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Autoconhecimento em primerio escalão

Lilian Graziano 04/04/2017 PSICOLOGIA
Autoconhecimento em primerio escalão
Fonte: imagem Pixabay
Educação ainda não se preocupa com o desenvolvimento integral da criança

por Lilian Graziano

“Basta ter uma mãe para ser candidato à análise”, diria Freud. E, embora minha linha de atuação se distancie fortemente da Psicanálise, devo admitir que ele está, em parte, correto. Em parte porque, realmente, nossa criação pode fazer verdadeiros “estragos” emocionais. Porém, na infância (fase à qual Freud implicitamente se refere nessa sentença), sofremos influência não apenas de nossas mães e familiares. O ambiente escolar certamente nos ajuda a moldar nosso caráter e comportamentos, sendo, muitas vezes, pelo tempo que hoje as crianças ficam nas escolas, essencial nessas questões. O fator preocupante é que, em uma educação de base conteudista e não necessariamente preocupada com o desenvolvimento integral das crianças, muita coisa se perde. Então, seguindo a linha de Freud, escolas e mães se complementariam em promover a “desordem” emocional dos pequenos indivíduos, que mais tarde gastarão rios de dinheiro no divã tentando consertar suas emoções e mudar padrões adquiridos na infância.

Não se trata de culpabilizar generalizadamente, um ou outro, pelos danos emocionais que assolam nossa existência. Devemos lembrar que a “desordem” ocorre hoje, muito também, por uma questão cultural: nossas crianças crescem focadas em vestibulares, no mercado de trabalho e pouco se dedicam a conhecer seus hobbies, aptidões, a investir nas relações interpessoais. A esquizofrenia desta nossa sociedade se mostra quando, já adultas, elas são demitidas de seus empregos justamente por desconhecerem seus potenciais e terem dificuldades de relacionamento. E isso é um arranjo socialmente estabelecido, aceito, empacotado e vendido em comerciais de televisão, sob o envolvimento de muitas instituições. Cada uma das partes, família e escola, têm sua parcela de responsabilidade, mas não são os únicos a promoverem tal situação (e a família, em si, talvez nem tenha consciência de tamanha trama para tornar os indivíduos sujeitos eternamente insatisfeitos e infelizes).

Muito interessante, nesse sentido, para modificar as bases de nossa criação, a proposta recente do Governo Federal brasileiro de incluir nas bases curriculares nacionais o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, com vistas a uma educação integral. Não que isso já não seja feito, na prática, em salas de aula diversas. A questão é que, a partir de uma diretriz nacional, tal implementação se torna intencional e sistêmica. Influenciará a comunidade escolar, as famílias, em um ciclo que ganha, a partir de então, consistência institucional.

O que as nossas crianças ganham com isso, afinal?

Ganham mais resiliência, se tornam mais colaborativas, otimistas e mais propensas a desenvolver e experienciar emoções positivas. Tais habilidades ajudam na criatividade, no desenvolvimento cognitivo, o que consequentemente influenciará seu desempenho escolar, além de prepará-las para a vida.

Os experts dos rankings educacionais mundiais, os cingapurenses, já acordaram para essa realidade, mudando o foco no desempenho acadêmico de suas crianças, de um formato competitivo e voltado aos índices internacionais de educação, para um modelo de atenção ao desenvolvimento integral, incluindo habilidades socioemocionais, hobbies e aptidões extracurriculares em processos de seleção e avaliação nas escolas.  E o melhor: estão fazendo isso com base na Psicologia Positiva.

O movimento é um alicerce, sem dúvida, para a formação de professores e gestores educacionais. Seria importante que educadores brasileiros seguissem o exemplo ao definir as diretrizes nacionais. Preparar adequadamente nossos professores vai nos permitir mudar um paradigma comportamental na educação e na sociedade, caminhar para escolas mais positivas, crianças e adultos mais plenos. Os psicólogos se imbuirão assim de uma atuação cada vez maior em desenvolvimento humano e cada vez menor em “consertar” estragos causados por essa nossa sociedade que nos cobra tantos resultados, sem nos dar as ferramentas certas para desenvolver nosso potencial.

(Confira, a respeito, o artigo “Habilidades socioemocionais”, p. 11, na revista Make it Positive – www.makeitpositivemag.com)




TAGS :

    autoconhecimento, escola, psicologia, positiva

Lilian Graziano

Diretora dos Instituto de Psicologia Positiva e Comportamento, psicóloga e doutora em Psicologia pela Universidade de São Paulo (USP) com pós-graduação em Psicoterapia Cognitiva Construtivista. Seu doutorado sobre Psicologia Positiva e Felicidade foi a primeira tese brasileira baseada nessa abordagem. Atua há mais de 20 anos na Educação com foco no desenvolvimento de condutas preventivas para os comportamentos humanos disfuncionais. Possui certificação em Virtudes e Forças Pessoais pelo VIA Institute on Character, EUA. Treinou e atendeu centenas de funcionários de grandes organizações tais como: Coca-cola, Basf, Bank Boston, Accenture, British Petroleum, Merrill Lynch, Unilever, dentre outras.



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