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Por que jovens estão pingando vodka nos olhos?

Danilo Baltieri 01/01/2016 SAÚDE E BEM-ESTAR
Baixa autoestima está entre os principais fatores para o cultivo desse hábito

por Danilo Baltieri

Resposta: Colocar vodka diretamente nos olhos, prática conhecida como “vodka eyeballing” tem ganhado popularidade e adeptos jovens em vários locais do mundo, especialmente durante festas e noitadas.

De acordo com registros de usuários, a prática supostamente induz um estado de “euforia” mais rapidamente do que quando ingerida. No entanto, a verdade é que o álcool provoca reação inflamatória aguda intensa nos olhos os quais absorvem muito pouco da substância. Além disso, muitos jovens que se utilizam dessa prática comumente já fizeram uso de notáveis quantidades de bebidas alcoólicas pela via convencional no mesmo período.

Além da reação inflamatória aguda, lesões ulcerosas da córnea e esclerótica (branco dos olhos) têm sido verificadas. Como repercussões graves dessa prática, a redução da acuidade visual, dor aguda e crônica e cegueira devem ser apontadas veementemente.

De fato, embora assustadora em todos os aspectos, essa prática tem sido realizada por jovens e adolescentes. Trata-se, na verdade, de mais um tipo de comportamento de alto risco assumido por diferentes pessoas. A tarefa de explicar as razões dos comportamentos de alto risco praticados por jovens não é simples e nem tampouco fácil, já que inúmeros fatores psicossociais, psicológicos e neurobiológicos comumente misturam-se gerando resultados bastante insatisfatórios.

Comportamentos de alto risco significam aqueles que podem gerar efeitos adversos sobre o desenvolvimento global e o bem-estar do jovem, ou mesmo que podem evitar a adequada e saudável evolução do mesmo. Esses comportamentos incluem aqueles que provocam imediato dano físico/psicológico bem como aqueles com efeitos negativos cumulativos. Tendo em vista que os comportamentos de risco podem impactar negativamente a vida do jovem bem como a daqueles que o cercam, é essencial que pais, educadores, médicos e psicólogos estejam sempre conscientes do (re-) surgimento de (velhos e) novos problemas, dos fatores que presumivelmente os geram e sobre o que pode ser feito para combatê-los.

Comportamento de alto risco

Dentre vários grupos de comportamentos de alto risco prevalentes entre jovens, citam-se: consumo de álcool e outras drogas, comportamentos sexuais de risco e comportamentos violentos (incluindo suicídio). O consumo inadequado de substâncias psicoativas é comportamento que gera tanto problemas imediatos quanto tardios. Beber e utilizar outras drogas têm sido associados com acidentes de trânsito, violência física e sexual, interações sociais problemáticas, suicídio, homicídio e várias doenças.

Apesar de tarefa extremamente árdua, estudos têm identificado fatores que predispõem jovens a esses tipos de comportamentos. No nível individual, aqueles jovens com baixa autoestima, pobre engajamento nos estudos, poucas aspirações profissionais e envolvidos com jovens de comportamentos negativos estão em maior risco. Fatores familiares incluem pobre comunicação pais-jovens, baixo monitoramento parental, falta de suporte familiar e psicossocial. Não surpreendentemente, quando pais engajam em comportamentos de risco, a chance dos seus filhos seguirem seus passos é alta e significativa. Como variáveis extrafamiliares podemos citar: pressão de amigos, inadequado ou negativo clima escolar e efeito “vizinhança”.

Pesquisas têm demonstrado que apesar da adolescência ser um período marcado por “tempestades afetivas” e estresse emocional, o relacionamento com os familiares é bastante valorizado pelos próprios jovens. Para muitos observadores, o que de fato ocorre entre muitos adolescentes/familiares é a busca pela renegociação do relacionamento, ao invés de uma quebra propriamente dita. Essa renegociação é natural e essencial à medida que o jovem vai crescendo, organizando sua capacidade de julgamento, autodisciplina e independência.

