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Caminhos para uma velhice bem-sucedida

Elisandra Vilella G. Sé 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR

por Elisandra Vilella G. Sé

Atualmente o foco dos estudos da gerontologia tem sido o envelhecimento bem-sucedido. O termo envelhecimento bem-sucedido surgiu na gerontologia nos anos 1960, associada a uma importante mudança ideológica, que consistiu em considerar que a velhice e o envelhecimento não são sinônimos de perda, doença, inatividade e algo contrário ao desenvolvimento.

Desde então, a gerontologia passou a investigar também os aspectos positivos da velhice e o potencial para desenvolvimento, a capacidade de aprendizado na velhice, as funcionalidades que se mantêm preservadas ao longo da vida, o bem-estar psicológico e índices de satisfação na velhice, de forma que podemos definir o envelhecimento bem-sucedido como o nível de alta saúde física, mental, bem-estar emocional e competência para a adaptação na velhice.

O bem-estar emocional ou psicológico refere-se ao estado da mente, incluindo sentimentos de felicidade, contentamento e satisfação com as condições próprias da vida. Para melhor compreendê-los, é importante lembrar que qualquer definição de sucesso leva em conta um critério de comparação. Adicionalmente é preciso não desconsiderar que, dada sua origem histórica dentro da gerontologia, o conceito inclui a idéia da heterogeneidade da velhice (experiências diversas) vista como fenômeno não só biológico, mas também construído socialmente.

Os principais conceitos associados ao termo envelhecimento bem-sucedido estão:

1º) Baixo risco de doenças e de incapacidades relacionadas a doenças;
2º) Funcionamento mental e físico excelentes;
3º) Envolvimento ativo com a vida.

A atividade é um meio privilegiado das pessoas obterem o bem-estar emocional e alcançar um envelhecimento bem-sucedido. O termo atividade pode incluir atividades físicas e mentais, individuais e grupais. Psicólogos estudiosos da gerontologia como Reich, Zantra e Hill definem atividade como um "comportamento em resposta a um evento - fazer alguma coisa acerca de."

O ser humano tem a necessidade de garantir um significado para sua existência, a fim de obter satisfação pessoal. E prolongar a vida sem garantir à longevidade algum significado, não é o melhor desafio para o envelhecimento. Por isso, munir a vida de significado pessoal tem vários efeitos positivos que propiciam a satisfação e, conseqüentemente, o alcance do envelhecimento bem-sucedido.

"Um dos fatores que contribuem para o significado da existência humana é o senso de propósito de vida. Todas nossas tarefas devem ter metas pessoais"

Significado pessoal é um sistema cognitivo construído individualmente, isto é, que é fundamentado em valores, e é capaz de dotar a vida de satisfação pessoal. Um dos fatores que contribuem para o significado da existência humana é o senso de propósito de vida. Todas nossas tarefas devem ter metas pessoais. Outro fator é a vida produtiva.

O ser humano muitas vezes vê-se ameaçado quando perde suas principais fontes de significado, tais como trabalho, status social e empreendimentos.

O grande medo das pessoas é que com o processo de envelhecimento essas perdas possam acontecer, uma vez que nossa cultura, valoriza o jovem, a vitalidade e a produtividade econômica, não atribuindo um papel significativo para aos idosos. E é nesse momento que a capacidade de adaptação do ser humano assume importância.

O envelhecimento bem-sucedido não é apenas privilégio de poucos ou um direito, mas sim um objetivo a ser alcançado, por todos aqueles que passam por vivências, eventos, mudanças que geralmente acompanham a vida adulta e a velhice. Para responder a esse desafio, a busca por atividades e o engajamento ativo com a vida é condição necessária para o alcance de significado pessoal.

Do ponto de vida fisiológico, conforme descreve a literatura gerontológica o envelhecimento é caracterizado por mudanças biológicas que nos fazem experienciar limitações, declínios em alguns sistemas, dificultando o equilíbrio do organismo, sofrendo influências de fatores genéticos, ambientais, fatores de risco, sociais e psicológicos.

