é algo que se buscará por toda a vida, dia após dia.

Recaídas, infelizmente, são comuns no processo de recuperação. Familiares, geralmente, migram por diversos médicos e terapeutas. Infelizmente, de forma involuntária, interrompem bons tratamentos por puro desespero ou desconhecimento.

Família e codependência

Vários sentimentos ocorrem nos familiares como ansiedade, raiva, impotência, tristeza, culpa, insegurança, desânimo e abandono. Podem até se tornar co-dependentes. Por isso, nunca deixo de orientá-los a também procurarem ajuda em locais apropriados como o Nar-Anon (www.naranon.org.br) ou Al-Anon (http://www.al-anon.org.br/default.asp). E também fazerem psicoterapia própria.

O alcoolismo é uma doença crônica e complexa, requer vários níveis diferentes de ajuda. Todas são bem-vindas, inclusive de voluntários e religiosos. Todos, de alguma forma, contribuem no processo, desde que conduzidos, é claro, por pessoas sérias e éticas; além de embasadas por profissionais ou entidades qualificados de diversas áreas.

Fatores genéticos, psicológicos, familiares, sociais, culturais e ambientais devem ser analisados, pormenorizadamente, pois diminuem as chances de recaída quando bem abordados.

Bem, espero que todos tenham entendido que a minha posição de médico psiquiatra é de um amplo e bem estruturado projeto de reabilitação e tratamento, através da integração séria dos diferentes níveis de atuação profissional e voluntária.

Pela complexidade e multifatoriedade do alcoolismo, jamais pode haver posturas reducionistas. Por fim, no âmbito governamental, deveria haver maior orientação e esclarecimento dos riscos sérios do alcoolismo, além de rigor no controle do excesso de propagandas e comerciais sobre cerveja.

Garotos-propaganda como o Zeca Pagodinho, que eu admiro, ganhou 5 milhões de reais da empresa, no seu novo contrato. Além de belas modelos e atrizes seminuas, acabam seduzindo crianças e adolescentes a experimentarem, cada vez mais precocemente, o álcool. Parece tudo uma grande festa, quando na realidade é o oposto.




Joel Rennó Jr.

Dr. Joel Rennó Jr. MD, Ph.D. Professor do Departamento de Psiquiatria da FMUSP. Diretor do Programa de Saúde Mental da Mulher - Instituto de Psiquiatria da USP. Médico do Corpo Clínico do Hospital Israelita Albert Einstein- São Paulo. Coordenador da Comissão de Estudos e Pesquisa de Saúde Mental da Mulher da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP). www.psiquiatriadamulher.com.br



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