Algumas estratégias que os pais podem assumir nessa fase são:

a) Não subestime e desconsidere o que o seu filho está dizendo. Quando você considerar que o adolescente está errado, exponha suas idéias e converse com ele sobre as suas e as dele. Tenha certeza de que você o está ouvindo também;

b) Conversar com o filho jovem não precisa ter hora marcada. Muitas vezes, essas conversas ocorrem durante atividades compartilhadas entre você e ele (fazendo compras, preparando uma refeição, caminhando juntos etc);

c) Comunique claramente os seus valores, mesmo que sejam desconfortáveis para os seus filhos;

d) Segurança é uma questão não negociável. Portanto, as regras devem ser extremamente claras nesse sentido;

e) Ajude os filhos aprenderem com a experiência;

f) Encoraje atividades positivas e saudáveis.

Como está a formação de seu filho?

Abaixo, forneço um quadro com 30 assertivas que tratam sobre vivências de suporte, limites, competência social, valores e educação entre jovens. Este documento foi desenvolvido pelo Search Institute of the University of Nebraska. Seu filho e você podem apontar como “verdadeira” ou “falsa” cada assertiva individualmente e, depois, comparar as respostas e discutir o resultado amigavelmente.

Apoio

1. O jovem recebe muito apoio e amor dos seus familiares.

2. O jovem vê seus pais como acessíveis fontes para conselho e apoio.

3. O jovem frequentemente conversa sobre questões íntimas com os seus pais.

4. O jovem comumente acessa outros adultos (que não os pais) para conselho e apoio.

5. O jovem frequentemente conversa sobre questões íntimas com outros adultos (que não os pais);

6. Os pais são engajados no sucesso do jovem na escola.

7. A escola proporciona ambiente acolhedor e encorajador.

Limites

8. Os pais têm claros posicionamentos sobre regras de conduta.

9. Os pais disciplinam seus filhos quando esses quebram as regras.

10. Os pais procuram sempre saber onde seus filhos estão, bem como com quem;

11. O adolescente sai para divertir-se cerca de três noites ou menos por semana;

12. Os melhores amigos do adolescente apresentam comportamento responsável.

Consumo de tempo

13. O adolescente gasta pelo menos três horas por semana, envolvido com músicas, banda musical, outras atividades artísticas;

14. O adolescente gasta pelo menos três horas por semana, envolvido com atividades esportivas;

15. O adolescente gasta pelo menos uma horas por semana, envolvido com atividades organizacionais, clubes (fora da escola) etc;

16. O adolescente gasta pelo menos uma hora por semana, envolvido com atividades religiosas.

Engajamento com a educação (estudo)

17. O jovem é bastante envolvido com a escola;

18. O jovem aspira a continuar seus estudos;

19. O desempenho do jovem na escola é acima da média;

20. O jovem faz seus deveres de casa, ocupando pelo menos 6 horas na semana.

Valores

21. O jovem manifesta interesse em ajudar outras pessoas;

22. O jovem pensa sobre como poderia reduzir o sofrimento das outras pessoas;

23. O jovem preocupa-se com os sentimentos de outras pessoas;

24. O jovem acredita que é importante não se envolver em sexo casual.

Competência social

25. O jovem costuma “levantar bandeira” para questões sociais relevantes;

26. O jovem é bom em tomar decisões apropriadas diante de dificuldades;

27. O jovem consegue estabelecer relacionamentos amigáveis, sem dificuldades;

28. O jovem é hábil em planejar atividades saudáveis;

29. O jovem demonstra boa autoestima;

30. O jovem é otimista sobre seu futuro.

Vya Estelar Responde

Vya Estelar quer colocar você, querido leitor, mais perto ainda de nós. Esse profissional irá responder dúvidas enviadas pelos internautas sobre um determinado tema. O psiquiatra Dr. Danilo Baltieri responderá questões ligadas à dependência química e vícios: drogas, álcool, cigarro e psicotrópicos. Os e-mails serão selecionados e editados de acordo com critério editorial do Vya Estelar, já que não será possível responder a todos. Seu nome e e-mail serão preservados.

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Danilo Baltieri

Médico psiquiatra. Mestre e doutor em Medicina pelo Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Atualmente é coordenador geral do Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria da FMUSP (GREA-IPQ-HCFMUSP).Tem experiência em Psiquiatria Geral, com ênfase nas áreas de Dependências Químicas.



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