No entanto, apesar de idosos apresentarem algum tipo de doença crônica, esse fato não necessariamente determina uma limitação para a realização de atividades, desde que exista controle sobre a patologia que venha apresentar.

A atividade sistemática, ou seja, aquela praticada regularmente, empresta significado e satisfação à vida, quer pelo compromisso e responsabilidade social nela implícitos, quer pela oportunidade de manter o convívio social.

O bem-estar emocional manifesta-se não só quando o idoso busca atividade, mas também quando se dedica a relacionamentos significativos, valores, ideais e tradições. Dependendo de interesses e recursos, o compromisso pode tomar muitas formas diferentes, podendo consistir em atividades prazerosas.

O importante é que se esteja comprometido com alguma coisa ou alguém.

Velhice produtiva é definida não só como exercício de trabalho remunerado, mas também como exercício de trabalho não-remunerado (Exs: cuidar dos netos, de idosos e da casa, trabalhos voluntários) e envolvimento em atividades de lazer que reflete na saúde mental positiva.

Não apenas as atividades sociais e de lazer como também as atividades físicas têm implicações na qualidade e expectativa de vida. Há evidências de que a atividade física tem efeito preventivo e terapêuticos sobre as reações ao estresse e a doenças. Para ser significativa a atividade física deve trazer satisfação. Para que qualquer atividade seja prazerosa e tenha resultados positivos para a satisfação pessoal, deve-se levar em consideração a motivação ou as circunstâncias em que foi gerada.

"Velhice produtiva é definida não só como exercício de trabalho remunerado, mas também como exercício de trabalho não remunerado

Algumas das iniciativas com o objetivo de promover o envelhecimento bem-sucedido, surgiram nos anos 60 como é o caso de programas que abrigam um espaço para a convivência de pessoas idosas. Foi, entretanto, nos anos 80 que esses espaços se proliferaram para a realização de uma série de atividades, tais como aulas, palestras, conferências, promovendo o aprendizado, dança, oficinas de leitura, memória, textos, artesanatos, atividade física, excursões, etc..

No Brasil, associações e programas para terceira idade tem mobilizado uma grande parte da população idosa, sobretudo o público feminino com o objetivo de promover um envelhecimento ativo, a auto-estima dos idosos e lutar contra os preconceitos. Dentre alguns programas, podemos citar os conselhos, sindicatos dos idosos, organizações não-governamentais, associações de municípios, organizações privadas, clubes para terceira idade e faculdades abertas à terceira idade.

Em atividades em grupo, os idosos podem encontrar satisfação pessoal e apoio para a prevenção do estresse, ampliando as possibilidades de suporte global e de interação social.

Certamente as imagens populares de pessoas idosas estão se modificando, levando em conta mudanças culturais, sociais e científicas. Com o avançar da idade, podemos continuar a nos desenvolver e manter-nos ativos acumulando experiências e ganhos ao longo da vida.

Sempre haverá uma atividade adequada a cada pessoa.

O desafio para se conseguir alcançar o envelhecimento bem-sucedido com uma maior expectativa de vida está no engajamento ativo em atividades, sejam elas individuais ou grupais, adaptar-se de forma sadia aos processos de mudança a que estamos expostos no curso de vida, de forma que os anos vividos sejam plenos de qualidade, de significados e de dignidade.




Elisandra Vilella G. Sé

Fonaoudióloga pela Faculdade Tereza D'Ávila de Lorena (FATEA/USC) (1995), Mestre em Gerontologia pela Faculdade de Educação da UNICAMP (2003); Doutorado em Linguística - Área de Neurolinguística pelo Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP (2011); Especialista em Educação em Saúde para Preceptores do SUS pelo Instituto de Ensino e Pesquisa do Hospital Sírio Libanês (2013); foi pesquisadora visitante na Associação Alzheiemr Portugal em Lisboa (2013); Coordenadora da ABRAZ - Associação Brasileira de Alzheimer - sub-regional Campinas e Jaguariúna.



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